Basílica do Carmo:

História de fé no coração de Campinas

 

José Pedro Soares Martins

 

Campinas, Ed.Komedi, 2010

 

 

Apresentação

Introdução

Síntese Introdutória

Primeira Parte

Antecedentes da Paróquia de N.Sra.do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Freguesia

1730-1774

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

1774-1779

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz do Carmo

1779-1870

Segunda Parte

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz Sta.Cruz do Carmo

1870-1938

Fase V

Matriz e Basílica N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

1939-2000

Fase VI

Transição para o Terceiro Milênio

2000 - e o futuro...

 

PARTE I

Antecedentes da Paróquia do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Paróquia

A carteira de identidade de Campinas

Pousos de tropeiros no meio do mato grosso

Busca da autonomia e assistência espiritual

Autorização para ereção da capela

Mandado de Comissão ao Vigário de Jundiaí em vista da construção da capela

A fundação de Campinas e da Paróquia (Freguesia) de N.Sra.da Conceição

Barreto Leme, tradição de desbravamento

Frei Antonio de Pádua Teixeira, o co-fundador

Os outros pioneiros da Cidade e da Igreja

Dom Frei Manuel da Ressurreição, atuação decisiva

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

Largo do Carmo, marco zero de Campinas

Pe. José de Santa Maria Cunha

Inauguração da Matriz

Pe. André da Rocha Abreu

Pe. Manoel Joaquim de Freitas e outros Vigários

Pe. Joaquim José Gomes, a Vila de São Carlos e ideia de nova Matriz

Pe. Fasijó em sua passagem por Campinas

Igreja do Rosário, um marco no centro da cidade

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz

Pe. Manoel José Ferreira Pinto

Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, crítico da escravidão, enquanto Campinas se torna cidade

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

Pe. Dr. João de Almeida Barbosa e o começo da ascensão do café

Primeira visita de Dom Pedro II (1846) e transferência da Matriz para a Igreja do Rosário

Situação do prédio da Matriz Velha

Pe. Antonio Cândido de Mello: novo susto e peste no Paço Municipal

Pe. Joaquim José Vieira, fundador do primeiro hospital de Campinas: a Santa Casa

Polêmica antes da criação da Paróquia de Sta.Cruz

 

Parte II

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz de Sta.Cruz

Criação e instalação da Paróquia de Sta.Cruz, depois do Carmo

Auto de instalação da Nova Freguesia de Sta.Cruz na cidade de Campinas

Matriz de Sta.Cruz do Carmo na década de ouro do café e seu 1º Pároco

2º Pároco, Côn. Nery, no combate à febre amarela: um novo Bispo

Côn. Scipião, 3º Pároco. Pe. Landell de Moura, o "Pai do Rádio"

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

Pe. D'Avila, 4º Pároco de Sta.Cruz do Carmo: Campinas pós febre amarela

Diocese de Campinas, no paroquiato de Côn. Barreto, 5º Pároco do Carmo

Côn. Otávio, 6º Pároco: guerra no mundo, bibliotecas em Campinas

Mons. Ribas D'Avila, 7º Pároco, quando a gripe espanhola assusta Campinas

Côn. Fragoso, 8º Pároco: centenário da Independência e novo Bispo

Côn. Idilio, 9º Pároco: uma nova Matriz, oficialização do nome definitivo da Paróquia do Carmo

Um escultor italo-brasileiro que fez história

Côn. Amaral, 10º Pároco: conclusão da Matriz do Carmo

Lélio Coluccini, o escultor de Campinas

O pintor das igrejas

Fase V

Matriz e Basílica de N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

Côn. Aniger, 11º Pároco e o Congresso Eucarístico

Morte de Dom Barreto

Congresso Eucarístico

Côn. Raphael Roldan, 12º Pároco e o final da II Guerra Mundial

Mons. Lázaro, 13º Pároco: pintura e órgão para a Matriz

Vocação para a música

Côn. Geraldo Azevêdo, 14º Pároco: a Matriz se torna "Basílica do Carmo"

Breve papal de criação da Basílica Menor de N.Sra.do Carmo

1. O título de Basílica e o seu significado histórico

Símbolos da Basílica

2. A Igreja nas ondas do rádio e do povo

3. Campanha da Fraternidade

Celebrações

4. Transformações no Carmo

5. Outras Campanhas

6. Doença de Mons. Geraldo

7. Atuação pastoral e administração

8. Tempo de mudanças

Mais um Bispo do Carmo

9. Reestruturação para o futuro

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Mons. Geraldo

Fase VI

Basílica no Terceiro Milênio

Côn. Pedro Carlos Cipolini, 15º Pároco: o protagonismo dos leigos e a missão na cidade

1. Comunhão e participação

2. Sólida formação para servir

3. Continuidade do restauro da Basílica, agora Patrimônio Histórico

4. Incentivo à participação e acolhimento: pólo missionário

Olhar para a comunicação

Celebrações emocionantes

5. Aprofundando o planejamento

Datas importantes para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 

 

CÔNEGO GERALDO AZEVEDO - 14o PÁROCO:

A MATRIZ SE TORNA “BASÍLICA DO CARMO”

 

      Cônego Geraldo Azevedo estaria por 37 anos à frente da paróquia do Carmo. Período em que Campinas de grande cidade se tornou sede de uma importante Região Metropolitana. Momento de transformações radicais, de consolidação de Campinas como grande pólo universitário, científico, tecnológico e econômico, mas também de incremento dos desafios sociais, incluindo a escalada da violência. Todas essas mutações atingiram em cheio a vida de todos moradores de Campinas, e a paróquia do Carmo não poderia ficar de fora. E foi o momento, especialmente, de transformação da Matriz em Basílica de Nossa Senhora do Carmo, sob a liderança de cônego Geraldo Azevedo.

 

      Nascido a 2 de janeiro de 1921, padre Geraldo Azevedo foi coadjutor da Catedral de Campinas (1947-51), vigário de Santa Gerturdes, Iracemápolis, vice-reitor do Seminário Diocesano e vigário da Paróquia de Bom Jesus no Bonfim, em Campinas.

 

       Desde o início de seu paroquiato, em 1963 (a posse foi a 30 de junho), o padre Geraldo Azevedo agarrou-se à idéia de transformação da Matriz do Carmo em Basílica. Os estudos foram intensificados no início da década de 1970 e, com o respaldo do arcebispo de Campinas, d.Antônio Maria Alves de Siqueira, o pároco  preparou toda a documentação, incluindo o histórico completo da Igreja e a obtenção da aprovação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Com a assinatura dos cardeais do Brasil, o dossiê foi então encaminhado para Roma, subsidiando o pedido de concessão do título.

 

      Após examinar detalhadamente o pedido, a Congregação para o Culto Divino deu seu parecer favorável, posição exposta ao papa. A 6 de novembro de 1974, no formato de Breve Apostólico, o Papa Paulo VI assinou então o decreto Sacra illa aedes, conferindo o título de Basílica à Matriz do Carmo. O fato foi comunicado oficialmente, através do protocolo n. 2057/74, da Congregação para o Culto Divino, com a mesma data da assinatura do decreto do Papa Paulo VI, nos termos a seguir:

 

Breve Papal de Criação da

Basílica Menor de Nossa Senhora do Carmo

“O templo que, dedicado à Bem-Aventurada Virgem Maria, se ergue na cidade brasileira de Campinas, graças não só à sua forma de organização, mas acima de tudo, ao seu culto da religião, é proclamado sacro.

Com prudente sabedoria, julgou o Venerável Irmão Antônio M. Alves de Siqueira, Arcebispo de Campinas, dever solicitar à Sé Apostólica, fosse o templo elevado à posição e à dignidade de Basílica Menor, confiando plenamente na grande vantagem que daí adviria para as reuniões do povo cristão.

Aquiescendo de bom grado ao seu pedido, Nós, de acordo com o parecer da Sagrada Congregação para o Culto Divino, e na plenitude do Nosso poder apostólico, determinamos, pela forma desta proclamação, que o mencionado templo, consagrado a Deus em honra da Bem-Aventurada Virgem Maria, e pelo povo é chamado de "Nossa Senhora do Carmo", seja elevado ao título e à dignidade de Basílica Menor, com todos os demais direitos e privilégios de que, segundo o costume, gozam os templos marcados com este nome.

Ordenamos, além disso, que se observem, à risca, os ditames do Decreto "Do Título de Basílica Menor", datado de 06 de junho de 1968.

Não obstam quaisquer impedimento.

Datado em Roma, junto a São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 06 de novembro de 1974, duodécimo do Nosso Pontificado”.

 

Joannes Cardeal Villot, Secretário do Estado

 

 

      A instalação da Basílica do Carmo foi realizada em solenidade presidida pelo núncio apostólico no Brasil, Arcebispo Carmine Rocco, em 22 de junho de 1975, quando foram cumpridos todos os rituais para a instalação da Basílica, com grande participação popular. Estava realizado um grande sonho, e um merecido reconhecimento ao papel histórico da Igreja que sediou a primeira paróquia de Campinas e que viu e protagonizou o nascimento da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Mato Grosso, depois Vila de São Carlos e, finalmente, cidade de Campinas, tendo o primeiro pároco, frei Antônio de Pádua Teixeira, como co-fundador, ao lado de Francisco Barreto Leme.

 

      No dia 26 de julho de 1975, durante a 87a Sessão Conjunta do Congresso Nacional, o deputado Francisco Amaral pronunciou discurso, destacando “a elevação da Matriz Velha à dignidade de Basílica Menor de Nossa Senhora do Carmo de Campinas”.

 

      Nesse período, a Paroquia de Nossa Senhora do Carmo também teve como vigários paroquias o Cônego Fernando de Godoy Moreira (1972) e o Cônego João Batista Correia Machado (1976).

 

 

1. O título de Basílica e seu significado histórico

 

      Ao receber o título, a Basílica de Nossa Senhora do Carmo tornou-se uma Basílica Menor, ligada à Basílica de Santa Maria Maior, de Roma, e com isso vinculou-se diretamente ao papa (a basílica romana é território papal). Essa associação ao papa está presente em um dos símbolos da Basílica do Carmo, a umbrela que está no presbitério juntamente com as insíginias pontifícias. As  Basílicas Maiores em Roma são as de São Pedro, São Paulo, São João Latrão e Santa Maria Maior, citada acima.

 

     Como esclareceu um minucioso estudo realizado pelo cônego Pedro Cipolini, sucessor do monsenhor Geraldo Azevedo na paróquia do Carmo, o termo basílica origina-se do grego basilikós = casa real. Basílicas, explica o cônego Cipolini, “eram construções especiais com colunas e pórticos que na Grécia levavam o nome de basílica, por estarem relacionadas ao rei (basileus). Os gregos copiaram dos persas”.

 

     A basílica na Pérsia era a sala de audiências do rei. O termo foi adotado na Roma antiga, para caracterizar o edifício amplo e de formato retangular, destinado a tribunais e como espaço de encontro dos cidadãos. De fato, no século III a.C., observa o cônego Cipolini, a forma arquitetural da basílica grega foi introduzida em Roma.

 

       A transformação das basílicas romanas, que eram destinadas aos juízes, em templos cristãos aconteceria em função da liberdade de culto propiciada Imperador Constantino, em 313, e principalmente com a elevação do cristianismo como religião oficial, em 380. Muitas basílicas foram doadas aos cristãos pelo império e transformadas em templo para o culto.

 

     No final do terceiro século depois de Cristo já existiam cerca de 40 basílicas cristãs somente em Roma (cf. J. DANIÉLOU – H. MARROU in Nova História da Igreja, Ed. Vozes, Petrópolis, 1973, v. I, 2ª ed., p. 248).

 

     Arquitetura e formato das basílicas. As basílicas, continua o estudo do cônego Cipolini, “consistiam em um grande quadrilátero oblongo, dividido em duas partes principais: pátio ou jardim retangular, situado à sua frente, circundado de pórticos e colunas, e no interior, no fundo, um espaço menor chamado abside ou tribuna, cuja abertura tinha forma abobadada”.

 

     A abside, onde ficava o juiz e seus ajudantes, ficou sendo o lugar dos presbíteros e do bispo, na basílica cristã. “As basílicas, após o Edito de Milão (313), vão ser edificadas principalmente sobre os túmulos dos mártires, para honrar sua memória e propiciar a reunião de grande número de cristãos, no dia da festa do mártir (dies natalis martyris), cf. H. JEDIN, Manual de historia de la Iglesia, Ed. Herder, Barcelona, 1980, v. II, p. 440 – 441)”, informa o estudo do titular da paróquia de Nossa Senhora do Carmo.

 

      A Basílica de São Pedro, no Vaticano, foi edificada em 326, pelo Imperador Constantino, sobre o cemitério onde se encontrava o túmulo do Apóstolo Pedro. Depois foram construídas basílicas dedicadas a Jesus Cristo, à Virgem Maria e aos Santos.

 

      Nestas basílicas, observa o Cônego Cipolini, haviam três naves: a da direita era destinada aos homens, a da esquerda às mulheres e a do centro era destinada aos que se preparavam para o batismo e os que desejavam se fazer cristãos. “O centro da Basílica é o altar, sobre o qual se celebrava a Santa Missa, situado à frente, logo diante da abside e encimado por um baldaquino”, complementa o estudo.

 

    As basílicas ontem e hoje. Com a expansão do Cristianismo, construíram-se inúmeras basílicas no vasto império romano, agora cristianizado. Muitas delas foram destruídas por guerras ou incêndios, observa o Cônego Cipolini.

 

     Muitas destas antigas basílicas cristãs permanecem, outras foram reconstruídas. Atualmente designa-se como basílica, título conferido por decreto pelo papa, uma igreja privilegiada, de especial importância, vindo logo depois da igreja catedral. Esse é o caso da Basílica do Carmo, tipo de Basílica Menor, como algumas no Brasil, sendo a mais antiga do país a de Aparecida, criada em 1908 pelo papa Pio X, em Aparecida (SP).

 

       Essa é a trajetória de grandes significados das basílicas, que lembram, ainda, finaliza o estudo do Cônego Cipolini, “o fim das terríveis perseguições movidas contra os cristãos pelo Império Romano. Perseguições que obrigavam os cristãos a se reunirem nas catacumbas, às escondidas. Com a liberdade de culto, os cristãos puderam se reunir nas basílicas. É sábio tirar do seu tesouro coisas novas e velhas, disse Jesus. A Basílica é algo antigo, que está no tesouro da Igreja Católica e, por isso, tem seu valor ainda hoje, pelo que deve ser valorizada, sem preconceitos”, defende o titular da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo.

 

    Condições para que uma igreja seja Basílica: deveres e privilégios.  Entre outras condições, nota o estudo citado, para que uma igreja receba do papa o título de basílica, “requer-se que a mesma seja sagrada com o rito do Pontifical Romano e tenha seu altar consagrado e com relíquias de mártires”, o que aconteceu com a Basílica do Carmo, que recebeu várias relíquias ao longo das últimas décadas do século 20.

 

     “Requer-se, ainda, que a construção do templo seja digna de admiração pela sua beleza, em seu aspecto artístico”, o que igualmente ocorre com a Basílica do Carmo, em seu belo estilo neogótico e interior com várias obras de arte, incluindo belas pinturas. A basílica também deve gozar “de certa notoriedade no seio da Diocese” e grande afluência de fiéis, observa o estudo, o que também ocorre com a Igreja do Carmo, primeira do município e, portanto, a Diocese de Campinas.

 

       Ao receber o título de Basílica Menor, a Basílica do Carmo adotou os símbolos tradicionais permitidos (timbre, símbolo ou escudo próprio), sempre com o sêlo pontifício (as duas chaves postas em aspas). “O maior privilégio da Basílica, porém, é o seu próprio título, que a distingue das outras igrejas, conferindo-lhe certo grau de apostolicidade, por ter o Vigário de Cristo lhe posto a mão (cf. REB v. 15, set. 1955 p.690-691)”, salienta o estudo do Cônego Cipolini. Em coerência com essas determinações, os símbolos da Basílica de Nossa Senhora do Carmo são:

 

 

SÍMBOLOS DA BASÍLICA

 

1 – O Reitor

O Reitor da Basílica, a quem e confiado o cuidado do templo deve velar para que a liturgia seja celebrada dignamente, pela conservação e o decoro do local e da construção. E ainda para que nada se faça que não convenha a santidade do lugar. O Reitor  pode usar a Murça filetada de vermelho como símbolo de seu cargo.

 

2 – Tintinábulo

Uma campainha colocada em meio a um florão de madeira com escudo da Basílica. E levado a frente das procissões.

 

3 – Umbrela

Símbolo da “Cúpula”, como uma sombrinha semi-aberta, nas cores amarelo e bordo, significando um Templo que se destaca dos outros, pela distinção pontifícia.

 

4 – Selo Pontifício

No frontispício (fachada externa) da Basílica, são colocadas as insígnias da Sé Apostólica (a tiara do Sumo Pontífice com as chaves em aspas).

 

5 – Escudo ou Brasão

É o selo de identificação da Basílica,

com um significado todo especial. Um dos privilégios das basílicas é ter o seu selo ou escudo, que serve de distintivo e representa a Basílica como tal.

 

Descrição do Escudo da Basílica do Carmo

Escudo de formato sobreposto ao selo papal, ou seja, as duas chaves em aspas (uma de prata, outra de ouro), encimadas pela tiara papal. Sob o escudo, uma fita branca, escrito o dístico: “Ipsa Conteret”. Sobre o fundo azul, um monte do qual escorrem dois filetes dourados; no topo do monte floresce um lírio. No azul, ao alto, duas estrelas de prata. No monte, outra estrela de prata.

 

 

Escudo da Basílica Nossa Senhora do Carmo e seu simbolismo

  • O fundo azul representa a imensidão da criação redimida, vasta como o céu. O azul representa, ainda, a cor mariana por excelência.

  • O monte representa o próprio Cristo, como local do encontro entre o céu e a terra, monte da aliança (Is 2,2ss; 1Rs 18,42), das bem-aventuranças (Mt 5 e 7), monte Tabor, Calvário... Jesus faz a ligação entre o céu e a terra, por isso o monte simboliza o próprio Jesus Salvador. No final dos tempos, o monte de Deus será mais alto do que todos (Mq 4,1). O monte faz alusão também ao Monte Carmelo (que quer dizer jardim ou pomar), localidade da Palestina, onde por primeiro se venerou Nossa Senhora com o título do Monte Carmelo. Alude-se, ainda, ao Monte da Perfeição designado pela mística carmelitana.

  • Os filetes de ouro representam o mel da salvação, que escorre do monte santo, para alimentar os que dele se aproximam. Assim, os que ocorrem à Basílica serão alimentados com a salvação que vem do alto: o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia.

  • O lírio branco, no topo do monte, representa a obra prima de Deus, no seu desígnio de salvação: a humilde Virgem Maria, bem-aventurada porque teve fé (Lc 1,45). O lírio indica a simplicidade, a pureza e a virgindade, é o símbolo de eleição e escolha do ser amado (Ct 1,2). Maria é designada “flor do Carmelo”, foi escolhida por Deus para ser a mãe de seu Filho, é modelo de discípula(o).

  • As duas estrelas prateadas, no firmamento azul, simbolizam a fé e a esperança que nos induzem a olhar para o alto, para o transcendente. Lembram, ainda, os profetas Elias e Eliseu, que habitaram o Monte Carmelo.

  • A estrela que está no monte representa a caridade, virtude que nos empenha no trabalho na terra, em prol do Reino dos Céus.

  • As duas chaves postas em aspas e a tiara papal, encimando o escudo, representam a Igreja e a união deste templo com o sucessor de Pedro, o Santo Padre, o Papa, que ornou este templo com o título e os privilégios de Basílica. Foi o Papa Paulo VI quem concedeu o título, e a instalação da Basílica deu-se em 22 de junho de 1975.

  • Ipsa Conteret, Ela esmagará Colcora (aos pés), frase bíblica aplicada a Maria (Gn, 3, 15: “Ponho inimizade entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela: ela esmagara tua cabeça quando ferires seu calcanhar”. A descendência de Maria e Jesus, seu filho (Filho de Deus), que ao ser ferido na Cruz esmagou o inimigo da humanidade, o Pecado, o mal, a morte, Satanás.

 

 

      Como nas demais, a Basílica do Carmo também celebra, com solenidade, a festa da cátedra de S. Pedro (2 de fevereiro), a solenidade de S. Pedro e S. Paulo (29 de junho) e o aniversário de eleição do sumo pontífice reinante, agora, o papa Bento XVI. A Basílica também se dedica à divulgação dos documentos pontifícios e do magistério em geral (cf. Decreto do Título de Basílica Menor, de 06/06/1968, in AAS 60-1968- 536ss).

 

      A Basílica do Carmo também segue o preceito das demais basílicas, de esmerar-se nas celebrações litúrgicas, na pregação permanente da Palavra de Deus e no atendimento sempre disponível ao povo, principalmente quanto a confissões. “Numa basílica, pode-se ganhar as indulgências de praxe, nas seguintes datas: na solenidade do titular, no dia 2 de agosto (privilégio da Porciúncula), na solenidade de São Pedro e São Paulo e uma vez ao ano, em dia a escolher”, complementa o estudo aprofundado promovido pelo Cônego Pedro Cipolini.

 

      É assim que a Matriz do Carmo se transformou na Basílica do Carmo, uma das principais Igrejas Católicas do Brasil, consolidando sua posição de proeminência no seio da Igreja, em total coerência com sua condição de ter passado por ela vários padres elevados ao episcopado.

 

      O Núncio Apostólico no Brasil, d.Carmine Rocco, que presidiu a cerimônia de oficialização da Basílica do Carmo, foi contemplado, três anos depois, com o título de Cidadão Campineiro. A entrega do título aconteceu a 8 de dezembro de 1978, na Catedral de Campinas, no mesmo dia em que o arcebispo metropolitano d.Gilberto Pereira Lopes divulgou a sua Carta Pastoral sobre os 70 anos da arquidiocese de Campinas, criada a 7 de junho de 1908, pelo papa São Pio X, desmembrada da diocese de São Paulo e tendo Nossa Senhora da Conceição como padroeira.

 

 

 

2. A  Igreja nas ondas do rádio e do povo

 

       Desde que assumiu a paróquia do Carmo, cônego Geraldo Azevedo já se preocupava com novas formas de divulgar a primeira Igreja de Campinas. E em suas mais de três décadas e meia à frente do Carmo, ele de fato se destacaria por meios inovadores, por celebrações de grande impacto, especialmente por sua ativa participação no radialismo local – o que não deixava de ser um tributo ao antigo titular da paróquia do Carmo, o padre Lendell de Moura, para muitos o verdadeiro descobridor do rádio.

 

       Em julho de 1965, por exemplo, foi realizada a primeira romaria a Socorro, promovida pelo cônego Geraldo, com a participação de 600 pessoas em 19 ônibus.  Em 1966 foi nomeado novo coadjutor, padre José Júlio.  Em 1968 foi aprovado o primeiro plano bimestral de pastoral para a paróquia do Carmo. No mesmo ano, o pároco viajou durante 18 dias a Israel, a convite do governo desse país e da Air France.

 

      Em março de 1970 aconteceu a morte de d.Paulo de Tarso, no Hospital Irmãos Penteado. Ele já havia solicitado a sua renúncia, a 19 de setembro de 1968. Seu sucessor foi d.Antônio Maria Alves de Siqueira, que fora nomeado bispo coadjutor da arquidiocese de Campinas, com direito à sucessão, em 1966. Era o quarto bispo de Campinas e segundo metropolitano.

 

     Coube ao cônego Geraldo Azevedo dirigir as cerimônias religiosas durante a comemoração do bicentenário de Campinas – agora de fato, e não como havia ocorrido de forma equivocada em 1939. A missa no Carmo, a 14 de julho de 1974, presidida pelo arcebispo e com a presença do prefeito municipal, precedeu a inauguração do mausoléu a Barreto Leme, a 31 de dezembro daquele ano, com obra do escultor Lelio Coluccini, no interior da Matriz do Carmo.

 

      Estava próxima a instalação da Basílica de Nossa Senhora do Carmo, que aconteceria a 22 de junho de 1975. Dois anos depois, a 15 de abril de 1977, cônego Geraldo Azevedo era elevado a monsenhor.  A 7 de março de 1976 aconteceu a posse de d.Gilberto Pereira Lopes, que havia sido nomeado coadjutor com direito à sucessão em 24 de dezembro de 1975. Em agosto de 1978 d.Gilberto assumiu todo trabalho administrativo e pastoral da arquidiocese.

 

       E as inovações do monsenhor Geraldo Azevedo continuavam. As missas da passagem do Ano Novo de 1978 foram, sob a presidência de monsenhor Geraldo, transmitidas pela pela Rádio Brasil, emissora com a qual tinha aproximação especial. A Missa do Natal de 1979 foi, por sua vez, transmitida pela Rádio Educadora.

 

      A 7 de novembro de 1980, um salto nessa evangelização radiofônica, com a inauguração da nova emissora, Rádio Central, que tinha o Monsenhor Geraldo como um dos proprietários. Programas religiosos passariam a ser transmitidos de 2a a 6a feiras, das 6 a 7 horas ("Grande Campinas"), às 17h50 a 18 hs ("Hora da Prece") e aos domingos. às 7 horas ("Encontro da fé", com missa transmitida diretamente da Basílica).

 

      Além da Rádio Central, já havia ajudado a fundar a Rádio Andorinhas, primeira FM de Campinas. No total, atuou durante 42 anos como radialista. 

 

       A televisão também foi um espaço em que o Cônego Azevedo atuou. Em outubro de 1979 celebrou uma missa, transmitida pela TV Campinas (depois EPTV), com a participação do coral dirigido pelo maestro Mário Scolari, professor da PUC-Campinas.

 

     Atividades de massa sempre tiveram o apoio do Monsenhor Geraldo Azevedo. Desde 1975 ele incentivou os Encontros de Jovens do Carmo, realizados em vários espaços importantes situados na paróquia. A 27 de abril de 1980, o 5o Encontro de Jovens do Carmo foi realizado na Escola Carlos Gomes, antiga Escola Normal, fundada em 1903 e situada desde 1924 em um dos prédios mais bonitos da cidade, na avenida Anchieta.

 

     A 24 junho de 1979 Neimar de Barros esteve em Campinas, para falar com jovens na Basílica, a convite do pároco. Ele voltaria em outras oportunidades, como em maio de 1982 (para palestras no Colégio Dom Barreto).

 

     A 13 de outubro de 1979 a Missa da Criança, às 17 horas, teve a participação do cantor cego Jean Carlo, que falou sobre a família nos dias atuais e encantou com sua voz.

 

     A 16 de julho de 1979  na missa da padroeira a procura por escapulário movimentou 5 mil pessoas. Também houve visita a doentes. No mesmo ano, entre 31 de novembro a 2 de dezembro, foi realizado o 1o Encontro de Casais com Cristo da Basílica do Carmo, organizado pelo casal Longo e Silvia, a convite de Mons. Geraldo. Também participaram da organização os casais Silvado e Cida (coordenação pós-encontro), João Roque e Cleide (Finanças) Arnaldo e Lila (palestras) e Osvaldo e Vilma (coordenação das fichas). O 2o Encontro de Casais com Cristo foi realizado na Casa de Cursilhos, entre 2 e 4 de maio de 1980, com a coordenação do casal Arnaldo e Lila. Outros Encontros aconteceriam nos anos seguintes.

 

      Romarias também foram sempre incentivadas por Monsenhor Azevedo. Geralmente em Janeiro, a Bom Jesus do Pirapora, desde 1974. Em março, a Aparecida do Norte, a Romaria da Penitência, desde 1967. Em maio, ao santuário da Vila Formosa, em São Paulo, desde 1971. Em agosto, a Socorro, desde 1963 – foi a primeira, portanto, no paroquiato de Monsenhor Geraldo. Em outubro, também a Aparecida, desde 1973, para celebrar a padroeira do Brasil.

 

      Monsenhor Geraldo também participou ativamente do movimento Cursilhos de Cristandade. Foi Diretor Espiritual de vários cursilhos.

 

      Era grande a sensibilidade de Monsenhor Geraldo para com o povo que chegava cada dia mais a Campinas, inchando a cidade, procurando emprego e vida melhor. Este povo desenraizado encontrou em Monsenhor Geraldo uma palavra de apoio e estimulo.

 

     Em uma época na qual a pastoral da Igreja de Campinas se voltou para as questões sociais, colocadas como prioridade absoluta, as vezes esquecendo o aspecto espiritual, Monsenhor Geraldo soube valorizar a religiosidade popular, sem esquecer do social, devolvendo aos imigrantes a sua identidade. 

 

      Sob sua liderança, foi criado em meados da década de 1970 o Centro Assistencial de Amparo Social. Entidade para justamente dar assistência, amparo, aos “menores desamparados, crianças enfermas, recém-nascidos pobres, velhos desfavorecidos, famílias faveladas, andarilhos, encarcerados, comunidades jovens”, como indicam os documentos sobre o Centro, que tinha os Departamentos: Assistência do Departamento Social do Carmo, Sociedade Beneficente dos Amigos da Matriz Velha e Serviço Social Rural São Francisco.  

 

 

 

3. Campanha da fraternidade

 

               Os 37 anos de participação do Cônego Geraldo Azevedo à frente da Paróquia do Carmo coincidiram com o nascimento, crescimento e fortalecimento da Campanha da Fraternidade, iniciativa que tem sua gênese no período favorável do Concílio Vaticano II. E a Basílica do Carmo sempre teve muito envolvimento com as Campanhas da Fraternidade em Campinas, durante os paroquiatos de Cônego Azevedo e, depois, do seu sucessor. 

 

      A primeira Campanha da Fraternidade em âmbito nacional, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), foi realizada em 1964, um ano depois que o então padre Azevedo assumiu a paróquia do Carmo e, coincidentemente, no mesmo ano do golpe militar que depôs o presidente João Goulart. Em pleno regime ditatorial, as Campanhas se transformaram em um dos raros espaços de discussão e mobilização insuspeitos aos olhos dos generais que se revezaram no poder até 1984.

 

      Com a devolução do poder aos civis, a partir de 1985, e sob a forte influência da Teologia da Libertação que marcou a atuação do episcopado brasileiro durante essas duas décadas, as Campanhas da Fraternidade foram fundamentais no debate de assuntos cruciais na construção de uma sociedade justa e democrática, como as questões da terra, das migrações, da situação do operariado, do negro, da mulher, das múltiplas modalidades de violência.

 

     Desde o início, em 1964, a Campanha da Fraternidade é desenvolvida no período da Quaresma, quando toda Igreja no Brasil é convidada a refletir sobre o tema do ano. A primeira fase da CF, entre 1964 e 1972, foi direcionada à renovação do cenário interno da Igreja Católica no Brasil. Os temais sociais (como Mundo do Trabalho – 1978, Migrações – 1980, Educação – 82, Violência – 83) dominariam a segunda fase, entre 1973 e 1984, coincidindo com o final do regime militar. Em 1981, quando o tema foi “Saúde para todos”, a 16 de abril a celebração de Lava-pés da Quinta-feira Santa na Igreja do Carmo foi realizada com paraplégicos, também em função do Ano Internacional do Deficiente, que representou um marco na discussão da situação dos portadores de deficiência no Brasil. (Em 1982, o Lava-pés foi executado com 12 idosos de um asilo).

 

      E a terceira fase, desde 1985, em coerência com o período de redemocratização e grandes transformações sociais, mais temas eminentemente sociais e existenciais, como as questões da fome (85), da terra (86), do menor (87), do negro (88), da mulher (90), da política (96), dos desempregados (99) e assim por diante.

 

     Em todos esses momentos, a paróquia do Carmo esteve aberta às reflexões e ações concretas relacionadas à Campanha da Fraternidade. Vários religiosos e profissionais deram palestras e participaram de eventos na paróquia relacionados à CF. 

 

     A Paróquia do Carmo sempre teve ativos colaboradores. Caso de José Maluf, ministro da Eucaristia por muitos anos, falecido em julho de 1979. O mesmo em relação ao Irmão Domênico, diácono claretiano que muito ajudava na paróquia.

 

       Atenção especial para os funcionários, como Clelio José Silvado e José Terezio dos Santos, o secretário José C.Balbino, os sacristães Anselmo e Aquilino Machado, o atendente Ademar. E ainda Aparecida Ferrer e João da Matta.

 

 

CELEBRAÇÕES

 

    Monsenhor Geraldo foi convidado a presidir várias celebrações, em momentos como Páscoa na Petrobrás e Mesbla (1979), missa de Ação de Graças pelo aniversario do término da 2a Guerra Mundial (8 de maio de 1979, no QG de Infantaria Blindada), comunhão pascal na Sears (15 de junho de 1980), a Páscoa dos Militares na própria Basílica (29 de abril de 1981, concelebrada pelo capelão, padre Luiz Marques).

 

      A 21 abril de 1982, Monsenhor Geraldo recebeu a Medalha do Sesquicentenário da Força Pública.   A 15 de agosto de 1982, grande celebração na Basílica, para comemorar o Jubileu sacerdotal "brilhante" dos 60 anos de sacerdócio de D. Francisco Borja do Amaral, Monsenhor Luiz F. de Abreu e Cônego Miguel Andery, três dos primeiros sacerdotes ordenados na arquidiocese de Campinas e que aturam na paróquia do Carmo. Participação do arcebispo d.Gilberto Pereira Lopes e do Coral Pio XII.

 

      Em 8 de dezembro de 1995, Monsenhor Geraldo participou da cerimônia de entronização da Bíblia Sagrada na Câmara Municipal de Campinas, por iniciativa do seu presidente, vereador Romeu Santini.

 

 

 

 

4. Transformações no Carmo

 

     Várias transformações na Basílica do Carmo, em termos de estrutura física, de reformas, de introdução de novidades, ocorreram no paroquiato de Monsenhor Geraldo Azevedo. A 20 de maio de 1979, ele presidiu a Festa do Céu na Basílica do Carmo. Com a participação do arcebispo D.Gilberto Pereira Lopes, foi celebrada missa solene, às 9 horas, de sagração do novo Altar-mor do Sacrifício Eucarístico (agora ocupando o centro do Presbitério), da mais antiga Igreja de Campinas. Participou o Coral da Basílica, dirigido pelo maestro Mário Scolari, e o Coral Nossa Senhora de Fátima.

      A 28 de março de 1982 tomou posse a primeira diretoria do Serra Clube de Campinas, criado para estimular as vocações sacerdotais, e que funcionaria na Basílica do Carmo. A primeira diretoria foi presidida por José Paes Silvado, com apoio da esposa Maria Aparecida O.Silvado, e tendo como assistente eclesiástico o Monsenhor Geraldo Azevedo. Houve missa com o arcebispo d.Gilberto Pereira Lopes.

 

 

 

5. Outras Campanhas

 

       Várias campanhas desenvolvidas entre os paroquianos nos últimos anos do século 20. Em 1981 uma campanha de arrecadação de fundos para uma filha de paroquiana, vítima de moléstia grave.

      Em fevereiro de 1988, campanha de coleta de alimentos e roupas para flagelados das enchentes, que atingiram vários pontos do Brasil naquele início de ano. O material seria encaminhado à Cáritas Brasileira, que faria a distribuição.

      Em maio do mesmo ano foi feito um donativo de 10 mil cruzados ao Movimento dos Sem Terra.

     Eram constantes as campanhas de alimento, roupas e material escolar para doação aos necessitados, em período de grande migração para Campinas. Nas décadas de 1960 e 1970 a população de Campinas cresceu em média em 5,54% e 5,86% ao ano, contra a média brasileira de, respectivamente, 2,76% e 2,48% ao ano. A população morando em favelas – que não existiam na cidade – explodiu no período.

 

 

 

6. Doença  de Monsenhor Geraldo

 

      A 14 de março de 1983 monsenhor Geraldo Azevedo ficou gravemente enfermo, sendo internado no Hospital “Celso Pierro”, da PUC-Campinas, por tempo indeterminado. Ele contraiu polirradiculoneurite, também conhecida como Síndrome de Guillain-Barre, uma inflamação dos nervos periféricos, que pode ter várias origens, como infecções viróticas que atacam o sistema imunológico. A doença pode levar a formigamentos e até a paralisia de membros, como foi o caso do monsenhor Geraldo.   

 

       Durante a sua ausência para tratamento, o padre Luiz Carlos Magalhães foi o vigário substituto, com apoio dos padres Ildefonso Sigrist e Cônego João Correa Machado  na celebração de missas. A partir de 10 de abril de 1983, as missas transmitidas pela Rádio Central passaram acontecer em todas as Igrejas de Campinas, em rodízio. O programa das 18 horas foi temporariamente suspenso.

 

      O padre Magalhães deu continuidade a todos os trabalhos. A 15 de agosto de 1983 ele participou normalmente, por exemplo, da romaria a Socorro, realizada pela Confraria do Perpétuo Socorro. A 18 de setembro presidiu uma cerimônia muito bonita, a Missa pelos irmãos nordestinos que sofrem com fome e sede por causa da seca – a seca prolongada de 1979 a 1983 foi uma das maiores das últimas décadas do século 20, com uma população afetada de quase 29 milhões de pessoas. Na cerimônia na Basílica do Carmo houve procissão com ofertas de tronco seco, ramo seco, balde vazio, cesto com pão, enxada e chapéu típico dos nordestinos, exemplificando o sofrimento da natureza, dos animais, do homem e da mulher “que não desistem da luta e enfrentam a situação com fé e esperança”, como afirmou um texto da época. O Coral Municipal de Valinhos abrilhantou a celebração.

 

      A 20 de novembro de 1983, ainda durante afastamento do monsenhor Geraldo, foi celebrada missa em lembrança do dia dedicado a Zumbi dos Palmares, com a participação do padre José Antônio Trasferetti e grupos negros cristãos.

 

      Como acontece nos casos associados à doença que o acometeu, a recuperação de monsenhor Geraldo foi lenta. A 11 de setembro de 1983 ele participou de retiro no Colégio Dom Barreto.

 

      Em dezembro de 1983 o monsenhor Geraldo publicou um comunicado sobre o período de tratamento e, principalmente, com agradecimentos. Ele dizia que tinha os "braços ainda amarrados pela doença", e reafirmava aceitar o sacerdócio do sofrimento, com a frase: "Na minha cadeira de rodas, sinto-me bem mais perto do meu Senhor, Jesus Crucificado".

 

       O pároco do Carmo ficou 78 dias no hospital da PUC_Campinas, sendo atendido pela equipe de neurocirurgia do dr.Roque Balbo, e também pelos médicos drs. Nelson e Nilson Modesto (cardio), dr Antonio Cesar (urologia), dr Afonso Carneiro (fisiatria), dr Denilto Pedro Tozzi, Claudio Henrique Dias Costa (fisioterapia), dr José Luiz Ferreira (superintendente do hospital), Nelson Leonardo (enfermeiro), o capelão padre Teixeira, a assistente religiosa Irmã Balbina, dr.Francisco Mannina, a família de João Batista Roque que deu a cadeira de rodas para o pároco poder se deslocar, dr Alexandre Loschi (que forneceu “remédio até restabelecimento”), a família Santoro (Carminha e Lidia),  Cônego Haroldo Niero deram muita assistência a Monsenhor Geraldo neste período.

 

      Monsenhor Geraldo permaneceu afastado durante todo o ano de 1984, período em que o padre Magalhães continuou dando prosseguimento a todas atividades. A 28 de abril concelebrou missa com o Núncio d.Carlo Furno e d.Gilberto na Basílica do Carmo. Em junho de 1984 liderou a tradicional quermesse da Basílica no pátio da Escola Carlos Gomes. E em dezembro montou um presépio na Basílica, reproduzindo o nascimento de Jesus ao lado de dois barracos de favela. Era a atualização do sofrimento de Cristo na vida dos excluídos de hoje.

 

     No dia 2 de março de 1985 aconteceu a despedida do padre Luiz Carlos Magalhães. Após dois anos da enfermidade Monsenhor Geraldo retornou às atividades, tendo participado de todas cerimônias da Semana Santa entre 1o e 7 de abril. A 7 de abril o arcebispo d.Gilberto nomeava o padre José Júlio como vigário paroquial da Nossa Senhora do Carmo, para ajudar o pároco em todo ministério paroquial.  Apesar das dificuldades no deslocamento, o monsenhor Geraldo retomava com vigor o cargo.

 

 

 

7.  Atuação Pastoral e Administração 

 

      Durante o afastamento do monsenhor Geraldo para tratamento de saúde, a 10 de agosto de 1983 aconteceu a primeira reunião de preparação para a formação do Conselho de Pastoral Paroquial, com representantes de todas as equipes da Basílica do Carmo. A  primeira reunião da diretoria do Conselho aconteceu a 21 de setembro, sob a presidência do padre Magalhães.

 

      O retorno do monsenhor Geraldo à frente da paróquia coincidiu com o momento em que entrou em vigência o Plano de Ação Pastoral da Diocese de Campinas, reflexo do novo momento político e social que o país vivia. 1985 foi o início da chamada Nova República, após 20 anos de governos militares. 1984 tinha sido o ano das diretas-já, o grande movimento em que o povo brasileiro expressou o seu desejo de mudanças.

 

      No âmbito interno da Igreja, a comunidade católica latinoamericana ainda sentia o forte impacto da Conferência de Puebla, México, realizada em 1979, que confirmou as diretrizes de Medellin (1968). Estas conferências indicaram para a Pastoral a Evangelização Libertadora e a opção pelos pobres como caminho a ser trilhado.

 

      O Plano de Ação Pastoral da Diocese de Campinas era um eco desse momento especial, com repercussão na vida de toda Igreja local, inclusive na paróquia do Carmo.   Também era um dos passos mais importantes no sentido de estimular um planejamento de atividades das comunidades e paróquias, como exigência do próprio processo de urbanização e avanços da sociedade brasileira.

 

      A 30 de setembro de 1985 aconteceu uma reunião dos membros mais atuantes da Paróquia, para compreensão do Objetivo Geral da Ação Pastoral da Diocese: "Evangelizar o povo brasileiro em processo de transformação socio-econômica e cultural, a partir da verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o homem, à luz da opção  preferencial pelos pobres, pela libertação integral do homem, numa crescente participação e comunhão, visando à construção de uma sociedade mais justa e fraterna, anunciando assim o reino definitivo".

 

      Esse Objetivo Geral foi formulado no cenário de desafios como pobreza institucionalizada, deterioração dos valores da família e crescimento dos índices de  desemprego e subemprego. O novo Plano Diocesano  introduzia a novidade de que a paróquia ou comunidade deveriam partir de sua própria realidade para desenhar as suas próprias ações. Qual a realidade de cada paróquia? Quem são as pessoas que a integram? Essas seriam as perguntas centrais do diagnóstico que deveria ser feito, incluindo a atuação dos novos movimentos religiosos no território paroquial.

 

      E, de fato, em função das exigências do Plano Diocesano de Ação Pastoral, foi feito o diagnóstico da paróquia do Carmo. O diagnóstico identificou as ações que já existiam na paróquia, como das equipes:

 

Catequese infantil (Preparação para Primeira Eucaristia), Catequese Jovens (MIC e Primeira Eucaristia), Catequese de Adultos (curso de noivos, responsabilidade de Dulce), Encontro de Casais com Cristo, Casais de Pós-Encontro, Preparação de batismo, Preparação para casamento, Preparação para crisma, Pastoral da Saúde – Hospitais, Pastoral da Saúde – Domicílios, Apostolado da Oração, Confraria Nossa Senhora Perpétuo Socorro, Filhas de Maria, Legião de Maria, Grupo de Orações, Ordem Terceira do Carmo, Terço das Mães, Conferência Santa Cruz – Vicentinos, Conferência Nossa Senhora do Carmo, Oficina São Geraldo, Oficina de Enxovais Infantís, Comunidade Jovem Cauc, Ceu, Cogeno, Mini, Perseverança

 

 

       O diagnóstico apontou ainda o que faltava ativar na paróquia:

 

1. Formação de mini-comunidade: aproveitar Novena de Natal, Via Sacra, Terço em Família, Círculo Bíblico, reflexões mensais.

 

2. Assistência espiritual: idosos, família enlutada.

 

3. Promoções sociais: festas, quermesse, chá, almoço etc.

 

4. Promoção assistencial: verificar a situação dos que moram em cortiços na paróquia.

 

5. População universitária da paróquia – assistência e o que faltava refletir, em termos mais aprofundados.

 

6. Pastorais sociais:

·         Mundo do trabalho

·         Menor abandonado

·         Mulher marginalizada

·         Encarcerados

 

      Em 1986, coincidindo com o ano da votação para a Assembléia Nacional Constituinte, que iria escrever uma nova Constituição para o Brasil, o planejamento continuou sendo aprofundado na Diocese de Campinas e na paróquia do Carmo. Janeiro já começou, na paróquia, com a elaboração de uma agenda detalhada e especificada de todas as atividades paroquiais, inclusive com normas para equipes de Liturgia e outras.

 

      Em fevereiro de 1986, foram apontados outros desafios específicos para a paróquia do Carmo, que abrange grande parte do centro de Campinas, região com suas características peculiares. Assim, foram apontados os desafios:

- Prédios de apartamento em grande parte da paróquia, estimulando o enclausuramento das pessoas;

- Incidência de muitos problemas de vida conjugal, refletindo na educação dos filhos;

- Necessidade de animar mais os freqüentadores; e

- Valorizar atuais freqüentadores e agentes de pastoral

 

      Associados àqueles que já haviam sido apontados anteriores, eram os desafios, em suma, relacionados à realidade urbana e da pós-modernidade, com tudo o que ela significa de fragmentação, de crise de valores e de insustentabilidade de vários pilares que, antes, se pensava sólidos. “Tudo o que é sólido desmancha no ar”, segundo o título de um livro de muito sucesso na década de 1980, de Marshall Bermann (Companhia das Letras, São Paulo, 1986). Em meio a esse cenário de mutações rápidas, a Igreja católica buscava o seu posicionamento, e a paróquia do Carmo também procurava refletir sobre o contexto de sua atuação, para melhorar os seus serviços.  

 

   Detectou-se então a necessidade de um trabalho de nucleação, com esses propósitos:

- Agrupar pessoas com interesses comuns;

-          Pesquisa de moradias coletivas;

-          Reflexão sobre “seitas fundamentalistas”;

-          Levantamento dos freqüentadores da paróquia;

- Aprofundamento da capacitação dos agentes de pastoral;

 

       Estímulo à participação dos leigos.

 

       As dimensões que deveriam ser observadas: liturgia, comunhão e participação, catequese, anúncio transformador, missão e ecumenismo.

 

      Neste panorama de mudanças, outras foram verificadas na Diocese de Campinas e na paróquia do Carmo em 1986. No mesmo ano, em que foram comemorados os 10 anos de d.Gilberto na arquidiocese, houve a transferência da sede da Cúria para o edifício  Pio XII, na rua Irmã Serafina, número 88.

 

      Reformas físicas também foram observadas na basílica e na paróquia. Em maio os bancos da Igreja foram envernizados, fruto de donativo de um paroquiano. Em outubro foi concluído o salão social, sob a supervisão de dr.Ailton e Walter Garcia. As obras foram feitas pela AMB Engenharia.  

 

     O salão paroquial foi sediado na rua Sacramento 207, com 416 m2 de área de sobreloja, com salão social, salas para pastorais, sala de estar, sanitários, hall, escada privativa, garagens e áreas comuns. Área total construída de 820 m2 e entrada pela rua Barreto Leme, numero 1114.

 

     A construção deste salão foi fruto de um acordo entre Monsenhor Geraldo (que entrou com uma parte do terreno) e a  Construtora AMB Engenharia e a Imobiliária Iramos Garcia.

 

       Em novembro de 1986 foi iniciada campanha para compra de mesas e cadeiras para o salão social. O salão paroquial foi inaugurado a 8 de dezembro, com placa descerrada por monsenhor Geraldo e palavra da comunidade por Sebastião Ximenes. O salão recebeu o nome de Monsenhor Geraldo. Em 1987 o salão já contava com 64 mesas, 340 cadeiras, geladeira, forno pizza, assador, liqüidificador de 8 litros, caçarolas, caldeirões, entre outros.

 

      No mesmo ano de 1986, a Associação Beneficente Robert Bosch deu um cheque do Citybank de30 mil cruzados para a limpeza externa da Igreja. No final de 1986, no mesmo espírito de balanço e planejamento, foram levantadas algumas entidades assistenciais que atuavam na paróquia:

 

  • Casa Esperança, para solteiras grávidas, na rua 11 de agosto 330;

  • Creche para mães que não tinham para onde ir, na rua Benjamin Constant, 481;

  • Pensionato para mães com filhos na creche, rua 11 de agosto, 415; e

  • Creche para 120 crianças de mães que trabalham, na rua prof. Luiz Rosa, 184.

     Muitos leigos da paróquia estavam empenhados nessas obras. O apoio a esse trabalho foi identificado como uma das prioridades para os próximos anos.

 

      Em 1987 prosseguiram algumas reformas na Basílica. Em julho a empresa responsável pela reforma entregou as obras, mas com uma série de danos detectados:

 

1. Na engrenagem do relógio da torre;

2. Danos consideráveis no telhado e calha;

3. Nas portas envernizadas externas;

4. No órgão elétrico de tubo, por goteiras;

5. Na pintura artística da parte acima do órgão; e

6. No carrilhão elétrico na torre, que ficou fora de uso.

 

      Houve necessidade, então, de prosseguimento das reformas. Em agosto, teve início a limpeza e lubrificação do relógio da torre. Como apoio à arrecadação, foram iniciadas as atividades do Barzinho de Jesus, com confraternização entre jovens com música e mensagens. O Barzinho seria desativado posteriormente. Em novembro de 1987, término da restauração elétrica completa da Igreja, obtida pelo monsenhor Geraldo junto à CPFL, com custo aproximado de 300 salários mínimos.

 

      Um grande momento em 1987 foi a introdução da imagem de São Francisco de Assis, com culto e homenagem aos franciscanos, primeiros a celebrar missa em Campinas, a 14 de julho de 1774. Pelo co-fundador de Campinas, frei Antônio de Pádua de Teixeira. Foi a 4 de outubro de 1987. A entronização aconteceria em abril de 1988, após procissão de moradores das fazendas da Capela de São Francisco, no bairro Toga (Foga). A benfeitora foi d.Doraci Trevensolli.

 

      No mesmo ano de 1988, entre 19 e 23 de setembro, o salão paroquial do Carmo teve um momento excepcional, por ter sediado a Semana Paulo VI, promovida pelo Instituto de Teologia e Ciências Religiosas da PUC-Campinas. Participaram nada menos que o bispo d.Helder Câmara e o padre José Comblin, um dos maiores nomes da Teologia da Libertação, com grande trabalho na formação de leigos em vários estados do Brasil e países da América Latina. Autor de livros como “Ideologia da Segurança Nacional: O poder militar na América Latina” (Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1978), o padre Comblin, nascido em Bruxelas, Bélgica, veio ao Brasil no final da década de 50 a convite de D.Paulo de Tarso Campos e no inicio trabalhou na PUC-Campinas com Monsenhor Sallim. Por varias circunstancias e atendendo convite de d.Helder passou a trabalhar no Recife. Chegou a ser expulso pelo regime militar. Mas voltou, passando a viver entre comunidades pobres no Nordeste. Outros palestrantes em setembro de 1988 foram Alberto Antoniazzi e Antônio Haddad.

 

      Também em setembro de 1988, foram encerradas as atividades na paróquia do Carmo do Serra Club, que havia sido fundado por inspiração de monsenhor Geraldo, para estimular as vocações sacerdotais.  

 

       A paróquia teve como vigários paroquiais por esse tempo os padres João Batista Silvestre e Bruno Alencar Alexandroni.

 

 

 

8. Tempo de mudanças

 

      A última década do século 20, que seria necessariamente uma década de mudanças em todo planeta, tendo em vista a aproximação do Terceiro Milênio, começou antes no Brasil. Começou em 1989, com a eleição do primeiro presidente eleito diretamente após a queda do regime militar. O presidente seria Fernando Collor de Mello, que derrotou no segundo turno a Luis Inácio Lula da Silva.

 

      E essa “década de onze anos” coincidiu com o último período do monsenhor Geraldo à frente da paróquia do Carmo, que também sentiu todos os impactos das profundas transformações em curso em todo planeta e no Brasil. Transformações geradas pelo avanço da globalização, avanços nas tecnologias de informação e comunicação e do neoliberalismo, gerando novos e importantes desafios para a ação pastoral.

 

      Em janeiro de 1989, a Basílica do Carmo começou a sentir os efeitos da suspensão de algumas missas na Catedral durante as férias do início do ano e julho. A freqüência na Basílica do Carmo naturalmente aumentou nesses meses.

 

      Mais um reflexo das mudanças dos tempos contemporâneos, em fevereiro de 1989 (ano em que foi instituído o Cruzado Novo) começou o policiamento mais sistemático na área da Basílica, com prevenção a pequenos furtos e outras modalidades de violência. Monsenhor Geraldo conseguiu um reforço junto à cúpula da Polícia Militar.

 

      Em março, a paróquia recebeu dois apartamentos no Edifício Torre do Carmo, fruto de uma permuta com a Casa Paroquial a rua dr.Quirino, mais outro apartamento recebido como pagamento de multa devido a atraso de obras pela construtora do prédio. Mons.Geraldo uniu estes apartamentos formando um único com 256 metros quadrados e o No 141 destinado a ser a Casa Paroquial. Foi um importante avanço para o patrimônio da paróquia. O salão paroquial estava localizado no mesmo edifício. Em julho do mesmo ano o apartamento passou a ser locado, por valor de mercado, como forma de levantamento de fundos para a paróquia, já que Mons.Geraldo, devido a sua doença, passou a residir em casa de amigos.

 

      Ainda em 1989, como reflexo importante de mudanças em curso na sociedade brasileira, seria iniciada em agosto a construção da rampa, na escadaria da frente da Basílica, para facilitar o acesso de pessoas com deficiência, inclusive o pároco. E, de fato, a última década do século 20 seria marcada por grande avanço do conceito de inclusão social total, abrangendo, naturalmente, o da necessária inclusão integral dos portadores de deficiência na vida social.

 

      No final de 1989, novo avanço no patrimônio da paróquia, com a doação de um apartamento, na rua Coronel Rodovalho, de um apartamento dado em testamento por Romilia Arruda.

      

 

MAIS UM BISPO “DO CARMO”

   

      A 4 de fevereiro de 1990 o padre Ercílio Turco, que havia sido coadjutor na paróquia de Nossa Senhora do Carmo, foi sagrado bispo da diocese de Limeira. A primeira missa episcopal de d.Ercílio foi na Basílica, a 21 de fevereiro.

 

      D.Ercílio Turco nasceu em Campinas, a 13 de março de 1938, filho de Francisco Turco e Ignez Canossa Turco. Fez ensino fundamental em Campinas, cursou o Seminário Menor em Sorocaba e cursou filosofia e teologia no Seminário Central da Imaculada Conceição do Ipiranga, São Paulo, entre 1957 e 1963. Foi ordenado sacerdote a 1o de dezembro de 1963, na Catedral de Campinas, por Dom Paulo de Tarso Campos numa turma inédita de 10 Sacerdotes.

 

      Foi coadjutor da Paróquia Nossa Senhora de Carmo. Foi Pároco das Paróquias Sagrado Coração de Maria (1964-1971), Campinas; São Sebastião, em Valinhos (1971-1980); Nossa Senhora do Rosário, Hortolândia; e Santa Isabel, Barão Geraldo. Exerceu, ainda, o cargo de Reitor do Seminário de Teologia da Arquidiocese (1980-1985); em 1985 foi Administrador paroquial de São José, em Mogi Mirim. E foi Capelão da Santa Casa de Campinas, localizada na paróquia do Carmo, entre 1964 e 1970. Foi Capelão do Hospital de Clínicas da Unicamp, por cerca de dois anos, durante o paroquiato em Santa Isabel de Barão Geraldo. Permaneceu à frente da diocese de Limeira até sua nomeação para a Diocese de Osasco, SP, em 2002.

 

 

 

 

9. Reestruturação para o futuro

        

        Tempo de mudanças, tempo de reestruturação e preparação para o futuro. Essa foi a última década do século 20 para o Brasil e para a paróquia do Carmo. No mesmo ano de 1992, em que o presidente Collor de Mello recebeu um impeachment, após grande movimento popular, a Basílica começou a preparar modificações importantes para os próximos tempos. Ainda nesse ano houve a reentronização da imagem de São José, por trabalho do artista Wlademir Rodonof. 

 

      Em março de 1993, grande passo na organização do trabalho paroquial, com a posse da nova diretoria do Conselho Pastoral, criado em 1983 e que havia sido reestruturado. A nova direção tinha o casal Sebastião e Regina Ximenes na presidência, João e Rosária Jung na vice-presidência, Laércio Frezatto na secretaria, Luis Carlos Tramarin como vice-secretário, Osvaldo e Wilma Coluccini na tesouraria, Nestor e Leonor de Almeida como vice-tesoureiros, e Caio e Lílico Correa na coordenação de grupos paroquiais.

 

      Acontecimento muito importante em 1993 foi a visita a Campinas, entre 10 e 17 de outubro, da imagem de Nossa Senhora de Fátima. Ela chegou à cidade com o lançamento de flores cedidas pela cooperativa de Holambra, e com a entrega das chaves pelo prefeito, José Roberto Magalhães Teixeira.  

 

       Antes, no mês de setembro, pela primeira vez na diocese, foi nomeado, pelo arcebispo d.Gilberto Pereira Lopes, como ministro extraordinário de Batismo, o prior da Venerável Ordem Terceira do Carmo, João Junque Filho. Era mais um reconhecimento aos imensos trabalhos prestados à Igreja local, e especialmente à paróquia do Carmo, da Ordem Terceira.

 

     1993 encerrou com a grande cerimônia, realizada a 12 de dezembro, de inauguração do Santuário de Guadalupe, construído por inspiração de d.Agnello Rossi e sob a coordenação do padre Francisco de Assis Marques de Almeida (o Padre Xiquinho). As obras foram feitas pela construtora Lix da Cunha. Esta obra contou com o apoio do Monsenhor Geraldo.

 

      A cerimônia de inauguração teve a presença do cardeal Bernardin Gantin, decano do colégio cardinalício no Vaticano e prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos; do Núncio Apostólico no Brasil (entre 1992 e 2002), d.Alfio Rapisarda; do presidente da CNBB, d.Luciano Mendes de Almeida; de d.Gilberto Pereira Lopes e dos cardeais d.Lucas Moreira Neves, d.Eugênio Salles, entre outros prelados; do governador Luiz Antônio Fleury Filho e do ex-governador Orestes Quércia; do prefeito José Roberto Magalhães Teixeira e várias outras autoridades. Vários membros do clero da arquidiocese de Campinas participaram desse momento de júbilo para a Igreja Católica local.

 

 

 

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Monsenhor Geraldo

 

      Grandes eventos na Basílica do Carmo, para marcar a transição de milênios. Em março de 1994 o Mons. Geraldo viajou a Portugal, para buscar a réplica da imagem de Nossa Senhora de Fátima doada pela comunidade portuguesa em Campinas para a cidade, e que seria destinada à paróquia do Carmo.

 

      Feita em madeira de cedro, doada pelo industrial Paulo Penachi, de Arapongas (PR), a imagem foi esculpida pelo escultor Avelino Moreira Vinhas, do Porto, que tinha  85 anos. Menino, aos 8 anos Avelino tinha ajudado o pai a esculpir a imagem original de Nossa Senhora de Fátima, venerada por milhões de fiéis todos os anos em visita ao famoso santuário.

 

      Sempre com o apoio da TAP, a imagem chegou ao Brasil a 4 de maio. Antes, a 20 de abril, ela tinha sido abençoada pelo papa João Paulo II, que comentou: “Ela é linda!”

 

     A chegada a Campinas foi a 8 de maio. A imagem de Nossa Senhora de Fátima foi apresentada à cidade com missa campal no teatro de arena do Centro de Convivência Cultural. Todos se maravilharam com a imagem de 1,40 m de altura e 5 kg, com seu manto pintado em branco e filetado a ouro. Detalhe para o terço em ouro e pedras semipreciosas e para a coroa banhada a ouro também cravada em pedras. O terço foi confeccionado em Campinas.

 

      Após a grande cerimônia no Centro de Convivência, a imagem foi transportada para a Basílica do Carmo. E foi entronizada, a 13 de maio, no altar principal, do lado direito de Nossa Senhora do Carmo. (Em 1917, durante uma das aparições aos meninos portugueses, a santa estava vestida como Nossa Senhora do Carmo). A noite de 13 de maio estava chuvosa, mas isso não impediu a grande afluência de público. A  imagem se encontra hoje no altar lateral da Basílica, ao lado da imagem do Coração de Jesus.

 

      No mesmo ano de 1994, foi promovida, entre dias 3 e 4 de dezembro, a primeira Vigília Eucarística de Missas na Basílica do Carmo. Foram celebradas 11 missas consecutivas, entre 21 horas do dia 3 e as  9 horas do dia 4. Era mais uma  iniciativa de Monsenhor Geraldo, em coerência com seu estilo de inovação e atos de grande repercussão à frente da paróquia. A Vigília Eucarística já teve o apoio do padre João Batista Silvestre, que tinha sido nomeado vigário paroquial em junho, para auxiliar o titular. Outra Vigília seria realizada entre dias 23 e 24 de novembro de 1996.

 

      Cerimônia igualmente importante foi realizada na Basílica a 18 de outubro de 1995, com a missa em desagravo em função do chute que a imagem de Nossa Senhora Aparecida havia recebido de um pastor da Igreja Universal do Reino de Deus em transmissão televisiva. A primeira Igreja de Campinas esteve lotada.

 

      A 8 de dezembro de 1995, teve início o jubileu de ouro do monsenhor Geraldo Azevedo, que completaria 50 anos de sacerdócio em 1996. O pároco receberia várias homenagens em função desse Jubileu.

 

     A 15 de março de 1996, por exemplo, recebeu o título de Cidadão Campineiro, da Câmara Municipal. Em abril, participaria de viagem a Israel, Itália e Portugal, como uma oferta da Tavares Tour. No Vaticano, concelebrou missa com o papa João Paulo II.

 

     O pároco manteve-se ativo e, a 14 de julho, na festa do aniversário de Campinas e da primeira missa na cidade, promoveu o lançamento de um balão com a imagem de Nossa Senhora do Carmo. O estandarte caiu dois dias depois, em Barra Mansa (RJ), no momento em que era celebrada uma missa pela padroeira de Campinas, Nossa Senhora da Conceição. Acompanhado de integrantes do Conselho Pastoral, monsenhor Geraldo faria uma visita à comunidade de Santo Antônio, em Barra Mansa, onde o estandarte caiu, em 15 de março de 1997. 

 

        A missa solene pelo Jubileu de Ouro de monsenhor Geraldo foi a 8 de dezembro de 1996. Basílica lotada, o pároco e os fiéis muito emocionados. Ele continuaria recebendo homenagens no ano seguinte, entre outros, do Clube Bonfim e de fiéis de Iracemápolis, onde havia atuado como vigário.

 

     O dia 22 de março de 1997 é outra data importante na trajetória da Basílica. Nesse dia, foi inaugurada a cruz luminosa no frontispício da Basílica. Um velho sonho da paroquia, que por longos anos se chamou Santa Cruz.

 

      No mesmo ano, a 16 de novembro, a Basílica recebeu a visita da relíquia de D.Bosco, que estava iniciando visita ao Brasil, vinda de Turim, na Itália.

 

     Um ano depois, a 11 de novembro de 1998, foi a vez da chegada da relíquia de Frei Galvão, que tinha sido beatificado em outubro. Uma imagem do santo foi entronizada na Basílica e ali se encontra no altar lateral do lado da rua Barão de Jaguara, imagem doada pelo Dr.Romeu Santini.

 

      No final de 1998 outra iniciativa, típica do estilo de monsenhor Geraldo. Na noite de 24 de dezembro foi celebrada a Missa do Galo na Basílica do Carmo, que voltava depois de anos.

 

      Em 19 de maio de 1999, uma nova entronização, da imagem de Santo Expedito. A imagem esta hoje no altar lateral, perto do confessionário.

 

         A 24 de outubro de 1999 ocorreria o fechamento da Porta Santa A Porta Santa que seria aberta a 9 de janeiro de 2000, como um marco do Terceiro Milênio na Basílica do Carmo. Um portal para uma nova sociedade.

 

      No dia 28 de novembro de 1999, a Basílica comemorava a chegada da relíquia de Santo Antônio. E no Natal de 1999, monsenhor Geraldo Azevedo, com seus 79 anos, divulgou uma carta aos paroquianos, saudando o novo milênio e a reafirmando sua disposição de continuar servindo a Igreja, enquanto fosse o desejo divino. Para muitos foi um ato premonitório, diante do que aconteceria no ano seguinte, o ano 2000, esperado por tantos.

 

      O começo do ano 2000 foi marcado por muitas celebrações, pela Igreja Católica de Campinas em geral e pela Basílica do Carmo em especial. A 1o de janeiro, às 9 horas, foi celebrada a missa festiva, com o tema geral Dignidade Humana e Paz. Era o tema da Campanha da Fraternidade daquele ano, que era ecumênica e tinha o lema “Novo milênio sem exclusões”. A 11 de março, de fato, houve uma celebração ecumênica no teatro de arena do Centro de Convivência Cultural.

 

      No dia 26 de abril, missa na Basílica, em comemoração aos 500 anos do Brasil. Em junho, monsenhor Geraldo ofereceu almoço, para os líderes que ajudariam na preparação do Congresso Eucarístico de 2001, que seria realizado em Campinas.

 

       Mas o pároco do Carmo não veria o grande evento do ano seguinte. No dia 17 de julho de 2000, um dia após celebrar a anual missa festiva de Nossa Senhora do Carmo, ele se afastou para se submeter a uma cirurgia de catarata. No dia 20, enquanto ainda estava hospitalizado, recebeu a notícia de que o prefeito Francisco Amaral havia sancionado a lei indicando a construção de um monumento a Jesus Cristo, que havia sido solicitada pelo pároco do Carmo.

 

     Às 18:45 do dia 22 de junho de 2000, monsenhor Geraldo Azevedo falecia, na Casa de Saúde de Campinas, por seqüela de um acidente cirúrgico. O corpo foi velado na Basílica, com grande participação popular. A missa de corpo presente aconteceu no dia 23, celebrada pelo arcebispo d.Gilberto Pereira Lopes e numeroso clero. Assumiu temporariamente a direção da paróquia o padre Bruno Alencar Alexandroni.

 

     No dia 24 de julho o pároco interino se reuniu com membros do Conselho Pastoral: Sebastião Ximenes, Laércio Frezatto, José Clélio Balbino. Quatro dias depois foi celebrada a missa de sétimo dia, celebrada pelo bispo auxiliar de Campinas, d.Luiz Antonio Guedes, que havia sido nomeado a 29 de janeiro de 1997.

 

      A 28 de maio de 2002 a Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou projeto de lei dando o nome de Monsenhor Geraldo Azevedo à rotatória conhecida como Trevo da Bosch, na Via Anhangüera. O projeto foi de autoria da deputada estadual Célia Leão.               

 

 

 

 

 

© desde 25/12/2006 - Basílica Nossa Senhora do Carmo - Campinas - SP - Brasil