Basílica do Carmo:

História de fé no coração de Campinas

 

José Pedro Soares Martins

 

Campinas, Ed.Komedi, 2010

 

 

Apresentação

Introdução

Síntese Introdutória

Primeira Parte

Antecedentes da Paróquia de N.Sra.do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Freguesia

1730-1774

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

1774-1779

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz do Carmo

1779-1870

Segunda Parte

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz Sta.Cruz do Carmo

1870-1938

Fase V

Matriz e Basílica N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

1939-2000

Fase VI

Transição para o Terceiro Milênio

2000 - e o futuro...

 

PARTE I

Antecedentes da Paróquia do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Paróquia

A carteira de identidade de Campinas

Pousos de tropeiros no meio do mato grosso

Busca da autonomia e assistência espiritual

Autorização para ereção da capela

Mandado de Comissão ao Vigário de Jundiaí em vista da construção da capela

A fundação de Campinas e da Paróquia (Freguesia) de N.Sra.da Conceição

Barreto Leme, tradição de desbravamento

Frei Antonio de Pádua Teixeira, o co-fundador

Os outros pioneiros da Cidade e da Igreja

Dom Frei Manuel da Ressurreição, atuação decisiva

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

Largo do Carmo, marco zero de Campinas

Pe. José de Santa Maria Cunha

Inauguração da Matriz

Pe. André da Rocha Abreu

Pe. Manoel Joaquim de Freitas e outros Vigários

Pe. Joaquim José Gomes, a Vila de São Carlos e ideia de nova Matriz

Pe. Fasijó em sua passagem por Campinas

Igreja do Rosário, um marco no centro da cidade

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz

Pe. Manoel José Ferreira Pinto

Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, crítico da escravidão, enquanto Campinas se torna cidade

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

Pe. Dr. João de Almeida Barbosa e o começo da ascensão do café

Primeira visita de Dom Pedro II (1846) e transferência da Matriz para a Igreja do Rosário

Situação do prédio da Matriz Velha

Pe. Antonio Cândido de Mello: novo susto e peste no Paço Municipal

Pe. Joaquim José Vieira, fundador do primeiro hospital de Campinas: a Santa Casa

Polêmica antes da criação da Paróquia de Sta.Cruz

 

Parte II

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz de Sta.Cruz

Criação e instalação da Paróquia de Sta.Cruz, depois do Carmo

Auto de instalação da Nova Freguesia de Sta.Cruz na cidade de Campinas

Matriz de Sta.Cruz do Carmo na década de ouro do café e seu 1º Pároco

2º Pároco, Côn. Nery, no combate à febre amarela: um novo Bispo

Côn. Scipião, 3º Pároco. Pe. Landell de Moura, o "Pai do Rádio"

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

Pe. D'Avila, 4º Pároco de Sta.Cruz do Carmo: Campinas pós febre amarela

Diocese de Campinas, no paroquiato de Côn. Barreto, 5º Pároco do Carmo

Côn. Otávio, 6º Pároco: guerra no mundo, bibliotecas em Campinas

Mons. Ribas D'Avila, 7º Pároco, quando a gripe espanhola assusta Campinas

Côn. Fragoso, 8º Pároco: centenário da Independência e novo Bispo

Côn. Idilio, 9º Pároco: uma nova Matriz, oficialização do nome definitivo da Paróquia do Carmo

Um escultor italo-brasileiro que fez história

Côn. Amaral, 10º Pároco: conclusão da Matriz do Carmo

Lélio Coluccini, o escultor de Campinas

O pintor das igrejas

Fase V

Matriz e Basílica de N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

Côn. Aniger, 11º Pároco e o Congresso Eucarístico

Morte de Dom Barreto

Congresso Eucarístico

Côn. Raphael Roldan, 12º Pároco e o final da II Guerra Mundial

Mons. Lázaro, 13º Pároco: pintura e órgão para a Matriz

Vocação para a música

Côn. Geraldo Azevêdo, 14º Pároco: a Matriz se torna "Basílica do Carmo"

Breve papal de criação da Basílica Menor de N.Sra.do Carmo

1. O título de Basílica e o seu significado histórico

Símbolos da Basílica

2. A Igreja nas ondas do rádio e do povo

3. Campanha da Fraternidade

Celebrações

4. Transformações no Carmo

5. Outras Campanhas

6. Doença de Mons. Geraldo

7. Atuação pastoral e administração

8. Tempo de mudanças

Mais um Bispo do Carmo

9. Reestruturação para o futuro

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Mons. Geraldo

Fase VI

Basílica no Terceiro Milênio

Côn. Pedro Carlos Cipolini, 15º Pároco: o protagonismo dos leigos e a missão na cidade

1. Comunhão e participação

2. Sólida formação para servir

3. Continuidade do restauro da Basílica, agora Patrimônio Histórico

4. Incentivo à participação e acolhimento: pólo missionário

Olhar para a comunicação

Celebrações emocionantes

5. Aprofundando o planejamento

Datas importantes para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 

 

CÔNEGO IDILIO - 9o PÁROCO: UMA NOVA MATRIZ

OFICIALIZAÇÃO DO NOME DEFINITIVO DA  PARÓQUIA DO CARMO

 

        O Cônego Idílio Soares tomou posse a 12 de outubro de 1924. Ele logo passaria a idealizar não uma reforma para a Matriz, mas sua reconstrução, “de foud em comble”.

    

      Foram dez anos, entre o momento da tomada de decisão pelas obras  - no começo de 1929 – até a inauguração da nova Matriz de Santa Cruz do Carmo – no final de 1938. Etapa de mudanças decisivas no perfil da sociedade brasileira, que se refletiram intensamente na vida da Igreja Católica, do país, de Campinas e, particularmente, na Paróquia de Santa Cruz.  A reconstrução da primeira Matriz de Campinas, em uma fase de enorme turbulência política, social e econômica, representa portanto mais um símbolo de como essa Igreja (a exemplo da cidade) superou todos obstáculos históricos, para confirmar seu lugar no coração dos campineiros. Também evidencia o reflexo da história nacional e internacional, com todos seus caprichos, na vida de todos brasileiros.

 

     Os primeiros anos do cônego Idílio Soares à frente da Paróquia não indicavam a grande reformulação que estava por vir – no país, na cidade, na Matriz de Santa Cruz do Carmo. Foram anos de certa tranqüilidade, e de dedicação às atividades tradicionais.   

 

       O Cônego Idílio estou filosofia em São Paulo e fez doutorado em Teologia em Roma, obtendo o titulo de doutor em 1915 na Universidade Gregoriana. Havia sido vigário coadjutor na Matriz de Santa Cruz do Carmo entre 1922 e 1923.

    

      O calendário das atividades religiosas se mantinha. Em janeiro era comemorado o dia de São Sebastião. Durante o Carnaval havia a exposição do Santíssimo. A Semana Santa era especial. Março era dedicado à festa de São José. Maio, mês de Maria, tinha a missa para os presos. Em junho era celebrado o Sagrado Coração de Jesus. Em Junho, a festa de São Luiz. Julho era o mês da padroeira, Nossa Senhora do Carmo. Em agosto a festa de Santa Filomena. Em outubro, de Nossa Senhora do Rosário. E o Natal e Ano Novo, celebrando o recomeço.

 

     1925 começou com um novo coadjutor, padre José R.Carvalho. Em maio de 1926 foi celebrado o jubileu do Ano Santo. Em janeiro de 1928  foi abençoada a matriz da paróquia do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Botafogo, com a posse do vigário, padre Vicente Rizzo.

 

      Nesses anos de certa tranqüilidade – com exceção dos impactos do movimento tenentista de 1924 – houve algumas inaugurações expressivas. Em 1926 foi aberto um Pavilhão de Cirurgia na Santa Casa de Misericórdia, no território da paróquia de Santa Cruz. Era o embrião do futuro Hospital Irmãos Penteado, assim denominado a partir de 15 de agosto de 1936, então ainda ligado administrativamente à Santa Casa.

          

     A 1o de março de 1927 aconteceu a inauguração do Patronato “São Francisco”, idealizado pelo bispo D.Francisco de Campos Barreto para abrigar crianças pobres do sexo feminino. Era uma forma de marcar a memória dos 700 anos de canonização de São Francisco de Assis.

 

     Ainda em 1927 foi inaugurado o Instituto  das Missionárias de Jesus Crucificado, cuja casa-mãe está na paróquia Nossa Senhora do Carmo. A 20 de abril de 1928 foi criado o Orfanato - depois Lar Escola -“Nossa Senhora do Calvário”, que a partir de 1934 funcionaria em prédio na rua Luzitana, antes de se transferir para edifício maior na rua Silva Telles,  no Cambuí. Durante muito tempo o orfanato teve apoio da Legião Brasileira de Assistência (LBA). Eram obras que  mobilizaram paroquianos de Santa Cruz.

 

      1929 começou com o coadjutor, padre José Carvalho, solicitando licença para tratamento de saúde. No dia 7 de fevereiro, foi realizado um festival em beneficio da Escola Paroquial Santa Cruz, com a apresentação da peça tearal “Os dois sargentos”, pelo grupo de 12 atores da União de Santo Agostinho. Também se apresentou Álvaro Vilagelin, com suas tradicionais piadas. Antônio Rodrigues Gonçalves, da Padaria Radio, ofereceu um “pão de ló (ou de lot)” imenso, para ser sorteado.

 

     No dia 13 de fevereiro de 1929 um encontro histórico para a biografia da Paróquia do Carmo.  Nessa data, foi promovida uma reunião com “representantes das famílias mais importantes da paróquia”, segundo relato do cônego Idílio Soares, para tratar de reformas na matriz. A Igreja, primeira de Campinas, necessitava de uma reformulação, considerando, entre outros fatores, o crescimento da cidade, cuja população era de cerca de 130 mil moradores. 

 

      Foi aprovada na reunião a consulta a engenheiros para um parecer sobre as obras. O consenso foi o da necessidade de demolição de  paredes, levantamento do piso e aproveitamento das torres mas levantando-as mais 5 ou 6 metros. Mais que reforma, enfim, uma reconstrução. 

 

       Enfim, tratava-se de uma reformulação completa da estrutura da matriz. Foi feita uma opção pelo estilo gótico, em função da proporção do templo e do local do edifício. Participaram da reunião, atendendo a convite do cônego Idílio Soares: Cláudio Celestino Soares, Cícero Moraes, Joaquim Ferreira Netto, dr José Ferreira Camargo, Júlio Arruda, Paschoal Purchio, José Martins Ladeira, coronel José Bonifácio R. Camargo e Comendador Fortunato Figueiredo Tavares.

 

     Outras reuniões foram marcadas para os dias 14 e 25 de fevereiro. Enquanto isso, já apareciam os primeiros donativos, de pessoas como d. Ercilia Alves Pinto, d. Odilla Alves Ferreira, dr. Alberto Moraes, parentes de Helena Cintra.

 

     A 30 de março de 1929 uma nova reunião sobre as reformas  na matriz, com a presença do dr. José Maria das Neves, que foi convidado a dar parecer técnico. O engenheiro foi contratado para elaborar, por 3 contos de réis, uma planta para a nova Matriz, e que deveria ser apresentada em 2 meses.

 

      Em abril o vigário entrou em licença de 15 dias, sendo substituído pelo coadjutor, padre José Carvalho. Em maio o Núncio Apostólico no Brasil fez uma visita a Campinas, tendo visitado a matriz de Santa Cruz do Carmo dia 19.

 

       A Comissão para as obras da matriz foi finalmente composta em junho de 1929, tendo na presidência de honra o bispo diocesano. Os demais componentes: presidente – Cláudio Celestino Soares,vice - cel José Bonifácio A Camargo, tes - José Henrique Tavares, sec José Martins Laveira, Comissão Obras - dr José Ferreira Camargo, Cícero R Souza Moraes, Joaquim Ferreira Penteado Neto e dr Júlio S R Arruda, comissão consultiva - dr Hoche Segurado, Paschoal Purchio, Augusto Moraes Carvalho e Mário de Siqueira. Diretor geral Cônego Idílio Soares, comissão auxiliar - Antônio Maurício Ladeira, Benedicto Rosa Miranda, Bento da Silva Leite, João Athayde de Oliveira, José Vieira dos Santos e Belarmino França.

 

       Em julho, na Casa Mascotte, a planta da nova matriz foi exposta. “Ótimo trabalho do dr. José Maria das Neves, de São Paulo”, opinou o vigário. O projeto previa a construção de três naves, as laterais com quatro metros de largura e a central com cerca de nove metros. A luz direta incidiria por vitrais circundando toda a Igreja e capela-mor. No cruzeiro da Igreja haveria dois altares. A Capela do Santíssimo seria alargada e levantada. Haveria salão para reuniões, consistório para irmãos do Carmo, escritório paroquial, ampla sacristia e demais compartimentos.As torres seriam mais altas e a parte frontal seria em estilo gótico.

 

     Mais donativos iam sendo registrados, entre outros, de Francisco Andrade Nogueira, Delphina, Jacyntha e Valeriana Cintra, d Gertrudes R Moraes e Filhos, família Fragoso Ferrão, dr Fonseca Rodrigues, d Francisca R Moraes, um carmelita terceiro, irmãos Sousa Campos, João Sousa Campos, d Maria Franco Andrade, um carmelita, d Célia Duarte. Até 31 de julho de 1929 já tinham sido arrecadados 38 contos de réis.

 

      Entre os doadores, dois nomes importantes na história de Campinas, Raphael de Andrade Duarte e Álvaro Ribeiro. Duarte tinha sido prefeito de Campinas entre 1920 e 1921, e de outubro a dezembro de 1922. Eleito vereador para sete mandatos sucessivos, o benemérito e empreendedor Álvaro Ribeiro criou os dois principais jornais da história local, ainda em circulação no início do século 21: “Diário do Povo”, que começou a circular a 20 de janeiro de 1912, e “Correio Popular”, lançado a 4 de setembro de 1927.

 

      Em abril de 1929 começou a funcionar a Escola para Meninas Surdas, a cargo de irmãs do Calvário que tinham diplomas do governo da França. Funcionava no Instituto Santa Terezinha, na rua Luzitana. Em junho, como era de praxe, a Associação de Mães Cristãs da paróquia promoveu uma distribuição de cobertores a pessoas pobres.

 

       A 22 de setembro de 1929 foi celebrada, na Matriz de Santa Cruz, a primeira missa do padre Casimiro R. Abreu, campineiro recém-ordenado. Depois, o padre Casimiro seria nomeado, em maio de 1930, novo coadjutor da matriz, pois o padre José Carvalho tinha sido transferido para Itapira. Enquanto isso, os nomes de outros doadores eram publicados no Boletim Paroquial.

 

     Em outubro de 1929, quando começou a demolição da parte que seria reconstruída em primeiro lugar,  um acontecimento de impacto global, e que também se refletiu diretamente na vida social e política do Brasil e na trajetória da Matriz. Era a história mostrando como, em alguns momentos, é implacável. 

 

      No dia 29 de outubro, uma terça-feira, aconteceu a quebra da Bolsa de Valores de Nova York. Os dias seguintes foram de pânico global. Mas nem se vislumbrava que começava ali a Grande Depressão que atingiu o planeta como um todo, sendo um dos fatores que depois levariam à Segunda Guerra Mundial. No Brasil, o crack da Bolsa de Nova York abalou os alicerces da política “café com leite”, como era conhecido o revezamento no poder federal dos pecuaristas de Minas Gerais e dos cafeicultores de São Paulo – os da região de Campinas à frente.

 

       No período de 1929 a 1933 o preço da tonelada de café, principal produto de exportação do Brasil na época, caiu de 67,3 mil libras esterlinas para 17,8 mil libras. As exportações nacionais despencaram de 90 para 36 milhões de libras esterlinas.   

 

     O efeito foi devastador para São Paulo, maior produtor nacional de café, e para a região de Campinas em particular. O cônego Idílio Soares já manifestava em novembro o temor de que, se a crise continuasse, “não se poderia obter o quantum necessário para a reconstrução da matriz e nesse caso o início das obras ficará para tempo indeterminado".

 

       As atividades regulares prosseguiram em 1930, enquanto São Paulo e o Brasil deglutiam os efeitos da crise econômica (que se refletiu no cenário político), e em junho foi realizada nova reunião da Comissão de Obras da matriz. Ficou resolvido que o dinheiro arrecadado até então seria de qualquer modo aplicado em favor da matriz.

 

      Em julho de 1930, em nova reunião, resolveu-se que, “devido a situação pouco favorável a essa obra de vulto”, seria elaborada “uma planta mais modesta”, a cargo do engenheiro arquiteto dr Agostinho Odisio. E novos donativos apareciam, como de d Anna B R Campos e filhas, de Amparo, que doou uma casa no valor de 30 contos, na rua Benjamin Constant. Na realidade,  a doação já tinha acontecido a 8 de março de 1927, mas “por descuido não se registrou o donativo na época”, segundo o pároco.

 

UM ESCULTOR ÍTALO-BRASILEIRO QUE FEZ HISTÓRIA

    

     O engenheiro e arquiteto Agostinho Odisio, que cuidou da nova versão das obras de reconstrução da Igreja do Carmo, era também um grande escultor e que teve trajetória importantíssima no cenário brasileiro, apesar de não ser muito conhecida do grande publico.

 

     Agostino (nome original) Balmes Odisio nasceu em Turim, Itália, em 1881. Estou artes plásticas e se dedicou inicialmente sobretudo a escultura, sendo discípulo confesso do francês Auguste Rodin, que conheceu e com quem conviveu algum tempo em Paris. Ainda em território italiano foi autor, entre outras peças, do busto de Vittorio Emanuelle 2°, no Palazzio Venezia, um dos edifícios mais importantes da capital italiana. Foi um dos primeiros prédios renascentistas em Roma, tendo sido utilizadas pedras do Coliseu em sua construção.

 

      Durante algum tempo o Palazzio Venezia foi praticamente a sede do governo italiano, pois era utilizado como escritório por Benito Mussolini. Da sacada do edifício o “Duce”  fazia os seus longos discursos, que se tornaram legendários. O fato de Agostino Odisio ter esculpido o busto de Vittorio Emanuelle 2°, obra instalada no Palazzio Venezia, era claro indicativo do sucesso que o escultor teria em seu pais.

 

     Entretanto, um ano depois, em 1913, ele chegava ao Brasil, onde passaria toda a sua vida até o falecimento, em 29 de agosto de 1948. Morou muito tempo em Taubaté, em Minas Gerais e se estabeleceu finalmente no Ceará , onde deixou varias obras importantes, como a Igreja Matriz de Acaraú, pátio da Igreja da Piedade (em Fortaleza) e famosa a estátua do Padre Cícero, em Juazeiro. Agostinho ainda deixou um diário com impressões sobre os dias posteriores à morte do Padre Cícero, que permaneceu inédito ate o lançamento pelo Museu do Ceara em 2007.  

 

     O mestre Agostinho Odisio deixou varias obras na região de Campinas, como o monumento e busto do Centenário da Independência, instalado na Praça da Bandeira, em Judiai, em setembro de 1922.  O italo-brasileiro que contribuiu com a Igreja do Carmo é um nome ainda a ser resgatado.

 

 

     A decisão de prosseguir as obras da matriz coincidiu com um grave momento da vida nacional. No dia 26 de julho de 1930 o líder político João Pessoa, vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas, que havia concorrido às eleições presidenciais de 1o de março, foi assassinado em Recife, Pernambuco. As eleições presidenciais tinham sido marcadas por várias denúncias de fraudes de lado a lado, culminando com a vitória de Júlio Prestes, o candidato das elites do café com leite. Mas o assassinato de João Pessoa foi o estopim de uma grande mobilização nacional, por partidários de Getúlio Vargas.

 

      Campinas acompanhava, atenta. Em agosto a paróquia promoveu passeio e crianças do catecismo ao Bosque dos Jequitibás – o mesmo local que depois abrigaria tropas federais do general João Franco, que lutavam com as forças estaduais de Bertoldo Klinger, durante a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder.

 

     Em setembro de 1930, um mês antes de radical mudança no cenário nacional, tiveram início as obras de demolição da Matriz, começando pelo corpo da Igreja, ficando somente a capela mor (presbitério) e capela do Santíssimo para atos paroquiais. As missas dominicais seriam na Igreja do Rosário.

 

      No dia 3 de outubro de 1930, começou movimento liderado por tropas e grupos fiéis a Getúlio Vargas, começando pelo seu estado de origem, o Rio Grande do Sul.   O objetivo era a derrubada do ainda presidente Washington Luis, que continuava despachando normalmente no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, como se nada estivesse acontecendo.

 

     O movimento tornou-se vitorioso a 24 de outubro. Começava a Era Vargas, marcada pela presença de Getúlio Vargas no poder por 19 anos – 15 como ditador, quatro como presidente eleito diretamente pelo voto.

 

      Os acontecimentos de outubro de 1930 respingaram na pele da Igreja de Campinas. A descrição do cônego Idílio Soares diz tudo: "Este mês assinalou-se pelo movimento revolucionário em todo o país, iniciado no dia 4 e terminado no dia 24, pela vitória do mesmo. Aproveitando-se da situação anormal, elementos desordeiros da cidade e anti-clericais exaltados atacaram o Palácio Episcopal, saqueando-o e destruindo os móveis e objetos num furor diabólico, de que não há exemplo na história paulista. Mercê de Deus, sua Exma. Revma. o sr. Bispo Diocesano (D.Barreto) saiu incólume desse vil atentado".

 

     No mesmo mês de outubro, terminava a demolição do corpo da Igreja. Em novembro, quando o país ainda digeria os fatos de outubro, começava no dia 3 a abertura dos alicerces. Demorou um pouco “devido a situação anormal do país”, segundo o vigário.A 4 de novembro foi promovido um Tríduo de desagravo ao atentado sofrido pela autoridade diocesana.

 

      No começo de 1931, D Anna de Pinto Freire deixou um legado de 25 contos para Escola Paroquial Santa Cruz, que passaria a ter o nome de  Comendador Freire. O vigário comprou uma casa na Rua Regente Feijó para a paróquia, por 18 contos, ficando o restante para a Cúria.

 

      Em fevereiro de 1931 foram confeccionadas e distribuídas cadernetas para contribuições mensais às obras da matriz. Em abril foi promovido festival lítero-musical no Teatro Municipal em benefício da matriz.

 

      A 28 de maio de 1931 houve a fundação da Associação de Propagação da Fé, com primeira diretoria empossada a 4 de junho. Em Junho o Tríduo de Santo Antônio, no dia 13, teve distribuição de pães custeada por uma devota. A paróquia continuava suas atividades, em que pese o momento nacional ainda crítico.

 

     Em setembro foi realizada quermesse para obras da matriz no estádio da Ponte Preta, cedido pelo proprietário, dr Penido Burnier. Até o início de novembro foram arrecadados 21 contos de réis, "o que é bastante significativo levando-se em conta a quadra difícil que se está atravessando", disse o pároco.

 

     Ainda em novembro desenvolveu-se a Semana da Tribuna, pelo aumento de assinantes e cooperados da "boa imprensa". A Igreja considerava que a mídia exercia cada vez mais papel relevante na sociedade brasileira e mundial. “A Tribuna” era o nome do órgão oficial da Diocese de Campinas e que existe ate hoje.

 

     1932 seria outro ano crítico para o país, para São Paulo, para Campinas e para a Igreja. Mas começou tranqüilo, salvo a curiosa observação do pároco: "Em desagravo pelos excessos do Carnaval,  realizaram-se os piedosos atos das 40 horas, com exposição Santíssimo das 9 às 19 hs”.

 

     A 21 de fevereiro de 1932 houve a inauguração da nova Matriz, ainda inacabada, com missa presidida pelo bispo diocesano, que manifestou o seu desejo de que de ora em diante a Igreja se chamasse Matriz do Carmo, pela paróquia ter como padroeira a Nossa Senhora do Carmo.

 

     Presentes a Comissão de Obras, associações religiosas, signatários do Livro de Ouro. Foi, entretanto, um ato ainda não oficial, o que seria realizado apenas quando a Igreja estivesse totalmente concluída. Ainda restava, por exemplo, a construção da capela-mor (presbitério). Por isso, as obras e iniciativas pela arrecadação de fundos continuariam.

 

     Em abril, na Casa Mascote, cedida por Antônio Benedito de Castro Mendes, houve a Semana do Chá, em benefício das obras da Matriz, com levantamento de 3 contos de réis. A 1o de  maio houve missa campal em frente à matriz, presidida pelo bispo, como parte de programa promovido por operários católicos. Em junho, padres salesianos promoveram missões no Taquaral. Iniciada em maio, foi concluída em junho a demolição da capela mor e adjacências, e com isso o culto passou a funcionar apenas na parte nova.

 

      Entre julho e outubro, Campinas foi uma das cidades paulistas mais envolvidas nos momentos culminantes da Revolução Constitucionalista de 1932, com reflexo direto na vida da Igreja, como no ritmo das obras na Matriz do Carmo.  

 

     A Revolução Constitucionalista foi um movimento decorrente da reivindicação de grupos políticos e sociais, sobretudo de São Paulo, no sentido de que o presidente Vargas cumprisse a promessa de convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte para redigir nova constituição para o país.

 

     No dia 23 de maio, o assassinato de cinco estudantes por partidários de Vargas foi a gota d’água para o movimento revolucionário, que afinal eclodiu a 9 de julho – que se tornaria a principal data oficial em São Paulo.  

 

     A 12 de julho começou em Campinas o alistamento de voluntários para lutar no conflito, “em defesa de São Paulo”. O quartel-general local foi instalado no Largo do Rosário, em território da Paróquia do Carmo. Sediado na avenida Francisco Glicério, o “23 de maio” foi um dos batalhões de voluntários formados na cidade, e que partiram para combate a 16 de julho. A Liga de Senhora de Campinas e a Legião Feminina “Barreto Leme” também se destacaram. Uma comissão patriótica, de apoio aos militares, funcionou na sede da Cúria de Campinas, na rua Costa Aguiar, ao lado da Catedral, sob auspícios do bispo d.Barreto.

 

     O conflito se estendeu até 2 de outubro, quando as tropas leais a Getúlio Vargas se tornaram vitoriosas. Em julho, principalmente, como relatou o pároco, "devido à situação anormal do Estado com a revolução  constitucionalista, promoveu-se quotidianamente à tarde orações apropriadas pela paz". Nesse momento a paróquia já tinha novo coadjutor, o padre Emilio  Villioti.

 

      Em agosto, ainda “implorando pela paz para o Brasil”, foi promovida exposição solene do Santíssimo e outros atos em várias Igrejas. A Revolução  Constitucionalista foi efetivamente um momento crítico, e Campinas, que ainda tinha o principal pólo ferroviário do Brasil, era especialmente visada, por sua localização e infra-estrutura estratégicas.

 

     No dia 18 de setembro, quatro bombas foram lançadas sobre Campinas por um dos “Vermelhinhos”, como eram conhecidos os aviões das tropas de Vargas. E o alvo era, estrategicamente, a Estação Ferroviária da Companhia Paulista. O resultado foi a morte de um menino de 9 anos, Aldo Chiorato, que estava no Bar Mercadinho.

 

     O episódio chocou a cidade e o Brasil. Foi uma das únicas vítimas de bombardeiros aéreos – praticados por brasileiros – ocorridos em território brasileiro. Novas ações pela paz foram promovidas nas Igrejas.

 

     Em  setembro, um mês antes do encerramento dos conflitos, o vigário Idílio Soares foi nomeado bispo de Petrolina (PE). Era o quinto ex-titular da Paróquia do Carmo tornado bispo. Mais uma vez, eram ratificados a tradição e o status da paróquia como uma das mais importantes da história da Igreja no Brasil.

 

     O cônego Idílio deixou o cargo a 27 de novembro de 1932, quando a nação ainda assimilava os efeitos da Revolução Constitucionalista. No dia 3 foi sagrado bispo na Catedral de Campinas, após oito anos de paroquiato na Santa Cruz do Carmo. Em 1932, ainda com o cônego Idílio, foram celebrados os 25 anos da Liga do Menino Jesus, fundada em 1907 pelo então pároco, agora bispo, Francisco de Campos Barreto.

 

 

 

CÔNEGO AMARAL - 10º PÁROCO:

CONCLUSÃO DA MATRIZ DO CARMO

 

      A 29 de novembro de 1932 foi nomeado o cônego Francisco Borja do Amaral como novo pároco do Carmo, com posse a 4 de dezembro.  O período do cônego Francisco Borja do Amaral à frente da Paróquia do Carmo foi, como o do antecessor, marcado por outros acontecimentos importantes na vida da própria Matriz, do país e do mundo.  Sem dúvida o fato mais relevante para a comunidade foi a conclusão, depois de dez anos, da reforma completa da Matriz do Carmo, evento muito comemorado entre os paroquianos e Igreja em geral. Mas isso aconteceu, como antes, não sem a superação de vários obstáculos.

 

      Em 1933 foi comemorado o Ano Santo. Em fevereiro foi comemorada a Festa de São Sebastião no Bairro Cambuí. No mesmo mês foi celebrada a nomeação oficial, como Comissário da Venerável Ordem 3a de Nossa Senhora do Carmo, do reverendíssimo padre Francisco Borja Amaral, depois cônego.

 

     A 22 de abril foi iniciada quermesse no Largo Carlos Gomes, para a última parte das obras da Matriz, envolvendo presbitério, capela mor e salas paroquiais. Foram arrecadados mais de 1 conto de réis por noite.

 

    No dia 5 de julho houve a reorganização da Associação Santa Filomena, fundada por D.Octavio Chagas de Miranda, direcionada a promover uma vida piedosa para jovens da paróquia.

 

     Ainda em julho foi promovida em Campinas reunião com o bispo de Pouso Alegre (MG), d.Octavio Chagas de Miranda, ex-pároco de Santa Cruz do Carmo. O bispo lembrou de episódio envolvendo o então padre Vieira, depois bispo do Ceará, que depois de aposentado retornou a Campinas, e desejava morrer perto da Santa Casa de Misericórdia, que havia criado.

 

     Certo dia, o padre Vieira ouviu de uma irmã, quando caminhava pelo jardim da Santa Casa: "Esta roseira foi o padre Vieira quem plantou". Nesse momento o religioso, já idoso, “tomando em suas mãos enrugadas uma das rosas, chorou copiosamente, de alegria e comoção", segundo relato do bispo de Pouso Alegre. Com essas palavras d.Octavio manifestou a esperança de que “a semente que plantou na paróquia desse muitas rosas”, como no caso do padre Vieira. Em seu caso, d.Octavio se referia à Pia União, que havia criado. A associação foi reorganizada a 29 de julho, com a presença do fundador.

 

     A 23 de setembro foi inaugurado o Coro Carmelitano pelos irmãos terceiros carmelitas, para atuação aos sábados. A 13 de outubro houve a benção da 1a telha para a cobertura da capela mor e adjacências, tendo como madrinha a menina Lelita Soares de Moraes. O objetivo inicial era terminar as obras até o final do ano.

 

      Ainda em outubro foi expedido comunicado a toda diocese, pela Adoração Noturna do Santíssimo, de 7 a 8 de cada mês, pela “boa elaboração da Constituição Nacional”, até encerramento da Assembléia Nacional Constituinte. A Constituinte – que tinha sido a principal reivindicação da Revolução de 32 – havia começado na prática a 3 de maio de 1933, com as eleições para a sua composição. A elaboração da nova Constituição seria concluída um ano depois, entrando em vigor a 16 de julho de 1934. Em 26 de novembro de 1933 houve a instalação, na diocese de Campinas, da Federação das Pias Uniões das Filhas de Maria.

 

      1934 começou com a nomeação como coadjutor, a 28 de janeiro, do padre Aniger Francisco Melillo, que havia sido nomeado a 31 de dezembro de 1933, no lugar de padre Emilio Villiotti. O padre Aniger era secretário do bispo d.Francisco de Campos Barreto.  De 18 a 21 de janeiro foi realizada a festa de Santa Inês pela Pia União das Filhas de Maria.

 

      Em fevereiro de 1934 foi aprovada pelo bispo a planta para o altar-mor da Matriz, um trabalho do escultor Lélio Coluccini, que venceu concurso aberto a respeito. A inauguração estava prevista para julho, nos 25 anos da Ordem Terceira do Carmo.

 

 

LELIO COLUCCINI, O ESCULTOR DE CAMPINAS

 

    Italiano de nascimento como Agostinho Balmes Odisio, Lélio Coluccini consagrou-se como um dos mais importantes nomes da escultura na historia de Campinas, com obras relevantes também em outras cidades brasileiras. Nasceu em Valdicastello, a 3 de dezembro de 1910, e com apenas dois anos chegou ao Brasil com os pais. O pai e irmãos fundaram a Marmoraria Coluccini, e nela Lélio deu os primeiros passos de artista, antes de estudar no Instituto d'Arti Stagio Stagi em Pietrasanta (Lucca).

 

      De volta ao Brasil, teve carreira brilhante. Deixou, entre outras obras, na cidade de São Paulo, "A Caçadora" (escultura em granito no Museu de Arte Moderna – MAM - de São Paulo -, no Parque do Ibirapuera) e "Último Acorde" (escultura em granito, na Praça Morungaba).

 

      Em Campinas foram varias obras, como o monumento a John Kennedy, o monumento ao Bicentenário de Campinas (de 1774, no Largo das Andorinhas), monumento a D.Barreto (escultura em Bronze, na praça D.Barreto, avenida da Saudade), monumento a fundação de Campinas (na parca Guilherme de Almeida, Largo do Rosário) e monumento aos soldados constitucionalistas de 1932.  O altar-mor na Igreja do Carmo e mais um exemplo de como a Basílica e referência obrigatória na historia da arte e cultura em Campinas e no Brasil.  

 

      

      No 1o domingo de março de 1934 foi celebrado o Dia da Boa Imprensa, uma determinação diocesana. Entre 3 e 5 de março o cônego Francisco Borja do Amaral recebeu d.Barreto na 3a visita pastoral à Matriz do Carmo.

 

      Durante a Semana Santa, em função das obras ainda em andamento, houve somente a benção de Ramos e missa solene de Quinta Santa, também com Via Sacra. Em março começou a construção do altar mor, com previsão de entrega em julho.

 

      De fato, a 15 de julho, sob a presidência de d.Barreto e com os carmelitas cantando em latim pela primeira vez as “Vésperas de Nossa Senhora do Carmo”, houve a inauguração do altar de mármore concebido e executado pelos irmãos Coluccini. Foram assim lembrados em grande estilo os 25 anos de atuação da Ordem Terceira do Carmo.

 

      Na Basílica do Carmo, Lelio Coluccini deixou ainda, de sua autoria, em bronze, a Santa Ceia que esta no altar-mor, o medalhão com a efígie de Barreto Leme no seu túmulo e uma placa comemorativa da fundação da cidade, que foi furtada em 2007.  O escultor morreu a 24 de julho de 1983, em Campinas. 

 

     A descrição do cônego Amaral ecoa a emoção do momento de inauguração inauguração do altar de mármore: “Quando o sr. bispo subia a nave central, bem ao chegar em frente ao pano que velava o belo altar, este cai de repente, enquanto no coro entoava-se com brilho o ´Laudas et Pontifice`. Depois das bençãos e ósculo dos paraninfos, começou reza, com a conferência "Mistério da Graça" pelo cônego dr.Henrique de Magalhães”.

 

      No dia 16 foi celebrada missa do bispo no novo altar. No mesmo dia 16 de julho de 1934 em que se comemorava a data de Nossa Senhora do Carmo, ocorria a promulgação da 4a Constituição brasileira, com feriado nacional. Constituição que apontava para a democratização do país, incluindo, por exemplo, pela primeira vez, o voto feminino. Mas a nova Constituição duraria pouco.

 

     A 18 de julho, exatamente nos 25 anos de fundação da Ordem Terceira do Carmo, foi promovida a 1a Confederação Paroquial, com apresentação de relatórios por todas associações paroquiais.

 

      Em 30 de julho, com o objetivo de estimular a Liga Eleitoral Católica (considerada cada vez mais importante para a Igreja, considerando o momento nacional), houve a renovação do Conselho Diretivo da Paróquia. Foi eleito presidente Benedito Rosa de Miranda. A 7 de agosto houve nova reunião da Confederação, com o propósito de estimular a votação em massa nas eleições de outubro.

 

      "Escolher bem os candidatos e afastar os elementos acatólicos, para que não sejam votados, principalmente em primeiro turno", era o objetivo da Liga, segundo relato do pároco.

 

      Ainda em 1934, à parte o momento político nacional que continuava tenso e instável, foi iniciado um processo em Campinas que também teria reflexos diretos na vida da paróquia do Carmo. Naquele ano, foi contratado pela Prefeitura o escritório do engenheiro-arquiteto Francisco Prestes Mais, para formulação de plano para um reordenamento do cenário urbano, que começava a sentir os impactos da Era do Automóvel.

 

     O Plano Prestes Maia, como ficaria conhecido, seria concluído em abril de 1938, e o seu resultado foi uma ampla intervenção urbana na área central, afetando muito a área situada na Paróquia do Carmo.

 

     O ano de 1935 começou com a previsão de término do coro e da Capela do Santíssimo. Em fevereiro chegaram livros sobre a organização da Ação Católica, que começava a atuar em todo país. A Ação Católica representaria uma grande renovação para a Igreja no Brasil, nascendo dela organizações como Juventude Universitária Católica (JUC), Juventude Operária Católica (JOC), Juventude Estudantil Católica (JEC) e Juventude Agrária Católica (JAC). A Ação Católica teve em Alceu de Amoroso Lima (que usou o pseudônimo de Tristão de Atayde), um dos maiores nomes e diretor nacional em 1935. 

 

     Também no começo de 1935, foi adquirido um arquivo de aço por 900 mil réis, para melhor organização e guarda de papéis oficiais da paróquia. Em abril, depois de suspensão de dois anos por causa das obras na Matriz, a Semana Santa voltou a ser totalmente realizada no Carmo.

 

     A 5 de maio um Chá da Páscoa, no Club Campineiro, em benefício do altar. O Club Campineiro, fundado em 1891, estava situado no Solar do Visconde de Indaiatuba, na esquina das ruas Barão de Jaguará e General Osório, no território da Paróquia do Carmo. Também a 5 de maio foi realizada a Páscoa dos Militares.

 

      No dia 19 de maio foi finalmente instalada a Ação Católica em Campinas, com uma Matriz do Carmo cheia de fiéis. Tendo como presidente o  monsenhor Luiz Gonzaga de Moura, vigário geral, e como secretários ad hoc os padres Aniger Melillo e Francisco Schetini, respectivamente coadjutor e auxiliar da paróquia. Foi empossada a primeira Diretoria, tendo como presidente Salvador Trefiglio e vice Antonio Montero.   A 8 agosto foi comemorado o jubileu de 25 anos do decreto de Pio X permitindo a comunhão das crianças.

 

       Nos meses finais de 1935, todas as quartas-feiras passou a ser realizada, por determinação do bispo, a hora santa "para se pedir pela nossa pátria, ameaçada pelo triste comunismo", na descrição do pároco. Referência à Intentona Comunista, movimento da Aliança Nacional Libertadora (ALN), liderado pelo Partido Comunista Brasileiro de Luis Carlos Prestes, contra o governo de Getúlio Vargas. O movimento teve o seu auge em novembro, atingindo principalmente o Nordeste.

 

      Também em novembro, no dia 9, em resposta a pedido do papa, foram promovidas em todo mundo, e também na Matriz do Carmo, orações pela paz em função da luta entre Itália e Etiópia, contribuindo para uma ameaça de guerra mundial, que depois realmente aconteceria.

 

    1936 começou com a nomeação, dia 19, de novo coadjutor, o padre Oscar Serra de Amaral, no lugar de padre Aniger, nomeado capelão das Missionárias de Jesus Crucificado e assistente do Operariado.

 

     A 9 de março começaram as obras da capela do Santíssimo com instalação da lateral. O concurso para o altar foi novamente vencido por Lélio Colluccini, e para pintura o artista Bruno Sercelli, de São Paulo, com laudo dos engenheiros Hoche Segurado, Eduardo Badaró e Mário Penteado. Bruno Sercelli era membro de tradicional família de pintores. Com o pai, Oreste, foi responsável pela decoração interior de várias Igrejas, como a Matriz de Jaú. 

 

     Um Chá de Páscoa pelas obras da Capela do Santíssimo foi promovido a 15 de abril. Também em abril foi celebrada na Matriz do Carmo a primeira comunhão de Orosimbo Maia (1862-1939), por d.Octavio, bispo de Pouso Alegre. Orosimbo Maia foi prefeito de Campinas por vários anos (1904, 1908-1910, 1926-1930 e março de 1931 a setembro de 1932) e um dos fundadores do Colégio Progresso, criado no território da paróquia do Carmo.

 

      Prevista para julho, a inauguração da capela do Santíssimo não pôde acontecer em razão do grande calendário de festas pelo centenário de Antônio Carlos Gomes, lembrado a 11 de julho. A 20 de julho começou a pintura por Bruno Sercelli. 

 

 

O PINTOR DAS IGREJAS

      Mais um nome de origem italiana que muito contribuiu para a arte e cultura do Brasil, Bruno Sercelli ficou conhecido por varias obras em Igrejas no interior de São Paulo. Trabalhou, por exemplo, na Matriz de Nossa Senhora do Patrocínio, em Jaú, com o pai, Oreste (1869-1927), que foi autor da decoração interna e igualmente deixou legado importantíssimo em São Paulo. Bruno também colaborou na construção da Igreja de São José, em Mogi Mirim. Duas pinturas na Capela do Santíssimo no Carmo podem ser admiradas ainda hoje.

 

 

 

      O “Boletim Paroquial” 82, de 16 de julho de 1936, incluiu parecer do dr. Sylvino de Godoy, membro Conselho Consultivo, para que a Prefeitura fizesse passeios ao redor da Matriz, sem cobrar nada por isso. As obras tiveram início a 9 e foram encerradas dia 25 de julho. Como as eleições diretas, inclusive para vereadores, tinham sido suspensas, os Conselhos Consultivos Municipais eram nomeados pelo interventor estadual. O Conselho Municipal de 30 de outubro de 1933 a 1936 foi nomeado por Armando de Salles Oliveira. O sr.Sylvino de Godoy foi importante empresário de Campinas, sócio da Godoy & Valbert, primeira fábrica de tecido elástico da América Latina. Sob sua direção, o “Correio Popular” tornou-se o principal jornal da cidade.

 

     A 15 de agosto aconteceu a inauguração da sede da Ação Católica, na rua Regente Feijó, onde funcionava a Escola Paroquial Comendador Freire. A Ação Católica era cada vez mais influente na Igreja brasileira.

 

      No dia 27 de agosto de 1936 o bispo d.Francisco de Campos Barreto criou uma nova Paróquia de  Nossa Senhora das Dores, no Cambuí, representando novo desmembramento da Paróquia de Santa Cruz do Carmo. Os limites estavam na rua dr.Augusto César, na esquina da General Osório, avenida Júlio de Mesquita, rua Guilherme da Silva até avenida Padre Anchieta, ruas major Solon, Santa Cruz e Paula Bueno, passava pelo Liceu Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora até a Estação Pedro Américo, atingindo os rios Atibaia e Jaguari, indo ao Arraial de Sousas até a rodovia Campinas Velhas, seguindo pela Moraes Salles, Itu, Ferreira Penteado e  novamente rua Augusto César.

 

      Em outubro foi vendido o altar de madeira da capela de Santa Filomena por 400 mil réis, para a capela de José Paulino, hoje em Paulinia.

 

     A 31 de dezembro foi comemorada, com muita emoção, a inauguração da Capela do Santíssimo, além do alto falante, dos vitrais da Casa Conrado de São Paulo, e do piso de granito artificial doado por Octavio Papais. Cerimônia presidida pelo bispo diocesano. A reformulação completa da Matriz do Carmo estava cada vez mais próxima.

 

      Em janeiro de 1937 foram promovidas várias orações pelo papa Pio XI, que se encontrava doente. A 31 de janeiro foi procedida a leitura da última ata e entrega de trabalhos pela Comissão de Obras, depois de quase oito anos de atividades. Faltavam ainda revestimento externo, piso e pintura. Foi solicitada a constituição de nova comissão, para a conclusão das obras. O vigário encaminhou, na ocasião, pedido de 50 contos à Prefeitura, para a execução dos serviços finais, estimados em mais ou menos 200 contos de réis.

 

      A Páscoa foi direcionada às obras para revestimento e torres da Matriz. No final de março a Câmara Municipal, finalmente eleita diretamente, aprovou destinação de 10 contos anuais por 5 anos. Em julho teve início o levantamento das torres, aproveitando-se o que se podia das antigas. Os alicerces seriam reforçados e modificado um pouco o conjunto integral para adaptação ao estilo gótico. Enquanto isso assumia o novo coadjutor, padre Milton Santana, no lugar de padre Oscar Serra de Amaral.

 

      No dia 14 de agosto foi instalada a pirâmide de ferro na torre. Faltavam o pináculo e para-raio para terminar a torre da rua do Sacramento. A outra torre estava pronta para receber a pirâmide.

 

     No dia 10 de outubro foi promulgada uma nova Constituição por Getúlio Vargas. Na realidade Vargas liderava novo golpe, inaugurando o período chamado de Estado Novo e que se estenderia até 1945, no final da Segunda Guerra Mundial. Momento de censura a atividades políticas e à Imprensa, de perseguição de opositores e fortalecimento da legislação trabalhista e de obras de estímulo à indústria de base nacional que projetaram o nome de Getúlio Vargas no século 20.

 

      A 22 de novembro Santa Cecília foi considera padroeira da música da Mocidade Coral da Paroquia. A 11 de dezembro acontecia a descida dos andaimes, com o término do revestimento das duas torres.

 

     O ano de 1938 começou com uma grande campanha pelo ladrilhamento da Igreja, que estava orçado em 33 contos. As obras começaram a 11 de março. No dia 13 foi inaugurado o relógio.

 

     A 7 de julho acontecia a inauguração do fronstispício da matriz, com as duas torres exibindo revestimento de cimento penteado, imitando pedra e dispensando a pintura externa, além da inauguração do piso e balaustrada da capela mor de granito artificial e mármore importado.  Participaram do ato os bispos d.Barreto, de Campinas, e d.Octavio Chagas de Miranda, de Pouso Alegre.

 

     A 1o de  setembro começava o revestimento lateral da Matriz, no mesmo estilo das torres. E foi contratado o ladrilhamento de toda Igreja e dos altares laterais. No dia 24 de setembro o bispo d.Francisco Barreto visitou a Matriz reformada, junto com seu secretário, o padre Agnelo Rossi, sendo recebido pelo cônego Borja do Amaral, o coadjutor padre Milton Santana e o auxiliar, padre Francisco Schettini.

 

     1938 terminou com a nova Matriz quase concluída e com a denominação definitiva da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, depois de 68 anos com o nome de Paróquia de Santa Cruz, criada pela Lei Provincial 85 de 18 de abril de 1870.

 

     O nome do cônego Francisco Borja do Amaral ficou portanto na história como o responsável pela paróquia no momento de conclusão da nova Matriz de Nossa Senhora do Carmo, finalmente inaugurada em 1939 . Começaria novo momento na vida da paróquia, em nova hora crítica para a humanidade – a hora do início de nova e terrível guerra mundial. As obras na Matriz tiveram apoio da Câmara Municipal de Campinas, que destinou 50 contos de réis (pagos parceladamente) para a reforma, conforme lei de 1937. Em fevereiro de 1939 foi destinada a terceira parte, de 10 contos. Em março de 1939 começou o ladrilhamento das salas da Federação Mariana Feminina e das Ordens Terceiras. 

 

      As obras de reforma também tiveram grande participação da comunidade. Em agosto de 1935, o coronel José Bonifácio de Camargo faleceu, deixando em testamento o legado, após a morte da esposa, de 25 contos para a Matriz do Carmo. Em 1938 a esposa, d.Emilia, já concedeu o direito de uso pela Igreja. A paróquia recebeu o valor correspondente em abril de 1939.

 

      Durante o paroquiato do Cônego Amaral, foi inaugurada, ainda, a Escola Paroquial “Comendador Freire”, destinada a empregadas domésticas e coordenada por dona Anna Camargo. Em 1940 foi repetida a tradição, da paróquia do Carmo “fazer” bispos: o cônego Amaral foi nomeado bispo de Lorena (SP).

 

     Ainda em 1939, houve a comemoração, equivocada, do suposto bicentenário de Campinas – na realidade, se comprovaria depois que a data oficial de fundação seria 1774, e o bicentenário aconteceria em 1974. A Matriz do Carmo participou das solenidades em 1939, tendo sido a sede das cerimônias religiosas. Na oportunidade, houve a sagração, em novembro, dos despojos de Barreto Leme. O local onde eles estariam enterrados na Matriz do Carmo foi identificado com uma placa que pode ser admirada por todos.

 

 

 

 

 

© desde 25/12/2006 - Basílica Nossa Senhora do Carmo - Campinas - SP - Brasil