Basílica do Carmo:

História de fé no coração de Campinas

 

José Pedro Soares Martins

 

Campinas, Ed.Komedi, 2010

 

 

Apresentação

Introdução

Síntese Introdutória

Primeira Parte

Antecedentes da Paróquia de N.Sra.do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Freguesia

1730-1774

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

1774-1779

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz do Carmo

1779-1870

Segunda Parte

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz Sta.Cruz do Carmo

1870-1938

Fase V

Matriz e Basílica N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

1939-2000

Fase VI

Transição para o Terceiro Milênio

2000 - e o futuro...

 

PARTE I

Antecedentes da Paróquia do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Paróquia

A carteira de identidade de Campinas

Pousos de tropeiros no meio do mato grosso

Busca da autonomia e assistência espiritual

Autorização para ereção da capela

Mandado de Comissão ao Vigário de Jundiaí em vista da construção da capela

A fundação de Campinas e da Paróquia (Freguesia) de N.Sra.da Conceição

Barreto Leme, tradição de desbravamento

Frei Antonio de Pádua Teixeira, o co-fundador

Os outros pioneiros da Cidade e da Igreja

Dom Frei Manuel da Ressurreição, atuação decisiva

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

Largo do Carmo, marco zero de Campinas

Pe. José de Santa Maria Cunha

Inauguração da Matriz

Pe. André da Rocha Abreu

Pe. Manoel Joaquim de Freitas e outros Vigários

Pe. Joaquim José Gomes, a Vila de São Carlos e ideia de nova Matriz

Pe. Fasijó em sua passagem por Campinas

Igreja do Rosário, um marco no centro da cidade

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz

Pe. Manoel José Ferreira Pinto

Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, crítico da escravidão, enquanto Campinas se torna cidade

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

Pe. Dr. João de Almeida Barbosa e o começo da ascensão do café

Primeira visita de Dom Pedro II (1846) e transferência da Matriz para a Igreja do Rosário

Situação do prédio da Matriz Velha

Pe. Antonio Cândido de Mello: novo susto e peste no Paço Municipal

Pe. Joaquim José Vieira, fundador do primeiro hospital de Campinas: a Santa Casa

Polêmica antes da criação da Paróquia de Sta.Cruz

 

Parte II

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz de Sta.Cruz

Criação e instalação da Paróquia de Sta.Cruz, depois do Carmo

Auto de instalação da Nova Freguesia de Sta.Cruz na cidade de Campinas

Matriz de Sta.Cruz do Carmo na década de ouro do café e seu 1º Pároco

2º Pároco, Côn. Nery, no combate à febre amarela: um novo Bispo

Côn. Scipião, 3º Pároco. Pe. Landell de Moura, o "Pai do Rádio"

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

Pe. D'Avila, 4º Pároco de Sta.Cruz do Carmo: Campinas pós febre amarela

Diocese de Campinas, no paroquiato de Côn. Barreto, 5º Pároco do Carmo

Côn. Otávio, 6º Pároco: guerra no mundo, bibliotecas em Campinas

Mons. Ribas D'Avila, 7º Pároco, quando a gripe espanhola assusta Campinas

Côn. Fragoso, 8º Pároco: centenário da Independência e novo Bispo

Côn. Idilio, 9º Pároco: uma nova Matriz, oficialização do nome definitivo da Paróquia do Carmo

Um escultor italo-brasileiro que fez história

Côn. Amaral, 10º Pároco: conclusão da Matriz do Carmo

Lélio Coluccini, o escultor de Campinas

O pintor das igrejas

Fase V

Matriz e Basílica de N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

Côn. Aniger, 11º Pároco e o Congresso Eucarístico

Morte de Dom Barreto

Congresso Eucarístico

Côn. Raphael Roldan, 12º Pároco e o final da II Guerra Mundial

Mons. Lázaro, 13º Pároco: pintura e órgão para a Matriz

Vocação para a música

Côn. Geraldo Azevêdo, 14º Pároco: a Matriz se torna "Basílica do Carmo"

Breve papal de criação da Basílica Menor de N.Sra.do Carmo

1. O título de Basílica e o seu significado histórico

Símbolos da Basílica

2. A Igreja nas ondas do rádio e do povo

3. Campanha da Fraternidade

Celebrações

4. Transformações no Carmo

5. Outras Campanhas

6. Doença de Mons. Geraldo

7. Atuação pastoral e administração

8. Tempo de mudanças

Mais um Bispo do Carmo

9. Reestruturação para o futuro

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Mons. Geraldo

Fase VI

Basílica no Terceiro Milênio

Côn. Pedro Carlos Cipolini, 15º Pároco: o protagonismo dos leigos e a missão na cidade

1. Comunhão e participação

2. Sólida formação para servir

3. Continuidade do restauro da Basílica, agora Patrimônio Histórico

4. Incentivo à participação e acolhimento: pólo missionário

Olhar para a comunicação

Celebrações emocionantes

5. Aprofundando o planejamento

Datas importantes para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 

 

PADRE D’ÁVILA, 4o PÁROCO DE SANTA CRUZ DO CARMO

CAMPINAS PÓS-FEBRE AMARELA

 

      A 4 de janeiro de 1897 aconteceu a nomeação do padre Manuel Ribas d´Ávila como pro-pároco da Freguesia de Santa Cruz do Carmo. Ele substituiria ao falecido cônego Scipião Ferreira Goulart e ficaria no cargo até 1904. Nesse período de sete anos Campinas, como todo Brasil, vivia a atribulação da mudança de séculos, que coincidia justamente com a presença de um campineiro, Manuel Ferraz de Campos Salles, na presidência da República. E, para a Igreja, era a dura etapa de transição após a separação do Estado, que havia ocorrido logo após a Proclamação da República, a 15 de novembro de 1889. O padre d’Ávila foi, à frente da paróquia de Santa Cruz do Carmo, o pároco nessa etapa de grandes mudanças para a vida local, nacional e, em particular, para a Igreja brasileira.

 

      O padre Manuel Ribas d’Ávila assumiu a paróquia em um momento muito importante para a vida da cidade. Foi o momento em que Campinas procurava se restabelecer dos seguidos surtos de febre amarela, que abalaram em muito a posição da cidade no cenário estadual e nacional. 1897 foi exatamente o ano do último desses surtos, mas com efeitos bem menores do que os anteriores, em particular o de 1889, que quase arrasou Campinas.

 

      Quase, porque a cidade demonstrava impressionante poder de recuperação, pela força do pólo educacional e científico que começava a ser esboçado (por instituições como o Colégio Culto à Ciência, Colégio Florence e Instituto Agronômico de Campinas, criado em 1887) e, sobretudo, pela cultura do café, que ainda era muito dinâmica. O sinal mais evidente de que os cafeicultores de Campinas – que jogaram papel decisivo na proclamação da República – mantinham seu poderio foi a eleição do campineiro Manuel Ferraz de Campos Salles como segundo presidente civil do Brasil. Campos Salles foi eleito em 1897 e ficou de 1898 até 1902 na presidência.

 

      Com Campos Salles no Palácio do Catete, Campinas demonstrava, enfim, que a febre amarela não tinha derrotado a cidade. Para a vida da Igreja, um dos efeitos concretos da febre amarela foi o fortalecimento da fé em Nossa Senhora dos Remédios, a quem muitos recorreram durante os momentos mais críticos da epidemia. 

               

      E um ano depois do término da epidemia e da nomeação do padre d’Ávila foi inaugurada, a 25 de março de 1898, na Matriz de Santa Cruz do Carmo, a capela de Nossa Senhora dos Remédios, tendo como paraninfos o major Antônio Francisco de Andrade Couto e dona Maria Umbelina Alves Couto, a responsável, junto com o Cônego Nery, pela construção do Liceu Salesiano de Artes e Ofícios, idealizado para abrigar os órfãos da febre amarela. Toda a comunidade e, particularmente, os paroquianos de Santa Cruz do Carmo colaboraram com a construção da capela de Nossa Senhora dos Remédios.  Esta imagem está hoje no altar lateral da Basílica, do lado da rua Barão de Jaguara.

 

      Assim o padre Manoel Ribas d’Ávila se manifestou sobre o movimento que resultou na inauguração da capela: "A intenção dos que professavam a devoção a Nossa Senhora, sob essa referida invocação, foi a de suplicar por sua intercessão de seu Digno Filho o desaparecimento das epidemias de febre amarela, que todos os anos, desde 1889, vinham dizimar a população da cidade. O referido é verdade e dou fé”.

 

      Outras obras relacionadas à Matriz do Carmo foram concretizadas sob o paroquiato do padre d’Ávila. A 25 de março de 1899  foi inaugurada a torre do lado da rua Sacramento, erguida com esmolas dos fiéis. "Fez-se com muita solidez, em vista da umidade do terreno", descreveu o pároco. Foi edificado um alicerce com 32 metros cúbicos de pedra e estacas de peroba. Foi também reformado e ampliado o sineiro, completando-se seis sinos – só havia dois até aquele momento.

 

      Entre 1900 e 1902 foram promovidas outras reformas na Matriz. Em 1900 a capela do Santíssimo recebeu melhoramentos, com assoalho e novo altar, encarnando-se novamente as imagens do Bom Jesus e Senhor Morto. A capela recebeu novas paredes. O trabalho foi intenso pelas zeladorias do Coração de Jesus.  Foi também montado o escritório paroquial junto à torre da rua Sacramento. 

 

      Em 1901 foi deflagrada a reforma da igreja no lado da rua Barão de Jaguara. A porta da capela de Nossa Senhora dos Remédios foi ampliada e a antiga escada foi substituída por uma no estilo caracol. As reformas foram concluídas a 19 de julho de 1902, na festa da padroeira. Um altar  com imagem de São Vicente de Paulo foi reformado por confrades da Sociedade São Vicente de Paulo.

 

      Reformas físicas na Matriz, reformas na estrutura eclesiástica, por causa da separação entre Igreja e Estado por decisão, logo após a proclamação da República, do governo provisório, pelo decreto 119-a de 1890. A 12 de agosto de 1904 a Paróquia de Santa Cruz – assim como toda Igreja – foi então notificada do “Regulamento sobre fábricas e patrimônios das Igrejas do bispado de São Paulo”, estipulando, entre outros itens, que seria vetada a venda de terras ou prédios ou títulos de renda para a construção ou reparação  de igrejas ou aquisição de alfaias.

 

      Em função da ligação histórica entre Igreja e Estado durante todo o período colonial e monárquico, a separação com certeza provocou muitos traumas na estrutura eclesial. E as paróquias de Campinas não deixaram de sofrer esses reflexos. Assim como seriam inevitáveis os reflexos do crescimento populacional e do aparecimento e fortalecimento de novos núcleos urbanos, decorrentes da migração européia estimulada pelos governos republicanos, entre outros fatores. A região de Campinas, que atraiu muitos italianos e europeus de outras nacionalidades, sentiu os efeitos diretos desse processo.

 

      As duas paróquias de Campinas, de Nossa Senhora da Conceição e, sobretudo, a de Santa Cruz do Carmo, sofreram consecutivas divisões, em função da criação de novas paróquias, ao sabor dos novos movimentos demográficos e urbanos. A 7 de julho de 1898 foi criada a paróquia de Nossa Senhora do Bom Conselho do Arraial de Sousas.

 

     A 28 de julho de 1900 a capela de Santo Antônio da Vila de Americana, originalmente ligada à paróquia de Santa Cruz do Carmo, foi transformada em paróquia, com território portanto desmembrado. A 19 de fevereiro de 1902 o bispo de São Paulo, d.Antonio Cândido de Alvarenga, comunica a criação da paróquia de Santa Maria de Jaguary (depois Jaguariúna), antes capela  parte da paróquia de Santo Antônio de Posse e parte da paróquia de Santa Cruz de Campinas.

 

      Por outro lado, d.Alvarenga comunica, a 22 de janeiro de 1903, o desmembramento do distrito de paz da Vila de Cosmópolis da paróquia de Mogy Mirim. O distrito de Cosmópolis foi então incorporado à paróquia de Santa Cruz de Campinas.

 

     Outras decisões importantes nos primeiros anos do século 20, relacionadas à Matriz de Santa Cruz. A 19 de outubro de 1901 houve a benção do cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento. A 26 de junho de 1902 foi colocada a primeira pedra da capela do cemitério do Santíssimo Sacramento. Depois, o bispo d.Alvarenga deu autorização para o vigário de Santa Cruz abençoar o cemitério de Rebouças (depois Sumaré), a 18 de janeiro de 1903. A 18 de setembro de 1903 foi inaugurada a capela de São Bento no bairro São Bento, núcleo original da futura cidade de Paulinia. A 26 de abril de 1904 assumiu o bispado de São Paulo d.José de Camargo Barros, que fora bispo de Curitiba.

 

      O período do padre Manoel Ribas d’Ávila à frente da paróquia de Santa Cruz foi coroado com a benção, a 6 de novembro de 1904, da imagem de Nossa Senhora do Carmo vinda de Barcelona, Espanha, custeada por alguns paroquianos. Foi entregue um conto e 661 mil réis ao padre Euzebio Sacristan, superior dos missionários do Imaculado Coração de Maria, capelães da Igreja do Rosário, por cujo intermédio foi transportada a imagem "de uma perfeição artística admirável", na descrição do padre d´Ávila. Esta imagem se encontra hoje no altar-mor da Basílica do Carmo. A 2 de dezembro de 1904 houve a benção do estandarte Coração de Jesus do Apostolado da Oração.

 

      Foi praticamente o último ato do padre d’Ávila na paróquia. A 18 de dezembro de 1904 o padre Francisco de Campos Barreto assumiu a direção da paróquia de Santa Cruz do Carmo, enquanto o padre Ribas d´Ávila foi nomeado diretor do importante Colégio Diocesano em São Paulo. A paróquia do Carmo mantinha a tradição de “nomear” bispos ou ex-vigários para outros importantes cargos na estrutura da Igreja. Com o padre Barreto – ele mesmo, depois também bispo – seria iniciado outro importante ciclo para a vida da Igreja local e em particular para a Matriz de Santa Cruz do Carmo.

 

 

 

DIOCESE DE CAMPINAS, NO PAROQUIATO

DE CÔNEGO BARRETO, 5o PÁROCO DO CARMO

 

      O período em que o padre Francisco de Campos Barreto esteve à frente da paróquia de Santa Cruz do Carmo, entre 1904 e 1911, foi de intensas mudanças na vida e na estrutura da Igreja Católica no Brasil. No momento em que a Igreja ainda se adaptava à nova realidade política, com o fortalecimento – e as incertezas – da República, a estrutura eclesiástica assumiu novo perfil. O principal reflexo para Campinas foi a criação da diocese,  em 1908, tendo à frente o antigo pároco de Santa Cruz do Carmo, d.João Batista Correa Nery. Foram anos de dinamismo, marcados pela ofensiva da Igreja para manter e ampliar a sua presença na sociedade.

 

      Um dos caminhos trilhados nesse sentido foi a maior participação da comunidade católica no mundo dos meios de comunicação, que começavam a ter cada vez mais grande protagonismo – as invenções do rádio, do cinema, do telégrafo já indicavam um rumo. A imprensa escrita foi o espaço escolhido como prioritário pela Igreja no Brasil, e Campinas do começo do século 20 era um local privilegiado nesse sentido – a cidade chegou a ter quatro jornais diários na época! A Igreja local também procurou agir com mais ênfase nessa área.  

 

      No dias que se seguiram à posse do padre Barreto na paróquia de Santa Cruz, a 18 de dezembro de 1904, teve início a publicação do “Mensageiro Parochial”. No dia 2 de fevereiro de 1905 foi criada em Campinas, por determinação do bispo diocesano, a representação local da Liga da Boa Imprensa. A primeira diretoria foi integrada por dr.João de Assis Lopes Martins (presidente), Luiz José Pereira de Queiroz (vice), dr. Antônio Rodrigues de Melo (secretário), dr. Octavio Marcondes (tesoureiro) e Benedito Octavio (2o secretários), tendo como assistente eclesiástico o padre Francisco de Campos Barreto, fundador da Liga. A Liga, que já começou a atuar com expressivo número de associados, tinha como objetivo apoiar e sustentar a publicação do “Diário Católico”, que circulava em São Paulo e em todo país.

 

      Outras iniciativas relevantes, para ampliar a participação da Igreja na sociedade local, tiveram o dedo do padre Barreto. A 2 de fevereiro de 1905 o pároco fundou, com autorização do bispo, a Associação das Mães Cristãs, "Grande número de senhoras da melhor sociedade correram para dar seus nomes a nova agremiação, que pelo fim nobre e elevado esteia-se na classe superior da cidade", descreveu o padre Barreto no Livro Tombo da paróquia.

 

      A Associação das Mães Cristãs promoveria reuniões, participaria de missas e orações "como meio para conseguir a disseminação da fé no meio das famílias", revelou o padre Barreto. Vinculada à Arquiconfraria de Paris, sob título de Nossa Senhora do Carmo, e tendo como principal padroeira Santa Mônica, a Associação teve a sua primeira diretoria assim composta: Alda de Camargo Nogueira (presidente),  Amélia de Rezende Martins (1a vice), Izaura de Queiroz Barros (2a vice), Maria Alves de Couto Barros (tesoureira), uma secretária e 12 conselheiras. O padre Francisco de Campos Barreto era diretor. A 2 de fevereiro de 1906 a imagem de Santa Mônica recebeu a benção. Esta imagem fica hoje no altar a entrada da Capela do Santíssimo.

 

      Outra iniciativa na mesma linha foi a criação da União de Santo Agostinho, instalada a 14 de janeiro de 1906, com o propósito de trabalhar "em bem dos homens", segundo o padre Barreto. A primeira diretoria foi integrada por Antônio Rodrigues de Mello (presidente), Manoel Saturnino de Seixas (vice), Lourival de Queiroz (1o secretário), Paulo Freire (2o secretário), José Estanislau Barboza (tesoureiro), Luiz de França Júnior e Manoel C de Toledo Leite (consultores). A União já começou com 20 sócios  ativos e 10 assistentes, na missão de "animar os homens para a prática religiosa e promover conferencias para ilustração dos mesmos", na descrição do padre Barreto, que deu todo apoio e acompanhamento. O público infantil e juvenil também recebeu a atenção do novo pároco. Em junho de 1907 foi fundada a Liga do Menino Jesus, visando promover a comunhão mensal entre meninos e moças.

 

      Ao mesmo tempo, o pároco promovia várias melhorias na Matriz de Santa Cruz do Carmo. Em abril de 1906 chegou da Europa o harmônio adquirido como presente de d. Anna Ferreira Novaes. Em 1907 foi adquirido, com apoio de amigos da Matriz, o órgão que pertencia ao Seminário Episcopal.

 

      Obras importantes foram iniciadas no final de 1906, com demolição da antiga torre única e construção de duas novas torres de fronstispício – inauguradas em agosto de 1907.  Obras financiadas com ofertas dos paroquianos.  Um passo a mais em direção à modernidade foi dado com a inauguração, em março de 1908, da luz elétrica, também viabilizada com esmolas de paroquianos.   

 

     No dia 13 de setembro de 1907 a Sociedade São Vicente de Paulo inaugurou na rua Sales de Oliveira uma Vila Vicentina, com 48 pequenas casas, voltada a abrigar viúvas pobres e os filhos. (In PAULA, CARLOS F.DE, “Assistência Pública”, in Monografia Histórica do Município de Campinas, IBGE, Rio de Janeiro, 1952, p.486).

 

       Em pouco tempo houve grandes mudanças na hierarquia e estrutura da Igreja paulista. A 13 de maio de 1907 d.Duarte Leopoldo tornou-se bispo de São Paulo. Ao mesmo tempo, d.João Baptista Correa Nery tornava-se bispo de Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais. Mudanças também na Matriz do Carmo. Em novembro de 1907 o padre Francisco de Mello e Souza foi substituído como coadjutor, pelo padre Manoel Meirelles Freire. Logo seria substituído, por sua vez, pelo padre José Francisco Monteiro.

 

      A grande modificação viria com a criação de novas dioceses no Estado de São Paulo, a de Campinas entre elas.  A instalação e inauguração oficial do bispado foi a 18 de outubro de 1908, com documentos lidos por monsenhor Barreto, que muito trabalhara no esforço para a criação da Diocese de Campinas. A 1o de novembro de 1908 aconteceu  a procissão de posse de d.João Baptista Corrêa Nery, primeiro bispo de Campinas. A procissão começou na Matriz de Santa Cruz do Carmo (onde durante anos d.Nery tinha servido como pároco) rumo à Matriz Nova (Conceição), agora Catedral.

 

      A criação da diocese de Campinas era um reconhecimento à importância da cidade no cenário paulista, e também à Igreja local, com base no trabalho pioneiro das paróquias de Nossa Senhora da Conceição e de Santa Cruz do Carmo.

 

     Foi com grande emoção que d.Nery fez sua primeira visita pastoral à  paróquia de Nossa Senhora do Carmo de Campinas, a 7 de março de 1909. "Consolou-nos esta visita à velha e saudosa matriz porque encontramos tudo em perfeita ordem", descreveu d.Nery.

 

      O relato do bispo é um retrato fiel de como era, nos primeiros anos do século 20, a Matriz que tinha sido a primeira Igreja de Campinas:  "O sacrário é forrado de seda branca, tem um belo canopéo e atesta com muita eloquência o amor dos fiéis a Nosso Senhor Sacramentado.(...) A pia é de mármore, bem trabalhada, tem o reservatório para que a água se conserve sempre pura.Há o quadro representando o batismo de Jesus Cristo. Tudo está em capela própria, bem decorada, e fechada a chave. Os altares e confessionários estão bem conservados. Há paramentos suficientes para o serviço do culto e vasos sagrados em abundância. A Matriz está caprichosamente conservada e possui já uma bela fachada. Quando as circunstâncias permitirem que se levante o corpo da Matriz, de modo a uni-lo simetricamente à fachada e à capela-mor, rasgando em seu interior novas tribunas e novos cômodos laterais, aumentar-se-á sensivelmente sua capacidade e ficará uma obra bem acabada".

 

     Entre as Disposições gerais, determinadas após a visita pastoral, d.Nery indicou: “Aos fiéis que assistirem as instruções religiosas feita aos domingos e dias santos, concedemos 500 dias de indulgências de acordo com a faculdade que a 5 de maio de 1908 foi ad quinquenium concedida aos bispos do sul do Brasil”. Também sublinhava que “as missas paroquiais serão precedidas da recitação com o povo dos atos de Fé, Esperança e de Caridade e as bençãos do Santíssimo aos domingos e dias santos da oração ‘Deus e senhor nosso’, prescrita pela Pastoral Coletiva de 12 de novembro de 1907”.

 

      Um dos mais importantes acontecimentos no período de monsenhor Barreto à frente da Matriz foi a extinção, por ato de d.Nery, da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Paróquia de Santa Cruz do Carmo, sendo estruturada em seu lugar a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo. A decisão do bispo, respeitando a decisão da Assembléia da Irmandade do Santíssimo Sacramento, foi a 9 de julho de 1909, com a observação: “(A Ordem Terceira de N S do Carmo) Só poderá começar a lucrar as indulgências, Graças e favores espirituais que lhe são anexos, depois que receber a carta de agregação do Superior respectivo dos Carmelitas". A Ordem Terceira começou logo a funcionar, com elevado número de irmãos associados.

 

      No primeiro semestre de 1909 a paróquia tinha novo coadjutor. No lugar de  padre José Francisco Monteiro, foi nomeado o padre francês Roger Ambrosini, da Córsega. Em maio de 1909 circulou o último número do “Mensageiro Paroquial”, substituído em junho pelo “Mensageiro”, que seria um órgão geral de comunicação das associações e do bispado.

 

      Novas reformas e melhorias em 1909. Com os dois contos de réis da venda de terreno doado pela esposa do sr Elisiário Ferreira, foram investidos 568 mil réis em pintura e retoques na Igreja, 489 mil na aquisição de paramentos, 170 mil na ampliação da linha de eletricidade, 95 mil em dois missais, 70 mil em véu, 290 mil em púlpito, 325 mil em novos bancos.

 

     O Movimento Geral da Paróquia, em 1909, indicou que a União de Santo Agostinho somava 280 sócios, a Associação de Mães Cristãs com 20 conselheiras e 708 associadas, o Apostolado da Oração com 41 zeladoras e 3200 associadas, a Liga do Menino Jesus com 50 zeladoras e 840 associados, e a Ordem Terceira do Carmo com 56 irmãos. A Rouparia Santa Isabel, mantida pela Matriz, tinha 10 zeladoras, com distribuição de 1048 peças a pessoas carentes durante o ano. Foram contabilizadas 58 mil comunhões e mais de 700 primeiras comunhões, na Matriz do Carmo, capela da Santa Casa de Misericórdia, Igreja do Rosário, Liceu Salesiano e Colégio do Sagrado Coração.

 

       Ainda em 1909 a Matriz teve o seu órgão reparado por um artista de Itu. No mesmo ano, foi abençoada a coroa de ouro, para a imagem do Menino Jesus de Praga, doada pela senhora de Moraes Teixeira. A imagem havia sido doada à Liga do Menino Jesus pela mesma paroquiana. Esta imagem esta hoje no batistério da Basílica do Carmo.

 

      Em maio de 1911 o monsenhor Francisco de Campos Barreto recebeu a notícia, pelo próprio d.Nery, de sua nomeação como bispo de Pelotas, no Rio Grande do Sul. D.Barreto era o segundo bispo que havia sido titular da paróquia de Santa Cruz do Carmo. O monsenhor permaneceu na paróquia até a festa da padroeira, a 16 de julho de 1911, quando entregou o cargo ao sucessor, cônego Otavio Chagas de Miranda. A paróquia do Carmo iniciava a tradição de gerar bispos, ratificando a sua importância no cenário da Igreja de São Paulo, do Brasil e do mundo. A sagração episcopal de d. Francisco de Campos Barreto foi a 27 de agosto de 1911, na Catedral de Campinas.

 

       Já nesta época Nossa Senhora do Carmo era festejada como padroeira da paróquia que aos poucos foi deixando de ser mencionada como Paróquia de Santa Cruz.

 

 

 

CÔNEGO OTÁVIO, 6o PÁROCO:  

GUERRA NO MUNDO, BIBLIOTECAS EM CAMPINAS

 

       Um momento sombrio na história da humanidade, mas novos exemplos do poder criador de Campinas, a partir da Igreja do Carmo. O período em que o cônego Otávio Chagas de Miranda esteve à frente da Matriz do Carmo, entre 1911 e 1916, coincidiu com as fases preliminares e com o início da Primeira Guerra Mundial, um dos momentos mais tristes da história do planeta Terra e da comunidade humana. Tempo de terror, de desespero, de morte. Por outro lado, exatamente em função de iniciativas na paróquia do Carmo, esperanças foram renovadas em Campinas, como uma cidade vibrante, dinâmica e com vocação para a educação e a fraternidade.

 

      O ano de 1912 começou com um apelo do vigário, publicado a 13 de janeiro no “Mensageiro Parochial”, no sentido de que a comunidade se mobilizasse por melhorias e reparos na Matriz. Em março o cônego Miranda promoveu a reabertura para o culto da capela de Santa Cruz, na praça 15 de novembro (Largo de Santa Cruz), com missas dominicais. A Escola Paroquial foi revitalizada.

 

     Em 20 de abril o vigário e a União de Santo Agostinho discutiram a Liga Eleitoral Católica. Houve aprovação e adesão dos membros da União. Várias ações seriam feitas em 1912 no sentido de fortalecer a Liga em Campinas, culminando com sua reorganização e eleição de nova diretoria, a 19 de janeiro de 1913.

 

      Em maio de 1912 um acontecimento importante. A Associação de Mães Cristãs realizou uma expressiva festa anual dos presos, então realizada tradicionalmente naquele mês. Um grupo de 34 presos recebeu a primeira comunhão. 

 

     Durante a festa amadureceu a idéia, sustentada pelo cônego Miranda, de criação de uma biblioteca na cadeia pública, visando oferecer maiores possibilidades educacionais e culturais aos detentos.  A biblioteca foi montada no segundo semestre de 1912. Na mesma época, o vigário montou uma biblioteca paroquial na Matriz, com grande aceitação popular. Outra iniciativa cultural foi a criação, a 2 de junho, do Canto Coral de Santa Cecília, com o apoio de d. Branca Meirelles.

 

      A 15 de setembro de 1912 a paróquia tinha novo coadjutor, o cônego dr.Antonio Morato. Logo foi substituído, a 11 de novembro, pelo padre Augusto de Campos Pinto. A 19 de setembro houve conferência para moças.

 

      O ano de 1913 começou com a nomeação, a 9 de fevereiro, de um novo coadjutor efetivo, padre Atalliba de Mello. A 11 de abril de 1913 um dia triste para a paróquia do Carmo, com o roubo – por  "sacrílegos ladrões", na definição do cônego Miranda – de 500 mil réis que tinham sido arrecadados em donativos para a Capela de Nossa Senhora dos Remédios. A gaveta da mesa do vigário foi arrombada. Notícia positiva foi a inauguração, a 7 de setembro, na mesma capela, do harmônio.

 

       Uma comovente primeira comunhão de 40 crianças, na capela de Santa Cruz, foi realizada a 14 de setembro. A Escola tinha na época, nas seções masculina e feminina, 45 alunos cada. Uma primeira comunhão também foi realizada na Fazenda Recreio e na Escola do Bonfim.

 

      No ano de 1914 teve início a Primeira Guerra Mundial, e começou com novo coadjutor, nomeado a 20 de fevereiro, o cônego Carlos Cerqueira. Uma primeira comunhão foi promovida na Fazenda Bom Retiro, de Ataliba de Camargo Andrade.

 

      Em agosto de 1914 começava a Primeira Guerra Mundial, com confrontos localizados em várias partes do mundo, que se seguiram ao assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono Austro-Húngaro, a 28 de junho, em Sarajevo. Seriam quatro anos, com mais de 15 milhões de mortes entre civis e militares. A Batalha do Somme, de 1o de julho a 18 de novembro de 1916 e na qual morreram 1 milhão de pessoas, foi um dos eventos mais tenebrosos da trajetória humana.

 

      A Igreja Católica, em especial, viveu momentos de muita tristeza. Além da Grande Guerra, sentiu o falecimento, a 20 de agosto de 1914, do papa Pio X, o “Papa da Eucaristia” e o papa que havia criado a Diocese de Campinas.  A 31 de setembro foi nomeado pelo colégio de cardeais o papa Bento XV.

 

     Em meio desse cenário triste, um momento de paz na paróquia de Nossa Senhora do Carmo com a benção, a 13 de setembro de 1914, da imagem de Santa Filomena, que havia sido doada por Francisca de Camargo Andrade. Mas Campinas teria outra notícia triste no triste 1914. A 26 de dezembro falecia o empresário e filantropo Bento Quirino dos Santos, que deixou em testamento 20 contos de réis para a Matriz do Carmo, em ações da Companhia Mogiana.

 

     O legado de Bento Quirino dos Santos também foi fundamental para materializar as idéias da Sociedade Feminina de Assistência à Infância, criada a 2 de fevereiro de 1914 pelo bispo d.Nery. A idéia era acolher os filhos das mulheres de baixa renda que mais e mais tinham que  trabalhar fora de casa.

 

     A 2 de fevereiro de 1916 a creche começou a funcionar em prédio próprio, à rua Cônego Scipião. Depois a creche foi batizada de Bento Quirino, em homenagem a seu grande benemérito – mesmo nome de um colégio criado em 1910.A direção interna ficou sob a responsabilidade da congregação Irmãs Franciscanas do Coração de Maria, que deixariam a função em 1983, por causa de mudanças na esfera eclesiástica.

 

      Relatório da Sociedade Feminina de Assistência à Infância, de 1917, foi publicado a 2 de fevereiro de 1918 em “O Mensageiro – Orgam das associações catholicas da diocese de Campinas”, jornal que tinha como redatores  Benedicto Octavio e João Ribas D´Avila.

 

      O relatório indicava a proposta para a criação da Gotta de Leite, “obra que luta contra a mortalidade infantil dando conselhos às mães e vulgarizando a higiene da primeira idade, estimulando o aleitamento materno e distribuindo leite garantido e esterilizado, quando falta o seio maternal”. A Gota de Leite seria um sucesso posteriormente.

 

     Tempo de mudanças no mundo, na hierarquia da Igreja e também na paróquia do Carmo. Em 11 de outubro de 1914 foi instalada a paróquia  de Sant’Anna, em Rebouças (depois Sumaré). A nova paróquia foi criada com o desmembramento da paróquia de Santa Cruz do Carmo. Novo desmembramento aconteceria a 26 de setembro de 1915, com a instalação da paróquia de Santa Gertrudes de Cosmópolis.  

  

       O ano de 1915 começou e se desenrolou com as incertezas geradas pela Grande Guerra, mas com muitas orações na Matriz do Carmo, outras Igrejas de Campinas e do mundo. A 14 de fevereiro houve a benção da imagem de Santa Tereza, doada por irmãos terceiros do Carmo. Esta imagem se encontra no altar-mor da Basílica do Carmo. A 11 de julho o cônego Miranda expressou, na missa das 7 e meia, o seu desejo de construção de uma capela para Santa Filomena, o que depois se concretizaria.

 

      O ano de 1916 foi inaugurado com a confirmação de uma tradição. A 13 de fevereiro foi noticiada a nomeação do cônego Octavio Chagas de Miranda como bispo de Pouso Alegre (MG). Era o quarto titular da paróquia de Santa Cruz do Carmo nomeado bispo. Ele permaneceu na paróquia até 31 de maio de 1916, sendo substituído no dia seguinte pelo monsenhor Manoel Ribas d´Ávila, que voltava à paróquia que dirigira entre 1897 e 1904.

 

      Ainda a 27 de fevereiro de 1916, tinha sido inaugurada, em território da Paróquia de Santa Cruz do Carmo, a Maternidade de Campinas, fruto de grande mobilização comunitária, liderada pelos médicos Tomás Alves e José Barbosa de Barros. Novo sinal da vocação de Campinas para a fraternidade, com grande papel da Paróquia do Carmo.

 

 

 

MONSENHOR  RIBAS D’AVILA, 7o PÁROCO,

QUANDO GRIPE ESPANHOLA ASSUSTA CAMPINAS

 

      A nova passagem do agora monsenhor Manoel Ribas d’Ávila pela paróquia de Santa Cruz do Carmo foi curta, durou menos de três anos, mas foi um período intenso. Campinas viveu um novo trauma, com os reflexos da epidemia da Gripe Espanhola que assustou o mundo após o fim da Primeira Guerra Mundial, deixando suas marcas na cidade que já havia sofrido tanto com a febre amarela no final do século 19.

 

     Entre 1918 e 19 a Gripe Espanhola mataria 20 milhões de pessoas no planeta, 300 mil só no Brasil. O planeta ainda respirava os ares tenebrosos da Primeira Guerra Mundial, as condições sanitárias eram propícias à proliferação de uma grande epidemia.

 

     Todas as grandes cidades brasileiras foram afetadas. Em outubro de 1918, morreram 8 mil pessoas em apenas quatro dias, no auge da epidemia em São Paulo. No Rio de Janeiro a gripe gerou ao menos 14 mil mortos, em universo de cerca de 60% da população que foram atingidos.

 

     Em Campinas as condições sanitárias que haviam possibilitado a febre amarela melhoraram com as medidas profiláticas do final do século 19 e início do século 20. Mas os cortiços no centro continuavam sendo convite às doenças tropicais.

 

    A Paróquia de Santa Cruz do Carmo se mobilizou, como toda Igreja local, no atendimento às vítimas da Gripe Espanhola. Santa Casa de Misericórdia, Sociedade Beneficência Portuguesa, Círculo Italiano,  Sociedade Amiga dos Pobres, Asilo dos Inválidos, a Sociedade Dançante Familiar União da Juventude, entre outras instituições, muitas delas situadas no território da Paróquia de Santa Cruz, acolheram os flagelados.

 

      Entre outubro de 1918 e início de 1919 a gripe espanhola atingiu grandes proporções em Campinas e em todo País. Na cidade foram registrados, oficialmente, 6.872 casos de vítimas, com com 204 mortes. O número total de vitimados representava 6% da população – mesma proporção de mortes por febre amarela no final do século 19.

 

       No início de 1919, igualmente por motivo de saúde, o monsenhor d’Ávila pediu afastamento do cargo. O coadjutor, desde 10 de março de 1918, era padre Vicente Rizzo. A 31 de janeiro era publicada a portaria indicando que o cônego Samuel de Oliveira Fragoso assumiria o lugar do monsenhor d’Ávila como pároco titular.

 

      Depois de dois períodos à frente da Paróquia, somando 10 anos ao todo, o monsenhor d’Ávila deixou muitos amigos e o carinho dos fiéis. Sob sua administração, a 18 de junho de 1918 foi provisionada por um ano a capela de Senhor Bom Jesus do bairro do Matão, depois pertencente ao território de Sumaré.

 

      Foi mais uma luz de esperança, acesa nos estertores da Primeira Guerra Mundial, encerrada com o armistício assinado a 11 de novembro de 1918. A humanidade tinha conhecido os horrores dos bombardeios com tanques e do uso intensivo do gás como arma de guerra. Mas a pequena capela do Senhor Bom Jesus representava a fé eterna em um mundo melhor. 

 

 

 

CÔNEGO FRAGOSO - 8o PÁROCO:

CENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA E NOVO BISPO

 

      O cônego Samuel de Oliveira Fragoso dedicou-se a várias melhorias na Matriz de Santa Cruz do Carmo, no período em que esteve à frente da paróquia, de 1919 a 1924. Época de novos acontecimentos importantes para a vida brasileira, como a lembrança do centenário da Independência, lembrada em grande estilo em 1922.

 

     Após vários contatos feitos pelo cônego no ano anterior, 1920 já começou com a inauguração da iluminação das duas torres da matriz por conta da Companhia Campineira de Iluminação e Força S.A, que atendia a pedido do  vigário.

 

      Logo em seguida a Igreja campineira, e sobretudo a paróquia de Santa Cruz do Carmo, que ele dirigira, ficou muito entristecida com a morte de d. João Batista Corrêa Nery, a 1o de fevereiro de 1920. Ele foi sepultado no dia seguinte, sob grande comoção popular, na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, ao sopé do belo presbitério.

 

     O novo bispo de Campinas, empossado a 14 de novembro de 1920, seria outro ex-titular da Paróquia de Santa Cruz do Carmo, d. Francisco de Campos Barreto. Sua atuação à frente da Diocese de Campinas seria marcante, com várias realizações.   

 

      A paróquia do Carmo já tinha novo coadjutor, nomeado em junho de 1920, o padre Francisco Bartholomeu. Depois foi nomeado o padre Luiz Pereira. No início de 1920 também tinha sido criada a Congregação dos Marianos para moços.

 

     As melhorias na Matriz, após a inauguração da iluminação das torres, foram sistemáticas.  A 30 de janeiro houve a inauguração da capela de Nossa Senhora do Bom Conselho, à frente da Capela do Santíssimo. Em agosto foi inaugurado o novo altar da capela de Santa Filomena, com apoio de dona Miriam Monteiro. A separação das capelas de São Vicente e Santa Filomena aconteceu a 11 de agosto.

 

      Outro melhoramento importante em 1920 foi a abertura da Biblioteca das Filhas de Maria. Foram adquiridos ainda 18 bancos para a capela de Nossa Senhora dos Remédios, 10 bancos para a capela de São Vicente, 4 bancos para a capela de Nossa Senhora do Bom Conselho, instalação de porta comunicando a sacristia e a capela do Santíssimo, e mais um sinal da modernidade: implantação de aparelho telefônico no escritório paroquial.

 

      O ano de 1921 também foi repleto de melhorias. A 11 de fevereiro foram concluídas as reformas do pavimento, com a substituição de assoalho por mosaicos. A 1o de maio assumiu novo coadjutor, padre B F de Mello, no lugar  de padre Luiz Pereira, que viajara para Portugal. Em julho assumiu padre José Murillo. Entre 1o e 16 de outubro foi promovida uma Santa Missão por missionários redentoristas.

 

      Novas e importantes obras em 1922. O altar de mármore da capela do Santíssimo foi inaugurado a 26 de março, tendo custado 9 contos de réis. O antigo altar de madeira foi vendido para a capela de Nossa Senhora Aparecida do bairro dos Amarais, por 1 conto e 500 mil réis. Do mesmo modo, o antigo órgão foi vendido para a paróquia de Piracicaba, por 2 contos, utilizados na reforma da capela do Santíssimo.

 

      Também em 1922 houve a reforma do telhado. A 24 de junho foram alteradas as divisas com o distrito de paz de Rebouças (depois Sumaré).

 

     A 7 de setembro de 1922, no centenário da Independência, uma missa campal no Largo Correia de Mello, às 8 horas, atraiu mais de 10 mil pessoas. Foi celebrada por d.Barreto, com apoio dos vigários João Loschi (da Catedral de Nossa Senhora da Conceição) e Samuel Fragoso (Matriz de Santa Cruz). O cruzeiro de Santa Cruz foi transportado até o local. O Santíssimo foi adorado durante todo o dia. No dia 10 de setembro houve a celebração do Te Deum no Largo da Catedral.

 

      No mesmo ano de 1922 Álvaro Xavier doou terreno para a construção de capela na Vila Bonfim. A primeira pedra da capela seria instalada a 4 de marco de 1923.  A inauguração da capela do Senhor Bom Jesus do Bonfim foi a 2 de dezembro de 1923.

 

      O ano de 1923 começou com a nomeação, a 31 de janeiro, do padre José Murillo como vigário em Rebouças. Foi então nomeado o coadjutor Oscar de Oliveira, no cargo até 6 de novembro.  Em 1923 a Irmandade do Carmo promoveu a instalação de 8 bancos na capela mor da Matriz.

 

      Campinas crescendo, novo desmembramento da paróquia de Santa Cruz. A 7 de março de 1924 o bispo d.Barreto cria a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus de Campinas, funcionando provisoriamente na Igreja do Bom Jesus e abrangendo os bairros dos Amarais, distrito de Rebouças e Vila Americana.

 

      O cônego Samuel de Oliveira Fragoso deixou a paróquia a 17 de setembro de 1924. A posse do novo titular, cônego Idílio Soares, foi a 12 de outubro. Começava um novo e decisivo período para a vida da Paróquia de Santa Cruz do Carmo. Foi o momento da remodelação completa na estrutura da Igreja, coincidindo com um dos períodos mais críticos da vida brasileira na primeira metade do século 20.

 

 

 

 

 

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