Basílica do Carmo:

História de fé no coração de Campinas

 

José Pedro Soares Martins

 

Campinas, Ed.Komedi, 2010

 

 

Apresentação

Introdução

Síntese Introdutória

Primeira Parte

Antecedentes da Paróquia de N.Sra.do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Freguesia

1730-1774

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

1774-1779

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz do Carmo

1779-1870

Segunda Parte

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz Sta.Cruz do Carmo

1870-1938

Fase V

Matriz e Basílica N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

1939-2000

Fase VI

Transição para o Terceiro Milênio

2000 - e o futuro...

 

PARTE I

Antecedentes da Paróquia do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Paróquia

A carteira de identidade de Campinas

Pousos de tropeiros no meio do mato grosso

Busca da autonomia e assistência espiritual

Autorização para ereção da capela

Mandado de Comissão ao Vigário de Jundiaí em vista da construção da capela

A fundação de Campinas e da Paróquia (Freguesia) de N.Sra.da Conceição

Barreto Leme, tradição de desbravamento

Frei Antonio de Pádua Teixeira, o co-fundador

Os outros pioneiros da Cidade e da Igreja

Dom Frei Manuel da Ressurreição, atuação decisiva

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

Largo do Carmo, marco zero de Campinas

Pe. José de Santa Maria Cunha

Inauguração da Matriz

Pe. André da Rocha Abreu

Pe. Manoel Joaquim de Freitas e outros Vigários

Pe. Joaquim José Gomes, a Vila de São Carlos e ideia de nova Matriz

Pe. Fasijó em sua passagem por Campinas

Igreja do Rosário, um marco no centro da cidade

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz

Pe. Manoel José Ferreira Pinto

Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, crítico da escravidão, enquanto Campinas se torna cidade

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

Pe. Dr. João de Almeida Barbosa e o começo da ascensão do café

Primeira visita de Dom Pedro II (1846) e transferência da Matriz para a Igreja do Rosário

Situação do prédio da Matriz Velha

Pe. Antonio Cândido de Mello: novo susto e peste no Paço Municipal

Pe. Joaquim José Vieira, fundador do primeiro hospital de Campinas: a Santa Casa

Polêmica antes da criação da Paróquia de Sta.Cruz

 

Parte II

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz de Sta.Cruz

Criação e instalação da Paróquia de Sta.Cruz, depois do Carmo

Auto de instalação da Nova Freguesia de Sta.Cruz na cidade de Campinas

Matriz de Sta.Cruz do Carmo na década de ouro do café e seu 1º Pároco

2º Pároco, Côn. Nery, no combate à febre amarela: um novo Bispo

Côn. Scipião, 3º Pároco. Pe. Landell de Moura, o "Pai do Rádio"

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

Pe. D'Avila, 4º Pároco de Sta.Cruz do Carmo: Campinas pós febre amarela

Diocese de Campinas, no paroquiato de Côn. Barreto, 5º Pároco do Carmo

Côn. Otávio, 6º Pároco: guerra no mundo, bibliotecas em Campinas

Mons. Ribas D'Avila, 7º Pároco, quando a gripe espanhola assusta Campinas

Côn. Fragoso, 8º Pároco: centenário da Independência e novo Bispo

Côn. Idilio, 9º Pároco: uma nova Matriz, oficialização do nome definitivo da Paróquia do Carmo

Um escultor italo-brasileiro que fez história

Côn. Amaral, 10º Pároco: conclusão da Matriz do Carmo

Lélio Coluccini, o escultor de Campinas

O pintor das igrejas

Fase V

Matriz e Basílica de N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

Côn. Aniger, 11º Pároco e o Congresso Eucarístico

Morte de Dom Barreto

Congresso Eucarístico

Côn. Raphael Roldan, 12º Pároco e o final da II Guerra Mundial

Mons. Lázaro, 13º Pároco: pintura e órgão para a Matriz

Vocação para a música

Côn. Geraldo Azevêdo, 14º Pároco: a Matriz se torna "Basílica do Carmo"

Breve papal de criação da Basílica Menor de N.Sra.do Carmo

1. O título de Basílica e o seu significado histórico

Símbolos da Basílica

2. A Igreja nas ondas do rádio e do povo

3. Campanha da Fraternidade

Celebrações

4. Transformações no Carmo

5. Outras Campanhas

6. Doença de Mons. Geraldo

7. Atuação pastoral e administração

8. Tempo de mudanças

Mais um Bispo do Carmo

9. Reestruturação para o futuro

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Mons. Geraldo

Fase VI

Basílica no Terceiro Milênio

Côn. Pedro Carlos Cipolini, 15º Pároco: o protagonismo dos leigos e a missão na cidade

1. Comunhão e participação

2. Sólida formação para servir

3. Continuidade do restauro da Basílica, agora Patrimônio Histórico

4. Incentivo à participação e acolhimento: pólo missionário

Olhar para a comunicação

Celebrações emocionantes

5. Aprofundando o planejamento

Datas importantes para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 

 

PARTE II

PARÓQUIA NOSSA SENHORA DO CARMO

 

Fase IV – Paróquia e Matriz de Santa Cruz

 

CRIAÇÃO  E INSTALAÇÃO DA PARÓQUIA DE SANTA CRUZ, DEPOIS DO CARMO

 

      A Paróquia de Santa Cruz foi criada pela Lei Provincial 85 de 18 de abril de 1870, assinada pelo presidente da Província de São Paulo, Antônio Cândido da Rocha. Criada por lei provincial em razão da citada união entre Igreja e Estado no Brasil, que permaneceu até a Proclamação da República em 1889. O provimento canônico aconteceu a 4 de maio de 1870 e no dia 8 seria instalada da nova paróquia, tendo o padre Francisco de Abreu Sampaio como primeiro pároco, encomendado pela provisão de 4 de maio. Na época a Província de São Paulo contava com 129 Igrejas paroquiais, mais cinco capelas curadas. 

 

      Em seu artigo segundo, a lei provincial de 18 de abril de 1870 indicou a delimitação das divisas entre as paróquias de Nossa Senhora da Conceição, então desmembrada, e a de Santa Cruz, que estava sendo criada. As divisas estavam situadas entre as barrancas do rio Jaguari, a estrada para Amparo “chamada de Cima, até ao entroncamento desta na estrada do Bethlem” (para Jundiaí), a rua das Campinas Velhas, a estrada de Santa Cruz, a chácara do padre Francisco de Abreu Sampaio e irmãos, o portão da Imperial Oficina de Antônio Carlos de Sampaio Peixoto, a rua do Caracol, Largo do Mercado, a rua da cadeia, a “estrada da terra preta” até as divisas com a  paróquia de Capivari  de Cima.

 

      Pelo artigo 4 da mesma lei, a paróquia do lado norte teria a denominação  de paróquia de Santa Cruz de Campinas, “e por sede a atual matriz velha”; e a paróquia do Sul se denominaria de Nossa Senhora da Conceição de Campinas, tendo por sede a nova matriz, e “enquanto essa não se construir servirá de matriz a Igreja do Rosário”.

 

      A Provisão Canônica de 4 de maio, confirmando a divisão da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, foi assinada pelo bispo de São Paulo, d.Joaquim Manoel Gonçalves de Andrade, Cavalheiro da Ordem de Cristo. Na Provisão o bispo observa que a decisão foi tomada “atendendo ao que me representaram diversos moradores daquela cidade”. E complementa: “Hei por bem confirmar que instituo dita Freguesia de Santa Cruz, na forma do Sagrado Concilio Tridentino, concedendo todos direitos, privilégios, honras, insígnias e distinções que lhe pertencerem”.

 

     Às 10 horas de 8 de maio de 1870 o padre Francisco de Abreu Sampaio presidiu a primeira missa da nova freguesia de Santa Cruz (Ver Auto de Instalação abaixo). Após a primeira missa em ação de graças o pároco presidiu o Te Deum Laudamas e lavrou o termo de abertura da nova freguesia no Livro Tombo. Entre outros, assinaram o termo de abertura o padre Antônio Lacerda, o bacharel Ferreira Camargo (vereador) , o Barão de Atibaia, Tenente Coronel Querubim Uriel Camargo Castro,  Francisco de Campos Novaes, Juvencio Augusto Monteiro e o fazendeiro Francisco de Paula Bueno.

 

 

 

AUTO DE INSTALAÇÃO DA NOVA FREGUESIA DE SANTA CRUZ DA CIDADE DE CAMPINAS

 

Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1870 aos 8 dias do mês de maio na Igreja de Santa Cruz da cidade de Campinas, província de São Paulo, matriz da Freguesia novamente criada por lei provincial de 18 de abril do corrente ano e provimento canônico de 4 de maio deste mesmo ano. Presentes o abaixo assinado Pe.Francisco de Abreu Sampaio pároco encomendado da nova freguesia por provisão de 4 de maio do citado ano e mais os cidadãos abaixo assinados que vieram assistir a instalação da nova paróquia. Presente também grande concurso do povo, foi pelo dito pároco celebrada às 10:00h do dia a 1a missa paroquial na nova Freguesia de Santa Cruz da cidade de Campinas, desmembrada do território da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da mesma cidade pela citada lei provincial do teor seguinte: Art.1o . Fica dividida em duas a paróquia única de N.Sra.da Conceição de Campinas. Art.2o . As divisas entre as duas paróquias começarão na barranca do Rio Jaguari no lugar onde já existia uma ponte em terra do Dr.Francisco de Assis Pupo, dali partirão descendo pelo meio em direção longitudinal a estrada de Amparo chamada de cima até o entroncamento desta na estrada do Betelem a qual seguira até a rua das Campinas-Velhas, por esta acima até a estrada que vem de Santa Cruz para esta rua e seguirá por esta estrada acompanhando os vales da chácara do Pe.Francisco de Abreu Sampaio e irmãos e continuará até o portão d imperial oficina de Antônio Carlos de Sampaio Peixoto, descerá depois pela rua do Caracol em frente desse portão até o Largo do Mercado procurando a ponte da rua da cadeia, seguirá por esta até o fim do campo e continuará até encontrar a Estrada da Terra Preta, que seguirá até as divisas com a Paróquia do Capivari de Cima. Art.3o . Continuarão a ser extensivas a todo município a disposição da lei no 3 de 9 de março de 1854 e regulamento respectivo até que se haja completado a matriz nova atualmente em construção na Paróquia da Nossa Senhora da Conceição de Campinas. Art.4o . A paróquia do lado norte terá a denominação de Paróquia de Santa Cruz de Campinas e por sede a atual matriz velha, e do sul se denominará de Nossa Senhora da Conceição de Campinas e terá por sede a nova matriz. Enquanto esta não se construir servirá de matriz a Igreja do Rosário. Art.5o . Ficam revogadas as disposições em contrário. Mando portanto a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nela se contém. O secretário dessa província o faça imprimir, publicar e correr. Dada no Palácio do Governo de São Paulo aos 18 de abril de 1870 (L.S.) Antônio Cândido da Rocha e pelo mesmo pároco a estação da primeira missa paroquial serão lidas em alta voz em presença do numeroso auditório o provimento canônico da Freguesia e a provisão de sua nomeação para pároco da nova Freguesia sendo do teor e forma seguinte a provisão de sua instituição canônica. O doutor Joaquim Manoel Gonçalves de Andrade, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Arcediago da Catedral desta imperial cidade de São Paulo nela e em todo seu bispado, Vigário Capitular pelo ilustríssimo e reverendíssimo cabido. Sede Vacante. Pelo que faço saber que por lei provincial de 18 de abril próximo passado. Como me foi ontem comunicado por ofício da presidência da província, foi dividida em duas a paróquia da cidade de Campinas, continuando uma com o antigo título de Nossa Senhora da Conceição e outra com a denominação de Santa Cruz, e atendendo ao que me representaram diversos moradores daquela cidade. Hei por bem confirmar como por esta provisão confirmo, erijo e canonicamente instituo dita Freguesia de Santa Cruz na forma do Sagrado Concílio Tridentino, concedendo-lhe todos os direitos, privilégios, honras, insígnias e distinções que lhe pertencem como igreja paroquial que de hoje em diante fica sendo. Será esta publicado à estação da missa paroquial de um dia festivo e registrada no livro do Tombo da respectiva matriz para a todo tempo constar. Dada na comarca capitular de São Paulo aos 4 de maio de 1870. E eu Antônio Augusto de Araújo Muniz, escrivão da Comarca Capitular a subscrevi (L.S.) Joaquim Manoel Gonçalves de Andrade. Registrada a Fs.305 até o verso do Livro 39. São Paulo 4 de maio de 1870. Silva. Chancelaria 8000 réis. Selo 75 réis. Ns.3 2000 réis pagou o selo 2000 réis a coletoria de São Paulo. 11 de maio de 1870. Chagas Amaral. Provisão pela qual a V.Sa. houve por bem dar a instituição canônica a nova Freguesia de Santa Cruz da cidade de Campinas para V.Sa. ver e assinar. Depois de finda a missa foi pelo mesmo pároco em ação de graças entoado solene “Te Deum Laudernus” findo o qual para constar a todo o tempo, o dia da solene instalação da nova Freguesia de Santa Cruz da cidade de Campinas, foi por mim lavrado neste Livro do Tombo da dita Igreja o presente auto que vai por mim assinado e mais pelos cidadãos presentes. E eu o Pe.Francisco de Abreu Sampaio, vigário encomendado que o escrevi.   

           

 

       Campineiro, padre Francisco de Abreu Sampaio, o Padre Chico, como era conhecido, era filho de Bento José de Abreu Alves Guimarães e Maria Luiza Natividade. Foi ordenado em 1857, tendo sido coadjutor dos vigários da Conceição em 1860-1861 e 1865-1866. Logo que se tornou o primeiro titular da Paróquia de Santa Cruz, sediada na igreja onde havia sido batizado, recebeu como primeiros desafios a reforma completa da então chamada Matriz Velha e a aquisição de um órgão.

 

      A 15 de abril de 1871, o bispo d.Joaquim Manoel Gonçalves de Andrade confirmou que a padroeira da Paróquia de Santa Cruz era Nossa Senhora do Monte Carmelo, ou Nossa Senhora do Carmo. O pároco receberia a imagem que para esse fim ofereciam “os Irmãos Terceiros e mais devotos da mesma Senhora”.

 

     Antes, a 24 de março de 1871, o presidente da Província de São Paulo, Antônio da Costa Pinto e Silva, sancionou lei alterando o artigo 2o  da Lei 85 de 18 de abril de 1870. Com isso, ficavam alteradas as divisas entre Paróquias de Nossa Senhora da Conceição e de Santa Cruz.

 

     Diz o artigo 1o da nova lei: “Começarão  as divisas na barranca do rio Jaguari, onde presentemente existe uma fonte denominada de João Leite de Moraes Cunha na estrada de Amparo, chamada de Cima, e seguirão até entroncamento na estrada do Bethlem de Jundiaí, no portão da fazenda do finado José Francisco de Paula, o mais igual”. E o artigo 2: “Ficam desanexadas da paróquia da Conceição as fazendas do Barão de Atibaia e de dona Maria Joaquina Ferreira do Prado, e de José R. do Prado e incorporadas na paróquia de S Cruz”.

 

      No momento de criação da nova Paróquia de Santa Cruz, Campinas começava a viver o auge do Ciclo do Café. Mas o clima ainda era de grande tranqüilidade. Em seu relatório de 1870, ano da criação da nova paróquia, o presidente da Província, Antônio Cândido da Rocha, lamentava o crescimento do número de casos policiais, provocados, em sua opinião, “a pouca difusão de luzes por todas as camadas sociais, e quase certeza da impunidade em uma Província possuidora de um vasto território,  em que os criminosos encontram meios fáceis de escapar à ação da Justiça”.  Ele indicava então os números apresentados pelo chefe de Província da Polícia, de ocorrências em 1870: 45 homicídios, 35 tentativas de homicídio, 28 ferimentos graves, 15 ferimentos leves, 13 estelionatos, 6 roubos, 5 injúrias verbais, 4 resistências, 2 reduções à escravidão, 1 poligamia, 1 infanticídio, 1 destruição de bem público. Dos 45 homicídios, 3 foram registrados em Campinas (in Relatório da Província de São Paulo, 5 de novembro de 1870, páginas 4 e 5).      

 

 

 

MATRIZ DE SANTA CRUZ DO CARMO

 NA DÉCADA DE OURO DO CAFÉ

E SEU 1o PÁROCO

     

      O padre Francisco de Abreu Sampaio, o padre Chico, foi nomeado primeiro pároco de Santa Cruz, tomando posse a 28 de maio de 1870. Permaneceu no cargo até início de 1887, quando foi substituído pelo padre João Batista Correa Nery, que também se tornaria bispo, como o padre Vieira.

 

      O longo paroquiato do padre Chico foi marcado por importantes acontecimentos, e um deles foi a polêmica em torno dos limites das duas paróquias irmãs, a de N.S. da Conceição e a de Santa Cruz. A definição desses limites era crucial, considerando que o perfil urbano de Campinas era modificado de uma forma vertiginosa, por força do poder enorme alcançado pela elite cafeeira. Ela queria transformar o espaço urbano, tornando-o como uma vitrine de seu vigor econômico e político. E, de fato, vários episódios na década de 1870 ratificam esse dinamismo derivado do café.

 

      A inauguração da Companhia Paulista de Ferrovias, em 11 de agosto de 1872, com o trecho Jundiaí-Campinas, foi um desses episódios, representando  um salto para a produção e a venda do café no mercado internacional. Jundiaí já estava ligada ao porto de Santos pelos trilhos da São Paulo Rayoall. E a partir daí Campinas se tornou o principal pólo ferroviário brasileiro. A rede da Paulista alcançou 824 km, com dez ramais. A malha ferroviária da Companhia Mogiana, inaugurada em 27 de agosto de 1875, se expandiu por 18 ramais, em várias direções, em torno aproximadamente do antigo Caminho de Goiás.

 

      Depois foram inauguradas a Companhia Ramal Férreo Campineiro (28 de novembro de 1889, ligando Campinas a Sousas, Joaquim Egídio, Cabras e Dr.Lacerda e apelidada de “Cabrita”) e Companhia Agrícola Funilense- Estrada de Ferro Funilense (18 de setembro de 1899, ligando Campinas ao Bairro do Funil – atual Cosmópolis – a 43 quilômetros de distância).

 

      Outro sinal do poderio alcançado por Campinas é o fato de que ela foi a segunda cidade do mundo, depois da riquíssima e industrializada Londres, a iniciar a utilização do telefone, cuja data de criação seria 2 de junho de 1875, por Alexander Graham Bell. A primeira exibição em Campinas foi a 23 e agosto de 1878, ano da Exposição Universal em Paris, onde a cidade se apresentou ao mundo com os cafés levados pelo Clube da Lavoura. O primeiro diálogo ao telefone em Campinas só podia ter a marca da França: ele foi mantido entre interlocutores instalados no Rink Campineiro e na loja Monde Elegant, que era um dos principais pontos de venda das peças trazidas diretamente de Paris para a elite cafeicultora. A Empresa Telefônica Campineira foi inaugurada finalmente a 4 de abril de 1884, com 56 assinantes iniciais. A maioria deles era naturalmente de cafeicultores.

 

      Ainda sob o influxo do café, Campinas foi ganhando vários outros ícones da modernização acentuada na década de 1870 e seguintes, como a Companhia Campineira de Iluminação a Gás (inaugurada a 29 de julho de 1875), Companhia Campineira de Carris Elétricos (os bondes, a 20 de outubro de 1878), o “Fonógrafo de Edson” (antecessor dos gravadores, com primeira exibição no mesmo Rink Campineiro, a 12 de maio de 1880), primeira experiência com iluminação elétrica (25 de abril de 1886, na Estação da Paulista), água encanada (5 de junho de 1887), cinematógrafo (no Teatro São Carlos, em 1897).

 

     Também surgiram no período as primeiras e inevitáveis agências de instituições bancárias, como o Banco Colonial do Estado de São Paulo (1871), Banco Mercantil de Santos (1873), London Brazilian Bank Limited (1873), Banco do Comércio e Indústria, Banco União de São Paulo e Banco dos Lavradores (1883).

 

      Foi neste cenário de um espaço urbano em ebulição que se propagou a polêmica em torno das divisas das duas paróquias campineiras. A disputa era tamanha que as procissões de uma paróquia não entravam no território reivindicado pela outra. A situação se tornou insustentável, e entre junho e agosto de 1873 o novo bispo de São Paulo, d.Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, fez longa visita pastoral a Campinas, para estudar a situação e encontrar uma solução. Desde então, após várias conversas entre o bispo, os vigários e paroquianos, o clima se arrefeceu na cidade. 

 

        Mas o mesmo d.Lino Deodato voltaria a Campinas, para nova visita pastoral praticamente com o mesmo objetivo. Em junho de 1891 ele faria nova visita, agora para determinar os novos limites urbanos das duas paróquias.

 

      Enquanto isso não acontecia, o primeiro pároco de Santa Cruz, padre Francisco de Abreu Sampaio, se esforçou para restaurar e dar a configuração merecida pela Matriz Velha. E de fato ele procedeu a várias reformas, além de introduzir novidades que deram novo impulso para a primeira Igreja de Campinas, como o órgão que passou a animar as celebrações.

 

     Durante o paroquiato do padre Chico, foram coadjutores o padre João Batista Gomes, de 03/08/1870 a 08/12/1873, e o padre Haroldo de Camargo Daunt, de 21/7/1874 a 29/10/1886. Padre Haroldo foi o primeiro filho do casal dr. Ricardo Gumbleton Daunt (médico, vereador por várias oportunidades, nascido na Irlanda, foi tesoureiro da irmandade do Espírito Santo e 4o. Juiz de Paz da Paróquia de Santa Cruz, entre outros cargos em Campinas) e dona Anna Francelina de Camargo; faleceu como vigário de Capivari e foi sepultado em Campinas, no cemitério do SS. Sacramento, em 12/12/1886.

 

       Deixando a paróquia em 1887, padre Chico faleceu a 6 de setembro de 1889, pouco antes da Proclamação da República e no momento em que a cidade vivia um caos, resultante da epidemia de febre amarela no primeiro semestre daquele ano. O seu sucessor na Paróquia de Santa Cruz, o padre Nery, teve papel relevante por ocasião da febre amarela.

 

    Durante o paroquiato do padre Chico, foi inaugurada a capela de Nossa Senhora da Boa Morte, na Santa Casa de Misericórdia, em 1876. No início do século 21 a capela continua lá, um reduto de beleza e paz no centro nervoso de Campinas, ao lado da sede da Prefeitura Municipal.

 

 

 

2o PÁROCO, CÔNEGO NERY,

NO COMBATE À FEBRE AMARELA: UM NOVO BISPO

 

      João Batista Corrêa Nery nasceu em Campinas a 6 de outubro de 1863, na rua Formosa, depois Conceição, perto do Jardim Público, depois praça Imprensa Fluminense, onde seria construído o Centro de Convivência Cultural.

 

     Era filho do sapateiro e funcionário da Câmara Municipal Benedicto Corrêa de Moraes e de Maria do Carmo Nery. A influência artística e religiosa do pai sobre o filho foi enorme. Benedicto tinha o apelido de “Nho Nito que canta”, porque se destacava durante as missas por cantar forte e com entusiasmo.

 

     João Nery foi batizado do dia 15 de outubro do mesmo ano em que nasceu, pelo padre Sabato Antonio Deluca, tendo como padrinhos Manoel Benedicto Corrêa e Maria Thereza de Moraes.

 

     Freqüentou várias escolas públicas primárias e ingressou em dezembro de 1874 no famoso Colégio Culto à Ciência, onde teve aulas com professores como Antônio Martins, o escritor Júlio Ribeiro (de “A Carne”), João Bentley, o jornalista Henrique de Barcelos, drs. Souza Lima, Galvão Bueno, Francisco Xavier Moretz-Sohn e Melchiades Trigueiro.

 

       No Culto à Ciência, com professores tão ilustres, o futuro padre Nery aprofundou seu interesse pelo teatro. Em 1878 ele foi um dos fundadores da associação batizada de Ravenna Dramatica. Em parceria com Joaquim Gomes Pinto, promotor público em Campinas e depois Juiz de Direito de Nuporanga, Nery escreveu o drama “Pae e filho”, representado com sucesso no célebre Teatro São Carlos de Campinas.

 

      João Nery freqüentou o Seminário Episcopal de São Paulo, e a 7 de setembro de 1882 (nos 60 anos da Independência do Brasil) recebeu a tonsura (corte circular, rente, do cabelo, na parte mais alta e posterior da cabeça). As ordens menores e subdiaconato vieram a 30 de maio de 1885, e o diaconato, em 21 de fevereiro de 1886.  O pai, falecido um ano antes, não viu em vida a concretização do  sonho de ter o filho padre, o que aconteceu a 11 de abril de 1886, quando João Nery recebeu o presbiterato do bispo d.Lino Deodato Rodrigues de Carvalho. A primeira missa celebrada pelo padre Nery foi a 16 de abril de 1886.

 

      A primeira paróquia foi a da Matriz de Santa Cruz do Carmo, assumindo o cargo a 1o de fevereiro de 1887, ainda como coadjutor, e depois titular, em agosto. Permaneceu até 1894, e nesse período o padre Nery participou de episódios fundamentais na história de Campinas, do país e da Igreja. Foi o momento da campanha abolicionista e da abolição da escravatura, e o momento do movimento republicano, vitorioso a 15 de novembro de 1889, no episódio que, entre outras conseqüências, determinou a separação entre Igreja e Estado no Brasil.

 

      Logo após o padre Nery assumir a Paróquia de Santa Cruz teve início a construção de pequena capela no bairro de Rebouças, depois município de Sumaré, na época única área da paróquia “afetada pelo protestantismo", segundo o relatório do pároco.

 

     A 27 de novembro de 1887 o padre Nery fez um apelo, através da imprensa local, visando angariar donativos para a Igreja. O religioso conseguiu dois genuflexórios para sacristia, dois espelhos, bancos para a Igreja, toalhas e cobertas para altares. Também foi construída uma latrina na Igreja.

 

      Ainda em 1887 teve início a “aula paroquial para ensino dos meninos que desejaram seguir carreira sacerdotal com objetos próprios e livros necessários”. Entre os futuros sacerdotes que passaram pelo curso criado pelo padre Nery estiveram Francisco de Campos Barreto, Joaquim Mamede da Silva Leite, Octavio Chagas de Miranda (futuros bispos), Samuel Fragoso, João Martins Ladeira e José Ladeira.

 

      Em maio de 1888 o padre Nery presidiu celebrações do Mês Mariano e, em junho, o Tríduo do Sagrado Coração. A 11 de novembro ele celebrou a primeira comunhão dos meninos e meninas que freqüentaram o catecismo. 

 

      Mas o papel do padre Nery foi especialmente relevante por ocasião dos surtos de febre amarela que quase destruíram Campinas. O maior e pior deles foi o de 1889, justo no ano da República tão sonhada por muitos líderes campineiros.

 

     Foi enorme o êxodo dos moradores de Campinas durante a epidemia de febre amarela, principalmente no surto de 1889. Quem podia deixava a cidade, que ficou deserta nos momentos mais críticos. Ao final a febre amarela deixou 2.500 mortos, ou cerca de 6% da população local na época – proporcionalmente, algo como 60 mil pessoas na atual população de Campinas.

 

      Vários hospitais também se destacaram durante a epidemia, como a Santa Casa de Misericórdia, inaugurada em 1o de outubro de 1876, pelos esforços, entre outros, do padre Vieira e de Antônio Francisco Guimarães, o “Bahia”, o mesmo empresário que havia contratado Vitoriano dos Anjos para os trabalhos da nova Catedral de Campinas.

 

     Também destacou-se o hospital do Círculo Italiano (atual Casa de Saúde), inaugurado a 2 de maio de 1886. O projeto arquitetônico do hospital do Círculo Italiano foi assinado por Francisco de Paula Ramos de Azevedo, as obras ficaram por conta do engenheiro Samuel Malfatti. Durante a febre amarela, o hospital do Círculo manteve uma enfermaria de emergência para atender aos doentes.   

 

      Foi instalado na cidade um verdadeiro “estado de sítio sanitário”, durante o primeiro e mais grave surto, em 1889. Até mesmo médicos residentes em Campinas preferiram deixar a cidade. Ficaram entretanto alguns, como Ângelo Simões, o proprio  Valentim José da Silveira Lopes que tinha acusado casos de febre amarela em 1876, Antônio Alves do Banho e João Guilherme da Costa Aguiar, o ituano que dirigiu a enfermaria do Círculo Italiano durante os meses mais críticos da doença - março e abril de 1889 - e morreu vítima da enfermidade que combatia, a 19 de maio daquele ano. 

 

       Por ordem da Câmara Municipal, presidida por José Paulino Nogueira, a farmácia do vereador Otto Langaard distribuiu gratuitamente remédios aos carentes, vítimas preferenciais da epidemia, uma vez que não conseguiam em geral fugir para outras cidades. Também por solicitação da Câmara, o governo provincial enviou médicos e recursos materiais para Campinas.

 

      A mobilização foi também grande na própria capital do Império. Foi particularmente expressiva a iniciativa dos jornais do Rio de Janeiro, que se empenharam na promoção de vários eventos, com renda totalmente destinada às vítimas e ao combate à febre amarela em Campinas.

 

      Destacaram-se, sobretudo, os jornais A Tribuna Liberal, Gazeta de Notícias, Correio Português, Jornal do Comércio, Jornal dos Economistas, Diário do Comércio, A Estação, Diário de Notícias, Revista Ilustrada, Constitucional, Mequetrefe, A Rua, Cidade do Rio, Gazeta da Tarde e Novidades. Os jornais das colônias também colaboraram, como a Gazeta Luzitana, O Esboço, os italianos Corriere d’Italia e Voce del Popolo, Timbira, o Município Neutro e o francês L’Etoile du Sud.  A mobilização dos jornais do Rio de Janeiro seria reconhecida anos depois, com a denominação dada à praça do Centro de Convivência Cultural, de Imprensa Fluminense.

 

       Várias instituições foram criadas para atender a população pobre durante a febre amarela. Alcançou especial projeção o trabalho da Sociedade Protetora dos Pobres, criada a 7 de abril de 1889, em uma assembléia realizada na Matriz Nova, atual Catedral de Campinas.   

 

      No auge de suas atividades, a Sociedade atendia 1.000 pessoas (20% da população que permaneceu na área urbana) pobres por dia no depósito de alimentos e remédios montado no Rinque, a casa de patinação instalada na esquina das ruas Conceição e Barão de Jaguara. As ruas próximas ficavam congestionadas com a multidão.

 

       A 18 de março de 1889 nasceu a Cruz Verde, por um grupo de italianos integrado, entre outros, por Alfredo Carneiro, Hugo Barsotti, Fernando Balletero, Francesco Fachini, Hugo Rizzi, Prudêncio de Miranda, Benjamin Taglietti, Luís Galgano e Pedro Semmi, que foram escolhidos dirigentes da entidade. A Cruz Verde foi criada e funcionava no prédio do Círculo Italiano.

 

      O padre Nery liderou muitas procissões realizadas sistematicamente no auge da epidemia de 1889. Ele também convidou os padres jesuítas Carlos Ferreira e Pedro Matteucci para o auxiliarem no período. Em seu relatório no Livro Tombo, o padre Nery informa que foram celebrados no ano 36 casamentos de amasiados, além de procedida à confissão de “mais de 500 pessoas afetadas pela febre amarela”. E revela que foi distribuído aos mais carentes “1 conto cento e dois mil reis”, entregues em 267 casas socorridas. O padre Pedro Matteucci teve papel relevante na iniciativa, obtendo recursos de fazendeiros e outros. Apenas da fazenda de D. Maria Carolina de Arruda Barros foram doados 378 mil 500 réis. 

 

      Apesar da epidemia, a vida continuava. Em 15 de dezembro de 1889 foi inaugurada a capela de Rebouças, com missa e procissão.

 

    Em 1891, novo forte surto de febre amarela. Morreram "seiscentas e tantas pessoas, tendo a maior parte sido preparada", segundo relato de padre Nery no Livro Tombo, completando com a informação de que naquele ano não  houve primeira comunhão, "por falta de regularidade nas aulas de catecismo".

 

    Outros surtos seriam registrados até 1897. Nesse ano de 1897 foi fundada a Sociedade Beneficente Maximiano de Camargo.  No mesmo ano, de 1897, a 25 de julho, foi inaugurado o Liceu de Artes e Ofício, atual Liceu Salesiano. O Liceu nasceu da iniciativa de Maria Umbelina Alves Couto, esposa do comerciante Antônio Francisco de Andrade Couto, e do agora Cônego João Batista Correia Néry, que já havia se integrado de modo decisivo nos esforços da Sociedade Protetora dos Pobres.

 

      A idéia de Maria Umbelina, que logo teve o apoio especial do Cônego Néry, era a criação de uma instituição para abrigar os órfãos da febre amarela. A pedra fundamental do edifício foi lançada ainda a 9 de outubro de 1892, e as obras tiveram o apoio, entre outros, do casal barão e Baronesa de Resende e de Francisco Bueno de Miranda.

 

       No mesmo período, também foi finalmente inaugurado o Asilo de Órfãs, ligado à Santa Casa de Misericórdia. Com obras paralisadas há alguns anos, o Asilo foi concluído e inaugurado a 15 de agosto de 1890, em função do empenho do médico Francisco Augusto Pereira Lima, que se inquietou com o significativo aumento do número de órfãs das vítimas da febre amarela.

 

        Os surtos de febre amarela deixaram uma cicatriz enorme em uma cidade que crescia de forma constante e desordenada. Restaram histórias de dedicação, como da Irmã Maria dos Serafins Favre, a Irmã Serafina, que também morreu vítima da doença, enquanto cuidava das vítimas negras e pobres em geral. Irmã Serafina integrava a ordem responsável pelo Asilo das Órfãs, além de atuar na Santa Casa de Misericórdia, as duas obras localizadas na Paróquia de Santa Cruz.

 

      Campinas havia perdido, em função da febre amarela, a liderança econômica e política do Estado. Os primeiros anos do século 20 seriam dedicados em Campinas a recuperar a cidade arrasada pela febre amarela.  Mas permaneceu o tributo da cidade à ação das pessoas durante o atendimento às vítimas da febre amarela, dentre elas o padre Nery, que deixou como legado o Liceu Salesiano, criado inicialmente para o atendimento aos órfãos da febre amarela, conforme desejo de Maria Umbelina Couto. O padre Nery foi ele mesmo vítima da doença, conseguindo recuperar-se.

 

       O padre Nery liderou outras importantes iniciativas em seu paroquiato na Matriz de Santa Cruz. Em abril de 1891, “de comum acordo com o pároco da Conceição”, padre Camillo Passalacqua, foi estabelecido na cidade o Apostolado da Semana Santa, encarregado das solenidades da Semana Santa nas duas freguesias, em anos alternados. Foram nomeados como membros do Apostolado: A José Barbosa de Oliveira, Antônio Carlos de Moraes Salles, Antônio B. de Moraes Teixeira, major Álvaro X de Camargo Andrade, Barão  de Ataliba Nogueira, Barão de Anhumas, Baronesa de Atibaia, Barão Geraldo de Rezende, Barão de Ibitinga, Baronesa de Paranapanema, Barão de Itapura, dr Guilherme da Silva, Comendador José Pereira de Andrade, José de Sousa Campos, casa comercial Notre Dame de Paris, Rocco de Marco, até completar lista de 60 nomes. Cada um doou cerca de 100 mil réis para custear as despesas.

 

      A 5 de abril 1891, em reunião solene no Consistório da Matriz da Conceição, por convite dos padres Nery e Passalacqua, foi instalada a Conferência de São Vicente de Paulo, com nome de Conferência da Conceição e Santa Cruz de Campinas. A primeira diretoria era composta pelo presidente Luiz Silverio Alves Cruz, o secretário Zeferino Antônio Vieira, e tesoureiro João Lopes da Silva.

 

      Uma das primeiras ações da Conferência dos Vicentinos foi a estruturação de uma pouparia para os pobres. Como os vicentinos estavam sem local para a rouparia, o padre Nery ofereceu - e pediu em registro que seus sucessores continuassem com a medida - o pavimento superior da Matriz de Santa Cruz, para o lado da rua do Sacramento, para sediar a rouparia. No mesmo local foi instalada sala da sessão e biblioteca da Conferencia de São Vicente de Paulo.

 

      A questão das divisas das paróquias voltou à tona, no mesmo ano de 1891. Em 21 de maio o bispo de São Paulo, d.Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, emitiu ofício ao padre Nery, indagando se havia sido justa a divisão das paróquias, feita pela Intendência Municipal, em decorrência do decreto de 7 de janeiro de1890, que separava Igreja e Estado – uma das principais conseqüências políticas da Proclamação da República em 15 de novembro do ano anterior.

 

     Em sua resposta, datada de 22 de maio de 1891, o padre Nery assinalava julgar “conveniente e concernente ao bem dos fiéis a divisão segundo plano feito e executado pela Intendência Municipal em sessão de 3 de fevereiro do ano passado, ficando as casas da rua da divisa pertencendo à paróquia de Santa Cruz”. O padre ainda citava recente recenseamento, indicando que a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, que tinha território cerca de três vezes maior do que o da Santa Cruz, contava com “treze mil almas”, enquanto a Paróquia de Santa Cruz contava com “sete ou oito mil almas”.

 

      A 9 de junho de 1891, d.Lino Deodato emitiu novo comunicado, alterando as divisas entre as duas paróquias, considerando os dados demográficos e outros fatores. A alteração das divisas urbanas das duas paróquias era feita "na parte eclesiástica e espiritual tão somente", segundo o bispo. As novas divisas assim ficaram estabelecidas:

 

     "A partir do armazém da Estação da Estrada de Ferro diretamente à rua do Bom Jesus, desce por esta até a do Barão de Jaguara, por esta sobe até a travessa do Goes, descendo ao Largo Carlos Gomes, tomando a rua do General Osório até os muros da chácara do cidadão Antonio Carlos de Sampaio Peixoto, seguindo dai em diante a antiga diretriz ou divisa".

 

     Ficavam no território da Paróquia de Santa Cruz as ruas divisórias, com os prédios de um e outro lado. O bispo ainda ressalta "o acordo e boa vontade ora existentes, e que deverá sempre existir entre os dois reverendos párocos da cidade atuais ou futuros”.

 

      Outras iniciativas relevantes durante o paroquiato do padre Nery. A 1o de janeiro de 1892 começou a circular o primeiro jornal católico de Campinas, sob o nome de "Verdade", com o objetivo de "doutrinar pela imprensa os habitantes desta cidade". Era uma medida no cenário da ofensiva da Igreja Católica, diante do ambiente político criado pela Proclamação da República. Período em que um certo anticlericalismo veio à tona em segmentos da sociedade brasileira. O episódio de um crucifixo despedaçado no Rio de Janeiro gerou particular mobilização na Igreja. Em Campinas o padre Nery convidou os fiéis a comunhões e celebrações.

 

      Ainda em janeiro de 1892 foram concluídas pinturas externas e internas na Matriz de Santa Cruz. A 31 de janeiro chegou a nova imagem do Coração de Jesus, providenciada pelo Apostolado da Oração. No mesmo ano foi concluído o altar de Nossa Senhora do Bom Conselho, ereto em uma das tribunas da Igreja Matriz, onde seria colocado um quadro vindo da Europa, custeado pelo sr. Ignacio Pellegrini. Ainda em 1892 ocorreu novo surto de febre amarela. A Matriz de Santa Cruz foi novamente mobilizada, com preces sistemáticas. 

 

     A 6 de novembro de 1892 foi celebrada a primeira missa pelo padre Manoel Ribas d´Avila, que futuramente seria o titular da paróquia de Santa Cruz. A 10 setembro de 1893, às 7 horas, houve a  instalação do Círculo Católico São José, com eleição da primeira diretoria, composta por João de Assis Lopes Martins (presidente), Joaquim Villac (vice), Antonio Rodrigues de Mello (secretário), José Manuel de Castro (tesoureiro). O Cônego Nery explicou os objetivos do Círculo, ao lado do padre Camillo Passalacqua. O bispo Luiz Lasagna, que passava por Campinas, participou da reunião. 

 

     No dia 31 de janeiro de 1894 houve a instalação, em prédio particular na Rua do Bom Jesus, o Clube Católico. Equipado com biblioteca e salas para atividades do Circulo Católico. A 6 de março houve a inauguração da Escola Paroquial de Santa Cruz, fundada pelo Círculo Católico. Foi aberta no dia 7 com "oitenta e tantos alunos".

 

      A 22 abril de 1894, no encerramento do mês de S Jose com festa para o padroeiro do Circulo Católico, foi promovida a Primeira Conferencia Católica de Campinas, no Clube Semanal de Cultura Artística, tendo como orador Brasilio Machado. A 19 de agosto de 1894 faleceu o bispo d.Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, que muito fez por Campinas.

 

     No dia 24 de outubro de 1894 foi executada a permuta entre o Cônego Nery, pároco da Matriz Velha (Carmo), e o Cônego Scipião, então pároco da Matriz Nova (Conceição).

 

      Terminava a história do Cônego Nery à frente da Paróquia de Santa Cruz do Carmo. A 9 de junho de 1896 o cônego Nery foi nomeado bispo de Espírito Santo, depois de Pouso Alegre (MG). A 3 de agosto de 1908 foi transferido para Campinas, tendo sido, portanto, o primeiro bispo de Campinas, após a criação da diocese. D.Nery fundou a Creche Bento Quirino, o jornal “O Mensageiro”, a Escola Agrícola Campineira, o Externato São João, Liceu de Artes e Ofício e outras instituições importantes para a cidade.

 

      D.João Nery havia estudado no Colégio Culto à Ciência – criado curiosamente, por importantes nomes da maçonaria – junto com personalidades como o depois jornalista Júlio Cesar de Ferreira Mesquita (de “O Estado de São Paulo”), Antônio Pádua Salles (depois secretário estadual da Agricultura) e Cincinato Cesar da Silva Braga (depois deputado federal). D.João Nery faleceu a 1o de fevereiro de 1920. No dia do falecimento foi composta comissão para viabilizar um monumento a D.Nery, integrada por Raphael Duarte, Orosimbo Maia e Fortunato Augusto de Figueiredo Tavares. O monumento está  localizado na praça da Catedral e atesta o apreço da cidade a este seu filho ilustre.

 

 

 

CÔNEGO SCIPIÃO, 3o PÁROCO.

PE. LANDELL DE MOURA, O “PAI” DO RÁDIO.

 

      O Cônego Scipião Ferreira Goulart Junqueira foi muito ativo à frente das paróquias de Nossa Senhora da Conceição (então Matriz Nova) e de Santa Cruz. Em abril de 1889, tinha sido um dos fundadores, com o médico dr. Alberto Sarmento, da Sociedade Protetora dos Pobres, criada para atender as vítimas da epidemia da febre amarela que teve o seu mais forte surto em Campinas naquele ano.

 

     A Sociedade foi criada no próprio consistório da Matriz Nova, com o propósito de angariar todo tipo de ajuda as vítimas da febre amarela, que em vários surtos, ate 1897, deixou mais de 2500 mortos na cidade, o que equivalente a 6% da população da época (como se, no início do século 21, 60 mil pessoas morressem em uma epidemia na Campinas de 1 milhão de moradores – seria sem duvida uma tragédia incomensurável, como foi na época). O Cônego Scipião foi nomeado presidente da primeira diretoria da Sociedade, que também teve o padre João Nery como o primeiro secretário.  

  

      A atuação durante a febre amarela contribuiu para debilitar a saúde do Cônego Scipião, que ficaria pouco tempo à frente da Paróquia de Santa Cruz (1885 a 1894). Pediu licença, e foi concedida, para que pudesse se recuperar em Santos, sendo então nomeado um substituto interino, o padre Landell de Moura.

 

     O Cônego Scipião havia iniciado o sacerdócio em Santos, onde foi vigário  da Matriz de 1861 a 1884. Foi deputado estadual em cinco legislaturas pelo Partido Conservador, tendo chegado à  presidência da Assembléia Provincial de São Paulo de 1871 a 1874. Foi vigário da Matriz Nova de Campinas de 1885 a 1894. Retirado para Santos, lá  faleceu a 4 de fevereiro de 1897, ano do ultimo surto de febre amarela em Campinas. É nome de rua no centro da cidade e está incluído entre os homenageados com uma placa de mármore de Carrara, esculpida por A Foltam, e que está afixada na parede externa da Catedral do lado da rua Treze de Maio. É uma placa de homenagem aos membros da Sociedade Protetora dos Pobres, por iniciativa da Câmara Municipal de Campinas.

 

 

 

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

 

      O padre Roberto Landell de Moura foi muito humilde em sua passagem de dois anos por Campinas, como substituto interino do padre Scipião F.Goulart Junqueira, que tinha sido o terceiro titular da Paróquia de Santa Cruz. Humilde porque não quis iniciar grandes inovações, considerando a sua condição provisória. E bem que o padre Moura era chegado a inovações.

 

       Ele era um cientista, um dos mais importantes que o Brasil já teve, e sua passagem pela cidade, desconhecida de muitos e ainda colocada em segundo plano na história oficial, como responsável pela Igreja de Santa Cruz, é mais uma demonstração da vocação científica e tecnológica de Campinas.

 

     Padre Landell de Moura é, segundo importantes cientistas, simplesmente considerado o “pai do rádio”, que inventou na passagem dos séculos 19 e 20. Muitos estudos que levaram a essa invenção foram feitos em Campinas, durante sua passagem pela futura Basílica do Carmo.  

 

       Roberto Landell de Moura nasceu em Porto Alegre (RS), em 21 de janeiro de 1861. Foi batizado a 19 de fevereiro de 1863, junto com sua irmã Rosa, na Igreja do Rosário. Ele era o quarto de 12 irmãos, filhos de Ignácio José Ferreira de  Moura e Sara Mariana Landell de Moura.

 

        Era irmão de farmacêuticos como João, Edmundo e Ricardo, do médico Ignácio Landell e do negociante Pedro Landell de Moura, que vivia em São Paulo. Roberto entrou para o Colégio dos Jesuítas de São Leopoldo (RS) em 1879. Decidiu ir ao Rio de Janeiro e, depois, acompanhar o irmão Guilherme que estava de partida para Roma. Na capital italiana Roberto Landell de Moura matriculou-se no Colégio Pio Americano e na Universidade Gregoriana. Espírito inquieto, tinha aulas de física e química. Queria ir a fundo no entendimento dos enigmas do Universo e da presença de Deus na vida dos seres humanos e do mundo.

 

      A 28 de setembro de 1886 foi ordenado sacerdote, e já nessa época esboçava a sua teoria sobre a “Unidade das forças e a harmonia do Universo”. Em fevereiro de 1887 foi nomeado capelão do Bomfim, em Porto Alegre, e lente de História Universal do Seminário Epicospal. Quatro anos depois tornava-se vigário em Uruguaiana, mas logo foi transferido, em 1892, para o estado de São Paulo, inicialmente para Santos e São Paulo, antes de ser nomeado como substituto da Paróquia de Santa Cruz em Campinas, em 1894.

 

    Em Campinas, padre Landell de Moura aprimorou seus estudos religiosos e científicos. A unificação entre os dois campos, ou a relação entre essas duas áreas para muitos opostas, era um de seus focos centrais de pesquisa.

 

      Pouco antes da estadia em Campinas, o padre Moura promoveu, em São Paulo, aquelas que são consideradas hoje como as experiências pioneiras na transmissão de sons sem o uso de fios. Era  a invenção do rádio, e o local das experiências, dois pontos, um na avenida Paulista e outro no Alto de Santana.

 

      As experiências pioneiras do padre Landell de Moura foram realizadas, portanto, antes de experimento semelhante de Guglielmo Marconi, em Pontechio, na cidade de Bolonha, em 1895. Como se sabe, Marconi é considerado o “pai do rádio”, embora os registros históricos dêem conta da primazia do padre brasileiro.

 

      Marconi obteve uma patente sobre seu invento, anterior à patente obtida pelo brasileiro, em 1900. Depois de deixar Campinas, o padre decidiu viajar aos Estados Unidos, para obter patentes para seus inventos. Ele havia recebido muitas críticas, inclusive em Campinas, de católicos conservadores, para quem suas experiências seriam heréticas conforme a doutrina cristã.

 

      O êxito em território norteamericano foi expressivo. Apresentou suas idéias ao The Patent Office at Washington, objetivando a patente sobre telefonia-sem-fio. Em documento de 4 de outubro de 1901, órgão observou que as teorias do religioso eram tão revolucionárias que a patente não poderia ser concedida, sem a devida apresentação de um modelo do aparelho, para a demonstração prática das idéias defendidas.

 

      Mas a vitória aconteceria.   Ele acabou obtendo as patentes de números 771.917, a 11 de outubro de 1904 (pelo TRANSMISSOR DE ONDAS); 775.337, de 22 de novembro de 1904 (pela TELEFONIA-SEM-FIO), e 775.846, na mesma data (pela Telegrafia-sem-fio).

 

     A Igreja estava atenta.  A 7 de maio de 1904,o monsenhor Vicente Lustosa remeteu ao Brasil, de Nova York, uma longa carta, que foi publicada no "Jornal do Commercio" de 19 de junho seguinte, com estes termos:

 

  "Visitamos também o nosso patrício Padre Roberto Landell de Moura, rio-grandense do Sul e que, há uns 5 anos foi vigário em Campinas de São Paulo, e que aqui reside há 3 anos, fazendo estudos sôbre electrecidade. Montou um modesto gabinete e conseguiu descobrir novas interessantes aplicações de electricidade, e sôbre a espécie já obteve do Govêrno americano dois privilégios, e está em vias de alcançar outros. Os jornais de Nova York já se ocuparam honrosamente de seu nome, publicando o seu retrato e diplomando-o se sábio. E distintos engenheiros, em sinal de apreço e consideração, ofereceram-lhe um jantar”.

 

       Logo o padre Landell de Moura voltou ao Brasil, e de Botucatu respondeu a uma carta que havia sido encaminhada, a 28 de março de 1905, pelo Centro de Ciências, Letras e Artes, de Campinas, que em seu conteúdo era um claro tributo da cidade ao religioso que passou por ela, pela Igreja de Santa Cruz. O CCLA fazia um convite para o religioso integrar os seus quadros, com a assinatura de César Bierrenbach, homenageado com estátua  no Largo do Carmo.  O religioso assim respondeu ao documento:

 

“Botucatu, 8 de abril de 1905.

Exmo. Sr. Dr. J. César Bueno Bierrenbach.

Dign. Secretário geral do Centro de Ciências, Letras e Artes.

Exmo. Amigo e Senhor.

  Por intermédio de V. E. tenho a satisfação de notificar aos digníssimos Representantes do Instituto Científico de Campinas, que aceito muitíssimo penhorado o vosso gentil convite para fazer parte dessa bem nascida instituição, na qualidade de sócio correspondente, e que agradecendo com toda efusão de minha alma, faço votos ao Criador, para que, em um futuro não remoto, possais ter ocasião de glorificar, não a mim, mas sim Aquele que em meus estudos e pesquisas científicas me ilumina e guia, para decôro da sotâina que envergo, exaltação da Pátria e bem-estar da humanidade.

  Sou, com toda estima e consideração, de Vossa Excelência, Criado e Amigo muito agradecido.

  (a) P. Roberto Landell de Moura”.

 

 

      A carta do padre Moura é muito clara a respeito de seus propósitos. Era o de servir, com sua inteligência, à “pátria e ao bem estar da humanidade”. Ele pretendeu ratificar esse propósito quando solicitou ao presidente Rodrigues Alves a licença para demonstrar suas experiências utilizando dois navios da Marinha brasileira. Inicialmente houve boa receptividade, mas logo depois a Presidência alegava que o pedido não poderia ser atendido no momento.

 

      Após passagens por Botucatu e Mogi das Cruzes, o padre Landell de Moura voltou ao Rio Grande do Sul. Tornou-se monsenhor a 17 de setembro de 1927 e Arcediago do Cabido Metropolitano de Porto Alegre. Morreu em 30 de julho de 1928. O padre Landell de Moura tornou-se o patrono dos radioamadores brasileiros e das telecomunicações. O antigo Centro de Pesquisas (CPqD) da Telebrás, em Campinas, também o considerou o seu patrono.

 

      Um dos últimos reconhecimentos ao trabalho pioneiro do padre Moura está no livro de Bill Yenne, “100 inventions that shaped world history”, Morton, drGrosser (editor), publicado no Brasil como “100 invenções que mudaram a história do mundo”, pela Ediouro Publicações SA, Prestigio Editorial. Nas páginas 141, 142 e 155, o padre Moura é considerado pioneiro no rádio, antes do italiano Marconi. O livro também considera Alberto Santos Dumont como pioneiro da aviação, antes dos Irmãos Wright, na página 151.

 

 

 

 

 

© desde 25/12/2006 - Basílica Nossa Senhora do Carmo - Campinas - SP - Brasil