Basílica do Carmo:

História de fé no coração de Campinas

 

José Pedro Soares Martins

 

Campinas, Ed.Komedi, 2010

 

 

Apresentação

Introdução

Síntese Introdutória

Primeira Parte

Antecedentes da Paróquia de N.Sra.do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Freguesia

1730-1774

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

1774-1779

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz do Carmo

1779-1870

Segunda Parte

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz Sta.Cruz do Carmo

1870-1938

Fase V

Matriz e Basílica N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

1939-2000

Fase VI

Transição para o Terceiro Milênio

2000 - e o futuro...

 

PARTE I

Antecedentes da Paróquia do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Paróquia

A carteira de identidade de Campinas

Pousos de tropeiros no meio do mato grosso

Busca da autonomia e assistência espiritual

Autorização para ereção da capela

Mandado de Comissão ao Vigário de Jundiaí em vista da construção da capela

A fundação de Campinas e da Paróquia (Freguesia) de N.Sra.da Conceição

Barreto Leme, tradição de desbravamento

Frei Antonio de Pádua Teixeira, o co-fundador

Os outros pioneiros da Cidade e da Igreja

Dom Frei Manuel da Ressurreição, atuação decisiva

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

Largo do Carmo, marco zero de Campinas

Pe. José de Santa Maria Cunha

Inauguração da Matriz

Pe. André da Rocha Abreu

Pe. Manoel Joaquim de Freitas e outros Vigários

Pe. Joaquim José Gomes, a Vila de São Carlos e ideia de nova Matriz

Pe. Fasijó em sua passagem por Campinas

Igreja do Rosário, um marco no centro da cidade

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz

Pe. Manoel José Ferreira Pinto

Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, crítico da escravidão, enquanto Campinas se torna cidade

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

Pe. Dr. João de Almeida Barbosa e o começo da ascensão do café

Primeira visita de Dom Pedro II (1846) e transferência da Matriz para a Igreja do Rosário

Situação do prédio da Matriz Velha

Pe. Antonio Cândido de Mello: novo susto e peste no Paço Municipal

Pe. Joaquim José Vieira, fundador do primeiro hospital de Campinas: a Santa Casa

Polêmica antes da criação da Paróquia de Sta.Cruz

 

Parte II

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz de Sta.Cruz

Criação e instalação da Paróquia de Sta.Cruz, depois do Carmo

Auto de instalação da Nova Freguesia de Sta.Cruz na cidade de Campinas

Matriz de Sta.Cruz do Carmo na década de ouro do café e seu 1º Pároco

2º Pároco, Côn. Nery, no combate à febre amarela: um novo Bispo

Côn. Scipião, 3º Pároco. Pe. Landell de Moura, o "Pai do Rádio"

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

Pe. D'Avila, 4º Pároco de Sta.Cruz do Carmo: Campinas pós febre amarela

Diocese de Campinas, no paroquiato de Côn. Barreto, 5º Pároco do Carmo

Côn. Otávio, 6º Pároco: guerra no mundo, bibliotecas em Campinas

Mons. Ribas D'Avila, 7º Pároco, quando a gripe espanhola assusta Campinas

Côn. Fragoso, 8º Pároco: centenário da Independência e novo Bispo

Côn. Idilio, 9º Pároco: uma nova Matriz, oficialização do nome definitivo da Paróquia do Carmo

Um escultor italo-brasileiro que fez história

Côn. Amaral, 10º Pároco: conclusão da Matriz do Carmo

Lélio Coluccini, o escultor de Campinas

O pintor das igrejas

Fase V

Matriz e Basílica de N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

Côn. Aniger, 11º Pároco e o Congresso Eucarístico

Morte de Dom Barreto

Congresso Eucarístico

Côn. Raphael Roldan, 12º Pároco e o final da II Guerra Mundial

Mons. Lázaro, 13º Pároco: pintura e órgão para a Matriz

Vocação para a música

Côn. Geraldo Azevêdo, 14º Pároco: a Matriz se torna "Basílica do Carmo"

Breve papal de criação da Basílica Menor de N.Sra.do Carmo

1. O título de Basílica e o seu significado histórico

Símbolos da Basílica

2. A Igreja nas ondas do rádio e do povo

3. Campanha da Fraternidade

Celebrações

4. Transformações no Carmo

5. Outras Campanhas

6. Doença de Mons. Geraldo

7. Atuação pastoral e administração

8. Tempo de mudanças

Mais um Bispo do Carmo

9. Reestruturação para o futuro

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Mons. Geraldo

Fase VI

Basílica no Terceiro Milênio

Côn. Pedro Carlos Cipolini, 15º Pároco: o protagonismo dos leigos e a missão na cidade

1. Comunhão e participação

2. Sólida formação para servir

3. Continuidade do restauro da Basílica, agora Patrimônio Histórico

4. Incentivo à participação e acolhimento: pólo missionário

Olhar para a comunicação

Celebrações emocionantes

5. Aprofundando o planejamento

Datas importantes para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 

 

Fase III – Paróquia de Nossa Senhora da Conceição,

 até a divisão e criação da Paróquia de Santa Cruz

 

 

PADRE MANOEL JOSÉ FERREIRA PINTO

 

      Com a morte do padre Joaquim José Gomes, encerrava uma era na história da Igreja de Campinas. Estava consolidada a Paróquia de N.S.da Conceição, em um momento em que a Vila de São Carlos assumia cada  vez mais um perfil urbano, em razão do crescimento da força do café.  

 

      O 11o vigário, padre Manoel José Ferreira Pinto, esteve muito pouco tempo no cargo. Ficou apenas três meses, depois da posse a 8 de outubro de 1831. Mas ele teve tempo de verificar a força cada vez maior da economia cafeeira.

 

      O primeiro pé de café foi plantado na região de Campinas no final do século 18, mais especificamente em Jundiaí, pelo sargento-mor Raimundo Álvares dos Santos. A experiência de Jundiaí parece não ter prosperado, mas a fixação da Corte Portuguesa no Brasil, em 1808, foi o ingrediente decisivo para estimular a cultura cafeeira no País. O produto estava alcançando preços crescentes no mercado internacional e a Corte, pressionada pela invasão do território português por tropas de Napoleão Bonaparte, procurava a qualquer custo novas alternativas econômicas.

 

      A região de Campinas - junto à região do Vale do Paraíba, onde a cultura começou em território paulista no século 18 - foi escolhida para sediar novas tentativas de exploração do café, em escala mais ampla e visando o mercado internacional. Já em 1809 teriam sido plantados os cafezais pioneiros em Campinas.

 

     De acordo com o botânico Joaquim Corrêa de Melo, os primeiros cafezais direcionados para a produção foram plantados em 1817, nas propriedades do capitão Francisco de Paula Camargo e do tenente-coronel Joaquim Aranha Barreto de Camargo. Paula Camargo decidiu iniciar uma plantação em suas terras, tendo estimulado o primo-irmão Barreto de Camargo a fazer o mesmo. As propriedades de Barreto de Camargo correspondem à Fazenda do Mato Dentro, onde está localizado o atual Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim.

 

     O café se consolidou, e foi decisiva para isso a utilização da mão-de-obra escrava.  A futura metrópole adquiria cada vez mais protagonismo político e econômico, mas a marca da escravidão estava presente, e com ela a marca da exclusão social. Não foram poucas as vozes que denunciaram as condições em que viviam (?) os escravos em Campinas, e uma delas, uma das mais fortes, foi a do padre Joaquim Anselmo de Oliveira, que seria o 12o vigário local.

 

 

 

PADRE JOAQUIM ANSELMO DE OLIVEIRA,

CRÍTICO DA ESCRAVIDÃO, ENQUANTO CAMPINAS SE TORNA CIDADE

 

    A utilização do braço escravo foi uma das bases da próspera economia canavieira em Campinas, mas os sinais da instabilidade provocada por essa situação de exploração eram crescentes. A partir da década de 1810 era cada vez maior o número de rebeliões de escravos em Campinas, e uma delas, em 1819, em terras do brigadeiro Luiz Antônio, foi decisiva para estimular os fazendeiros a contribuir com o projeto da Câmara Municipal, de construção da primeira cadeia da Vila.

 

     Mas a instalação da cadeia não foi suficiente para coibir os levantes de escravos, e a descoberta, em 1830, de mais uma suposta rebelião, estimulou os fazendeiros e classe política local a solicitarem reforço policial em São Paulo, além de instalarem três forcas, como forma de prevenção, no Largo de Santa Cruz, Largo de São Benedito (atual praça D.Pedro II) e nas vizinhanças do atual estádio da Associação Atlética Ponte Preta.

 

     A situação dos escravos despertava comiseração e indignação de vastos setores da comunidade. Um dos símbolos da resistência à escravidão foi o padre Joaquim Anselmo de Oliveira, que em seus sermões não se cansava de criticar o regime de força a que os negros eram submetidos, o que levou à reação de alguns fazendeiros.

 

     Padre Anselmo tornou-se o 12o vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Vila de São Carlos a 21 de fevereiro de 1832.  A possibilidade de execração pública do padre  aconteceria em 1835, com a descoberta do roubo de uma lâmpada de prata e resplendores de crisólitos das imagens de santos da Matriz Velha, episódio que, para muitos autores, deve ter sido arquitetado pelos latifundiários interessados em desmoralizar o pároco (10).

 

     Como relata Julio Mariano, o padre Anselmo foi acusado do roubo, sendo levado a julgamento em novembro de 1835. No dia 27 o padre foi absolvido, em tribunal em que se destacou a atuação do seu advogado, o vereador Reginaldo Antônio de Morais Sales.

 

     Em 1836 Campinas já tinha 3919 escravos, na população total de 6689 habitantes. A partir da década de 1840 Campinas foi-se tornando um dos principais centros do mercado negreiro no Brasil. O braço escravo foi se tornando fundamental para a sedimentação da economia cafeeira e, a 5 de fevereiro de 1842, em reconhecimento ao poder do café, a Vila de São Carlos foi transformada na cidade de Campinas.

 

 

 

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

 

      No ano de 1836, o ano em que o número de escravos era mais da metade da população de Campinas, nascia Antônio Carlos Gomes. Aquele cujo túmulo ficaria no local da primeira capela provisória de Campinas, no Largo do Carmo, e que entre suas obras está “Lo Schiavo”. O músico que viajou à Europa para alcançar a glória, por interferência direta do Imperador D.Pedro II, foi batizado pelo padre que defendia os  escravos, e que antecipava o espírito abolicionista e republicano da cidade.

 

“Aos dezenove de julho de mil oitocentos e trinta e seis, nesta matriz batizou e pôs os Santos Óleos o revdmo. Vigário Colado Joaquim Anselmo de Oliveira a ANTONIO, nascido a 11 do mesmo mês, filho legítimo de Manoel José Gomes e Fabiana Maria Cardoso. Padrinhos: Bento da Rocha Camargo e Maria da Candelária, mulher de José Custódio, todos desta paróquia” (L.11 fls. 4 v.).

 

 

      A Matriz Velha, atual Basílica do Carmo, foi o primeiro grande espaço público para o menino Antônio Carlos Gomes, o Tonico, expor sua maestria musical para a população de Campinas. Ele se exibia ao lado do pai, o Maneco Músico, e do irmão que tanto amava, José Pedro. Os tempos eram de alegria inocente, de felicidade inata, que em nada faziam antever a trajetória recheada de sofrimentos e dor do grande artista, apesar do sucesso internacional e do reconhecimento eterno do Brasil à obra do Tonico de Campinas.

 

        A vocação de Carlos Gomes para a música é um legado do pai, Manuel José Gomes, o Maneco Músico, nascido em Parnaíba, em 1792. Ele se fixou em Campinas em 1809, quando se casou pela primeira vez, com Maria Inocência do Céu.  Manuel José Gomes tinha 17 anos e a esposa, 15. O casamento durou pouco. Depois ele se uniu a Anna Thereza de Jesus Garcia, com quem teve uma filha, Marciana Maria.

 

      Novamente a relação foi curta,  e Maneco Músico se enamorou e se ligou  à morena Fabiana Maria Cardoso. O casal teve dois filhos, José Pedro de Sant’ Anna Gomes e Antônio Carlos Gomes, antes do matrimônio oficial, ocorrido a 1o de junho de 1840.

 

     O nascimento de Antônio Carlos Gomes foi a 11 de julho de 1836, no número 50 da rua Matriz Nova, atual Regente Feijó (atual número 1251). A primeira grande tristeza veio quando tinha apenas 8 anos. Ele ficou órfão da mãe que morreu assassinada. O coração do jovem Tonico encheu-se de dor, acendendo uma melancolia que se tornaria mais ou menos perene.

 

     Quando tinha dez anos, Carlos Gomes já tocava “ferrinhos” na banda do pai, de grande fama local. Era 1846, o ano em que D.Pedro II visitou Campinas pela primeira vez. Alguns anos depois o destino dos dois imperadores, do Brasil e da música clássica brasileira, estaria definitivamente ligado. O irmão José Pedro tocava clarineta e violino. Tonico já fazia sucesso pela voz de soprano lírico e por saber tocar quase todos os instrumentos musicais. Claro, ainda era criança, e também gostava das brincadeiras da época.

 

     A paixão pela ópera foi imediata, após ter recebido de presente, aos 15 anos, a partitura do “Trovador”, de Verdi. A Itália entrava na vida de Carlos Gomes, para nunca mais sair. A primeira missa foi composta em 1854. A inspiração veio toda das idas à Matriz Velha, nessa época dirigida pelo padre dr.João de Almeida Barbosa. O religioso era um erudito, que exerceu certa influência sobre o menino Tonico. Toda infância e juventude de Carlos Gomes se desenrolou com o padre à frente da Matriz Velha.

 

       Uma sólida amizade foi iniciada em 1856 entre Carlos Gomes e o jovem judeu Henrique Luis Levy, hóspede na casa do músico. Três anos depois Tonico realizava um sonho, ao abrir um curso de música, tendo Ernest Maneille como sócio.

 

     A Matriz de Nossa Senhora da Conceição foi palco, a 17 de abril de 1859, de uma das primeiras apresentações de Antônio Carlos Gomes. Ele apresentou sua “Fantasia sobre a Alta Noite”durante o Concerto Instrumental de Sábado de Aleluia. O irmão José Pedro, ao piano, e o amigo Henrique Levy, na clarineta, o acompanharam. Estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que assistiram à apresentação, ficaram tão entusiasmados que convidaram os irmãos Gomes a apresentar a “Alta Noite” em São Paulo.

 

      Logo Carlos Gomes se transferiu para a capital paulista. Nessa época compõs a Missa de São Sebastião. Depois se estabeleceu no Rio de Janeiro, para aprofundar seus estudos e tentar a sorte na Corte. O objetivo foi concretizado, quando se matriculou no Conservatório de Música, a 5 de julho de 1859. Daí em diante sua carreira foi brilhante, atingindo o auge com a ópera “O Guarani”, quando ele já vivia em Milão, na Itália, e a obra foi encenada no célebre teatro Scala, em 19 de março de 1870.

 

      O auge do “O Guarani” coincidiu com um momento crítico para a vida de Campinas. O poder do café era cada vez maior, a pequena povoação iniciada por Barreto Leme e pelo Frei Antônio aspirava a adquirir ares metropolitanos por causa do dinheiro e do poder público derivados do “ouro negro”. De fato, a década de 1870 é considerada como a “Década Dourada” da história de Campinas no século 19, pelo elenco de realizações registradas na cidade. E foi nesse cenário frenético que em 1870 aconteceu o desmembramento da Paróquia de N.S.da Conceição, criando-se uma nova, a Paróquia de Santa Cruz do Carmo.

 

      Tonico morreu em Belém, no Pará, a 16 de setembro de 1896, aos 60 anos, ainda esperançoso de rever o querido Juca, como chamava o irmão José Pedro.

 

      Em 1903 foi lançada a pedra fundamental do monumento-túmulo de Carlos Gomes. Não foi um lançamento qualquer. Teve a presença de Alberto Santos Dumont, que havia estudado em Campinas, no Colégio Culto à Ciência, antes de viajar para a Europa para se tornar o “pai da aviação”. Santos Dumont estava no auge, pelos feitos em Paris, e deu total aprovação à vinda a Campinas, que aprendeu a amar e, também, porque comungava do respeito à vida e obra do Tonico.

 

      Concebido pelo escultor Rodolfo Bernardelli, o monumento-túmulo foi inaugurado em 1904. O nome de Carlos Gomes ainda é lembrado pela Praça Carlos Gomes, uma das mais bonitas da cidade, e pelo Museu Carlos Gomes, mantido pelo Centro de Ciências, Letras e Artes. Mas, com o monumento-túmulo, cercado pelos nomes das suas principais composições, e no local onde o Frei Antônio de Pádua Teixeira rezou a primeira missa, Carlos Gomes, o Tonico de Campinas, está agora para sempre, defronte à Igreja que marcou o início de sua brilhante carreira.

 

 

 

PADRE DR. JOÃO DE ALMEIDA BARBOSA  E O COMEÇO DA ASCENSÃO DO CAFÉ

 

      O longo paroquiato do padre dr. João de Almeida Barbosa, entre 1o de setembro de 1838 e dezembro de 1855, foi marcado pela consolidação da cultura do café em Campinas.  Época importante, da elevação da Vila de São Carlos à cidade de Campinas, em 5 de fevereiro de 1842, por determinação do governador de São Paulo, Barão de Monte Alegre. Foi o ano da Revolução Liberal liderada pelo Padre Feijó, que manteve para sempre ligação com Campinas – aqui estavam alguns de seus principais parceiros liberais.

 

      Os liberais desejavam depor o Barão de Monte Alegre e colocar em seu lugar o Brigadeiro Tobias. Sorocaba foi o principal centro da revolta, ao lado de Campinas. Em Sorocaba Feijó editava “O Paulista”, com apoio de Hércules Florence, de Campinas.  O pano de fundo era um conjunto de reformas determinadas pelo governo monárquico, consideradas autoritárias pelos liberais influenciados pelo ideário europeu.

 

      A 7 de junho de 1842, Campinas sediou o episódio mais sangrento da Revolução Liberal. Foi o Combate de Venda Grande, na altura do atual Campo dos Amarais. Enfrentaram-se tropas liberais e soldados do império, muito melhor armados. Os liberais foram esmagados. Os mortos foram enterrados no local, mas os corpos foram depois exumados e enterrados no cemitério municipal. O padre dr.João de Almeida Barbosa, 13o vigário da paróquia, e outros religiosos que atuavam em Campinas foram muito importantes nas cerimônias e outras atividades para marcar a lembrança dos mortos em Venda Grande. 

 

         Nessa época Campinas era dividida em seis distritos de paz. Eram três irmandades religiosas: Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora das Dores e São Benedito. O grande símbolo do poder do café foi a inauguração, em 1850, do Teatro São Carlos, o ícone da nova aristocracia cafeeira que se formava em Campinas.

 

      Mas o crescimento econômico, que se refletia no novo cenário urbano adequado aos gostos e ao pensamento dos cafeicultores, agora moradores em belos palacetes, não blindava a cidade das doenças tropicais. E elas vieram, principalmente a cólera. Novamente o papel do padre dr. João de Almeida Barbosa, das irmandades e outros religiosos atuantes em Campinas foi fundamental, para ajudar a evitar o pânico e dar atendimento e consolo às vítimas.  

 

      Doenças tropicais provocaram milhares de mortes no Brasil, desde a chegada dos primeiros europeus, e os indígenas foram as primeiras grandes vítimas.  Na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso e, depois, na Vila de São Carlos - assim como em todo território paulista - eram freqüentes os casos de varíola.

 

     Por ocasião de um desses surtos, em 1854 - que provocou a morte de vários escravos - nasceu a primeira iniciativa de peso no sentido de construção de um hospital, então denominado lazareto, na cidade de Campinas. O projeto partiu de Joaquim Corrêa de Melo, farmacêutico e botânico respeitadíssimo em escala internacional pelos seus conhecimentos sobre o café, e que na época era delegado de polícia.

 

     De acordo com o projeto, aprovado inicialmente pela Câmara, que era presidida por Antônio Francisco do Amaral Gurgel, seria construído um lazareto (nome obviamente derivado da Doença de Lázaro, a hanseníase, mas estendido a todas as outras doenças), de “25 palmos em quadra, entre as estradas de Sete Quedas e de São Paulo, pegado ao valo do Capitão Elisário de Camargo Andrade”. A construção seria de “madeira roliça, porém de qualidade, e coberto de telhas” (2).

 

      Pelo orçamento considerado alto pelos vereadores, de 216 mil réis, o projeto acabou não saindo do papel. A falta de um hospital se revelaria grave no ano seguinte, 1855, quando a cidade se mobilizou para impedir a instalação de uma epidemia de cólera, e principalmente depois, em 1858, quando a varíola deixou um maior número de vítimas fatais na população, principalmente entre os pobres.  

 

      Não existem registros de casos de cólera na ocasião em Campinas, mas dois anos depois os vereadores pediram recursos ao governo estadual para construir um chafariz na cidade, como reflexo da preocupação sanitária despertada pelo pânico em 1855.

 

     A economia do café vinha possibilitando a estruturação de incipiente parque industrial em Campinas desde a década de 1850, com a criação de unidades como uma fábrica de velas de cera, em 1852, por G.P.Vasconcelos, e em 1853 da marcenaria da viúva Krug. Em 1857 foi fundada a Fábrica de Chapéus de Bierrenbach & Irmãos, marco na história industrial da cidade. Entre 1852-1886 foram instaladas 35 indústrias na cidade.

 

      Em agosto de 1858 os vereadores foram comunicados pelo Tesouro Provincial que seriam liberadas verbas para a instalação de três chafarizes na cidade, medida que se concretizaria, entretanto, somente em 1873. Em setembro Campinas voltaria ao estado de alerta máximo, pela confirmação de casos de varíola na cidade.

 

 

 

Primeira visita de D.Pedro II (1846) e

transferência da Matriz para Igreja do Rosário

 

      A primeira visita de D.Pedro II a Campinas, em 1846, teve especial impacto na vida local. Foi por causa desta visita que se apressou a transferência da sede da Paróquia de N.S. da Conceição da Matriz Velha, que se encontrava quase em ruínas, para a Igreja do Rosário, que havia sido construída em 1817.

 

      As obras de reforma da Igreja do Rosário foram aceleradas para a instalação da sede da Paróquia, e a 26 de março a comitiva imperial chegou em Campinas. Mas os preparativos da visita começaram muito antes, com uma reunião extraordinária da Câmara Municipal, a 14 de outubro de 1845.

 

      Já no dia seguinte a população conhecia o edital anunciando medidas como a limpeza de ruas e melhoria da estrada entre São Paulo e Campinas. Os fundos necessários seriam arrecadados por uma comissão nomeada pela Câmara, e composta a 25 de outubro por Joaquim Moreira de Carvalho, José Joaquim de Sousa Aranha, Antônio de Camargo Campos e José de Sousa Campos.

 

      O clima político local ainda era tenso, em função da Revolução Liberal de 1842 e particularmente do Combate de Venda Grande. Muitos líderes locais se recusaram a participar dos preparativos à visita de d.Pedro II, mas na prática a nova cidade de Campinas estava aguardando com ansiedade a presença imperial.

 

      A grande atração da visita foram as cavalhadas, muito tradicionais. Os cavaleiros ensaiaram por um mês. O sobrado de Felisberto Pinto Tavares foi transformado em Paço Imperial durante a visita de d.Pedro II, que durou até o dia 30 de março de 1846. O padre dr.João de Almeida Barbosa participou de praticamente todas as atividades públicas durante a visita de d.Pedro II.

 

      Mas a visita imperial deixou seqüelas. Várias sessões da Câmara Municipal, em 1846, foram consumidas para a discussão de como seriam cobertos os gastos com a passagem de Pedro II. Os recursos levantados não tinham sido suficientes. Restava um débito de dois contos de réis. Houve um apelo a 34 grandes proprietários rurais, e muitos se recusaram a contribuir.

 

      A 14 de setembro a Câmara foi comunicada pelo imperador de que este doaria um conto de réis para ajudar a cobrir os gastos. Mas ainda restava algum débito, que acabou sendo finalmente rateado entre alguns vereadores.

 

 

 

Situação do prédio da Matriz Velha

 

      As conseqüências para a vida da Igreja demoraram ainda mais. A Igreja do Rosário continuaria a sediar a Paróquia, até 1852. A assim chamada na época Matriz Velha, em más condições físicas, continuava dependente do apoio da comunidade para permanecer de pé.

 

      Entre 1846 e 52 o mestre carapina alferes Francisco Ferreira Pires coordenou as obras de instalação de assoalho na Matriz Velha. Foram também instalados um novo forro de madeira e novas alas laterais, alargando-se a proporção da Igreja. O comerciante Antônio Francisco Guimarães, o “Bahia”, emprestou dinheiro para as obras, e em 1854 protestou com relação à demora pelo ressarcimento, perante a Câmara Municipal.

 

      Foi então que se registrou um dos fatos mais críticos para a biografia da primeira Matriz. O “Bahia” propôs que o prédio da Matriz, na época bastante danificado, fosse colocado à venda para que ele fosse ressarcido dos recursos investidos. E a Câmara Municipal efetivamente chegou a debater a possibilidade nesta circunstância. José Francisco de Paula liderava uma associação interessada em comprar o edifício, para ser transformado na Capela do Bom Jesus. 

 

      Essa associação era sediada no Cambuí onde hoje é a praça Imprensa Fluminense. Era uma irmandade com sua capelinha onde se venerava uma imagem do Bom Jesus.

 

      Por muito pouco o negócio não foi concretizado. A Assembléia Provincial chegou a aprovar uma lei, a de número 17, de 20 de abril de 1854, autorizando a venda. Faltou recursos suficientes para a associação adquirir o prédio, que acabou sendo restaurado e novamente utilizado pela população. A dívida com o “Bahia” foi parcelada e quitada. Na época o “Bahia” era, ainda, um dos líderes da construção da Matriz Nova, que seria inaugurada apenas em 1883.

 

     A hipótese da venda da Matriz Velha foi, entretanto, apenas um episódio das série de ameaças que pairaram sobre a continuidade da existência da primeira igreja de Campinas. Mas ela resistiria, de pé, como se verá depois.

 

    Enquanto a polêmica perdurava, a vida religiosa prosseguia. Em 1847 aconteceu a reorganização da Irmandade do Sacramento.

 

 

 

PADRE ANTÔNIO CÂNDIDO DE MELLO:

NOVO SUSTO E PESTE NO PAÇO MUNICIPAL

 

      O 14o vigário da Paróquia de N.S.da Conceição, padre Antônio Cândido de Mello, permaneceu no cargo entre 30 de dezembro de 1855 e 28 de agosto de 1860. Curto mais intenso período, com nova e intensa mobilização por causa de um surto de varíola, em setembro de 1858. 

 

     O sinal vermelho foi acionado pelo delegado de polícia. Dois presos, um deles José Teodoro Ferraz, estavam com varíola, então conhecida como “peste das bexigas”, e isso em pleno Paço Municipal, uma vez que na época a cadeia funcionava no mesmo prédio da Câmara de vereadores, onde seria instalada depois a estátua de Carlos Gomes.

 

     O presidente da Câmara, Henrique Pupo de Moraes, determinou a imediata interdição do Paço, e sugeriu como medidas emergenciais a instalação de bandeiras na porta das casas dos doentes, a vacinação dos presos e, de novo, a preparação de um lazareto, para acomodar as vítimas, o que seria concretizado, mas de forma improvisada (5).

 

     Não é conhecido o número exato de vítimas de varíola no surto de 1858-59, mas o susto foi suficiente para sensibilizar importantes segmentos sociais, para a necessidade de uma maior atenção aos excluídos. Foi assim que, a 4 de fevereiro de 1862, os vereadores recebiam um ofício do mesmo Joaquim Corrêa de Melo, pedindo recursos para a construção de um lazareto destinado às vítimas pobres da varíola.

 

     De acordo com o ofício, a Câmara se encarregaria de construir o lazareto, cabendo à Sociedade Beneficente presidida por Corrêa de Melo financiar os atendimentos e remédios aos doentes carentes. Por sugestão do vereador João Ataliba Nogueira, futuro Barão de Ataliba, o lazareto seria instalado em prédio alugado pela Câmara. Somente em 1862 a Sociedade Beneficente presidida por Corrêa de Melo investiu 400 mil réis na compra de remédios para os doentes pobres (6).

 

     Considerado um dos nomes centrais da fase “heróica” da ação social em Campinas, Joaquim Corrêa de Melo foi uma personagem típica da fase de transição que estava sendo vivida em Campinas, do lugarejo eminentemente rural do tempo da cana para a cidade do café. Nome importante da botânica mundial, foi premiado em 1868 pela Sociedade Imperial e Central de Horticultura, da França, e era interlocutor freqüente de D.Pedro II.

 

 

 

PADRE JOAQUIM JOSÉ VIEIRA  FUNDADOR

D O PRIMEIRO HOSPITAL DE CAMPINAS:  A SANTA CASA

 

     O padre Vieira sempre teve uma grande identificação com a cidade, apesar de ter nascido em Itapetininga, em 1836, mesmo ano do nascimento de Antônio Carlos Gomes. Ordenado em Itu, a 25 de março de 1860, ficou conhecido em Campinas como o “Vigarinho”, por seu porte físico e por sua humildade e simpatia.

 

      Um episódio de natureza política reforçou a empatia popular com o “Vigarinho”. Em 1863, quando estava no terceiro ano do paroquiato, o padre Vieira candidatou-se ao posto de “vigário colado”. E foi o melhor colocado no concurso aberto pelo governo provincial. Mas acabou não sendo nomeado e, embora continuando como padre avulso, prosseguiu em suas obras, como na campanha que levou à construção da Santa Casa.

 

     Na década de 1860, mais especificamente durante o paroquiato do padre Joaquim José Vieira (1860-1864), foram lançadas as sementes da construção em Campinas de uma Santa Casa de Misericórdia, espelhada nas instituições semelhantes que proliferavam pelo território brasileiro, a partir da fundação da primeira Santa Casa, a de Santos, em 1543.

 

      Anteriormente, em vários momentos se falou na criação de uma unidade em Campinas. Em 1817 a Câmara Municipal debateu projeto de uma Santa Casa, que seria construída em terras doadas pelo tenente-coronel Antônio Francisco Pereira.

 

     Por vários motivos o projeto foi adiado, e somente nas décadas de 1860 e 1870 as condições ficaram prontas. O líder da nova iniciativa foi, de fato, o padre Joaquim José Vieira, embora a inauguração tenha ocorrido em 1876, quando já havia acontecido o desmembramento da Paróquia de N.S. da Conceição.

 

     Uma doação, de Maria Felicíssima de Abreu Soares, viúva do comendador Joaquim José Soares de Carvalho, possibilitou patrimônio suficiente ao início de construção da Santa Casa.

 

    A pedra fundamental foi lançada a 19 de novembro de 1871, e novas doações, de pessoas anônimas e célebres, como o próprio imperador D.Pedro II e empresários como Antônio Francisco Guimarães, o “Bahia”, viabilizaram a construção do primeiro prédio da Santa Casa, finalmente inaugurado a 1o de outubro de 1876 (15). Os Irmãos Bierrenbach e a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro também deram expressivas contribuições à instituição, denominada inicialmente de Hospital de Charidade.

 

     Para dirigir o cotidiano da Santa Casa foram nomeadas três Irmãs de São José. A superiora seria irmã Ana Felicité Del Carreto. O primeiro provedor, cargo que ocupou até 1883, quando nomeado bispo do Ceará, foi o padre Vieira. A primeira mesa administrativa, eleita a 6 de fevereiro de 1876, tinha ainda como integrantes Bento Quirino dos Santos (tesoureiro), Luís Silvério Alves Cruz (secretário) e Francisco Alves de Almeida Sales (procurador), além de 12 mesários (16). O mesmo Pe. Vieira fundou a Irmandade de Misericórdia de Campinas, constituída para gerir o hospital, teve 302 pessoas matriculadas.

 

     Durante sua história a Santa Casa recebeu doações generosas, como de Joaquim de Sousa Campos Júnior, Salustiano Penteado, Severo Penteado, Antônio Correia de Lemos e Rafael Gonçalves, mas a instituição pôde prestar inúmeros serviços à comunidade principalmente pelas doações anônimas e  diversas campanhas de auxílio.

 

     Em pouco tempo a Santa Casa de Campinas confirmou o cumprimento dos princípios com que foi criada. Entre 1878 e 79 a Santa Casa atendeu 337 pacientes, dos quais 220 classificados como brancos pobres, 107 escravos e 10 livres (17). No período 1883-85 o livro de registros indicou o atendimento a 1.410 pessoas, escravos em sua maioria.

 

     Como muitos dos pobres doentes, sobretudo os escravos, acabavam morrendo (entre junho de 1880 e junho de 1881 foram registrados 29 óbitos de escravos entre os117 pacientes atendidos na Santa Casa), foi logo amadurecendo a idéia dos criadores da Santa Casa, de estruturação de uma outra instituição, para abrigar os órfãos das famílias pobres.

 

     Uma das preocupações evidentes dos envolvidos era com o destino dos órfãos, principalmente das mulheres, que poderiam seguir o caminho da prostituição. Foi assim que se criou, a 15 de agosto de 1878, o Asilo das Órfãs.

 

     Depois de funcionar precariamente como externato o Asilo foi inaugurado, para abrigar meninas em regime de internato, a 15 de agosto de 1890, no auge das epidemias de febre amarela. Como parte dos esforços pela conclusão do Asilo, necessária diante do avanço da doença que devastava a cidade, foi lançada uma poliantéia, coletânea de poesias que teve a participação do próprio Machado de Assis, entre outros nomes de projeção no cenário intelectual brasileiro (18).

 

       O Asilo das Órfãs era mais uma obra resultante do movimento iniciado pelo padre Vieira. O reconhecimento da cidade à sua atuação está no busto do religioso, colocado nos jardins da Santa Casa, defronte à porta da Capela.

 

      A 3 de  fevereiro de 1883 o padre Vieira foi indicado para o bispado do Ceará, por decreto imperial, confirmado a 9 de dezembro do mesmo ano pelo papa Leão XIII. Tomou posse a 24 de fevereiro de 1884, e pediu renúncia a 16 de setembro de 1912, após 28 anos de episcopado. Voltando a Campinas, o primeiro bispo que saiu da cidade passou a residir na Santa Casa, onde faleceu, a 8 de julho de 1917, e onde seus restos mortais foram enterrados. Depois os restos mortais foram transferidos para a Cripta da Catedral de Campinas.

 

 

 

POLÊMICA ANTES DA CRIAÇÃO DA PARÓQUIA DE SANTA CRUZ

 

      O vicariato do padre José Joaquim de Souza e Oliveira, o 16o da Paróquia de N.S.da Conceição, foi um dos mais polêmicos  da história local. Foi nesse período que a Paróquia foi desmembrada, com a criação da paróquia de Santa Cruz. A Paróquia de N.S. Conceição foi instalada provisoriamente na Igreja do Rosário, como já foi relatado, até sua definitiva instalação na Matriz Nova, inaugurada em 1883. A Paróquia de Santa Cruz (depois Paróquia de N.S.do Carmo e Basílica) foi instalada na então chamada  Matriz Velha. Também no período foi fundada a Irmandade do Espírito Santo.

 

      Os registros históricos indicam que razões políticas e econômicas levaram à divisão da paróquia em duas, ao contrário do que estava previsto e que era somente a transferência da sede da paróquia que passaria para a Matriz Nova, continuando porém a cidade a ter uma única paróquia. Mas não foi o que aconteceu. Algumas posturas do padre José Joaquim de Souza e Oliveira que contribuíram para precipitar os acontecimentos. Natural de Pernambuco, o primeiro vigário negro da Paróquia de N.S. da Conceição tomou posse a 24 de abril de 1864.

 

      O padre Oliveira entrou em conflito com um dos principais líderes locais, o comerciante Antônio Francisco Guimarães, o “Bahia”, porque a Irmandade do Santíssimo, dirigida por este, vetava o ingresso de “homens de cor” como o religioso. O padre Oliveira criou uma nova Irmandade, a do Santíssimo (que existe até hoje, com sede na Catedral), o que naturalmente provocou animosidade entre adeptos das duas organizações.

 

      Mas o padre Oliveira não deixou de abençoar a 16 de novembro de 1865 os alicerces da torre da Matriz Nova, cujas obras eram dirigidas pelo próprio “Bahia”. As divergências pareciam superadas, inclusive porque a cidade, assim como todo país, passou a ter atenções concentradas na Guerra do Paraguai (1864-1870), para a qual foram deslocados vários campineiros, muitos de famílias tradicionais.

 

   Mas a controvérsia voltou, quando em 1869 o padre Oliveira solicitou da Câmara Municipal apoio para reformar a Matriz Velha, novamente em situação crítica. Após vistoria feita por uma comissão proposta pelo vereador dr.Ricardo Glumbeton, a Câmara propôs ao vigário a transferência provisória da sede da Paróquia novamente para a Igreja do Rosário (o que já tinha acontecido, de 1846 a 1852), enquanto fossem executadas obras de reparo na Matriz Velha, ao mesmo tempo em que prosseguiram as obras da Matriz Nova (hoje Catedral).

 

      Nesse momento cresceram os rumores de que estava sendo preparado o desmembramento da Paróquia de N.S.  da Conceição, com a conseqüente criação de uma nova Paróquia. A sede da Paróquia de N.S. da Conceição seria transferida para a Matriz Nova, que continuava em obras. A nova Paróquia teria como sede, como realmente aconteceria, na Matriz Velha.

 

       Uma ação do padre Oliveira teria contribuído para acelerar o rumo da história. Ele solicitou o apoio da Câmara Municipal para que o desmembramento não fosse concretizado. Cinco vereadores chegaram a apoiar o pedido, encaminhado à Assembléia Provincial. Foi então que o padre Oliveira teve a idéia de promover a retirada das imagens da Matriz Velha, além de decidir pelo seu destelhamento. Era clara a intenção de demolição da Igreja, como obstáculo à criação de nova Paróquia, o que significaria a perda de poder do padre, pois a cidade contaria com mais uma paróquia e outro pároco.

 

      De novo, como em 1854, a Matriz Velha, atual Basílica do Carmo, por pouco não foi colocada no chão. Mas de novo ela resistiu de pé, pois o gesto do padre Oliveira foi duramente contrastado por duas medidas da Câmara Municipal. Uma, de crítica à medida do vigário, pelo impacto que ela teria na comunidade. Outra, dirigida ao bispado de São Paulo, para que fosse solicitada do padre Oliveira a imediata devolução das imagens retiradas da Matriz Velha.

 

      O bispado fez ainda mais do que isso. No dia 4 de maio de 1870 foi confirmada a divisão da Paróquia de N.S. da Conceição, com a criação da Paróquia de Santa Cruz. 

 

       A Paróquia da Conceição efetivamente funcionou na Igreja do Carmo, antes de transferência para a Matriz Nova (hoje Catedral). A de Santa Cruz seria sediada na Matriz Velha, que viveu uma crítica etapa de transição. O estado de conservação era o mais delicado possível. O primeiro pároco, que seria o padre Francisco de Abreu Sampaio, a encontraria assim, destelhada, sendo a sua reforma, com a viabilização para a continuidade dos atos religiosos, a sua prioridade máxima.

 

      Nesta conjuntura, estando a Matriz Velha em estado precário  e sendo elevada a Matriz da nova Paróquia de Santa Cruz, a Matriz da nova paróquia funcionou por um breve espaço de tempo na Capela Santa Cruz, no Largo Santa Cruz.

 

      O padre José Joaquim de Souza Oliveira continuou sendo o vigário da Paróquia de N.S. da Conceição após o desmembramento. A Paróquia funcionou na Igreja do Rosário de 1870 a 1883, quando a sede foi transferida para a Matriz Nova. O padre Oliveira ainda permaneceu como o pároco titular até 1885.

 

      O pano de fundo econômico e político para a criação de uma nova Paróquia era naturalmente o do crescimento populacional de Campinas, por força do crescente poder econômico derivado da cultura do café. A década de 1870 seria considerada como a Década de Ouro de Campinas, por força do “Ouro negro” do café. A aristocracia cafeeira demandava novos símbolos de seu poderio. A Matriz Nova, depois Catedral Metropolitana, com seu impressionante acervo artístico e arquitetônico, era um deles. A assim chamada Matriz Velha, por seu lado, lutou por muito tempo para se manter de pé e consolidar-se, passando por sucessivas reformas, até a sagração como Basílica, em 1974. 

           

      Já que o objetivo deste trabalho é relatar a história da Paróquia Nossa Senhora do Carmo – Basílica do Carmo, é necessário registrar que aqui termina a primeira etapa de sua história, que na verdade é  a de seus antecedentes. Constitui fato inusitado e singularíssimo que se crie uma nova paróquia com outra nomenclatura, tendo a Matriz no exato local onde funcionava a Matriz de uma paróquia que foi “transplantada”.

 

      Assim, podemos concluir que se a história tivesse seguido a opinião do Bispo de São Paulo, Dom Mateus de Abreu Pereira, a Matriz Nova seria construída no mesmo local da primeira Matriz e a Matriz do Carmo (que conservaria seu titular Nossa Senhora da Conceição) seria hoje a Catedral de Campinas. Mas os fatos tomaram outra direção como constatamos e nasce assim uma nova paróquia, a qual é objeto deste livro.

 

 

 

 

 

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