Basílica do Carmo:

História de fé no coração de Campinas

 

José Pedro Soares Martins

 

Campinas, Ed.Komedi, 2010

 

 

Apresentação

Introdução

Síntese Introdutória

Primeira Parte

Antecedentes da Paróquia de N.Sra.do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Freguesia

1730-1774

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

1774-1779

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz do Carmo

1779-1870

Segunda Parte

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz Sta.Cruz do Carmo

1870-1938

Fase V

Matriz e Basílica N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

1939-2000

Fase VI

Transição para o Terceiro Milênio

2000 - e o futuro...

 

PARTE I

Antecedentes da Paróquia do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Paróquia

A carteira de identidade de Campinas

Pousos de tropeiros no meio do mato grosso

Busca da autonomia e assistência espiritual

Autorização para ereção da capela

Mandado de Comissão ao Vigário de Jundiaí em vista da construção da capela

A fundação de Campinas e da Paróquia (Freguesia) de N.Sra.da Conceição

Barreto Leme, tradição de desbravamento

Frei Antonio de Pádua Teixeira, o co-fundador

Os outros pioneiros da Cidade e da Igreja

Dom Frei Manuel da Ressurreição, atuação decisiva

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

Largo do Carmo, marco zero de Campinas

Pe. José de Santa Maria Cunha

Inauguração da Matriz

Pe. André da Rocha Abreu

Pe. Manoel Joaquim de Freitas e outros Vigários

Pe. Joaquim José Gomes, a Vila de São Carlos e ideia de nova Matriz

Pe. Fasijó em sua passagem por Campinas

Igreja do Rosário, um marco no centro da cidade

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz

Pe. Manoel José Ferreira Pinto

Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, crítico da escravidão, enquanto Campinas se torna cidade

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

Pe. Dr. João de Almeida Barbosa e o começo da ascensão do café

Primeira visita de Dom Pedro II (1846) e transferência da Matriz para a Igreja do Rosário

Situação do prédio da Matriz Velha

Pe. Antonio Cândido de Mello: novo susto e peste no Paço Municipal

Pe. Joaquim José Vieira, fundador do primeiro hospital de Campinas: a Santa Casa

Polêmica antes da criação da Paróquia de Sta.Cruz

 

Parte II

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz de Sta.Cruz

Criação e instalação da Paróquia de Sta.Cruz, depois do Carmo

Auto de instalação da Nova Freguesia de Sta.Cruz na cidade de Campinas

Matriz de Sta.Cruz do Carmo na década de ouro do café e seu 1º Pároco

2º Pároco, Côn. Nery, no combate à febre amarela: um novo Bispo

Côn. Scipião, 3º Pároco. Pe. Landell de Moura, o "Pai do Rádio"

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

Pe. D'Avila, 4º Pároco de Sta.Cruz do Carmo: Campinas pós febre amarela

Diocese de Campinas, no paroquiato de Côn. Barreto, 5º Pároco do Carmo

Côn. Otávio, 6º Pároco: guerra no mundo, bibliotecas em Campinas

Mons. Ribas D'Avila, 7º Pároco, quando a gripe espanhola assusta Campinas

Côn. Fragoso, 8º Pároco: centenário da Independência e novo Bispo

Côn. Idilio, 9º Pároco: uma nova Matriz, oficialização do nome definitivo da Paróquia do Carmo

Um escultor italo-brasileiro que fez história

Côn. Amaral, 10º Pároco: conclusão da Matriz do Carmo

Lélio Coluccini, o escultor de Campinas

O pintor das igrejas

Fase V

Matriz e Basílica de N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

Côn. Aniger, 11º Pároco e o Congresso Eucarístico

Morte de Dom Barreto

Congresso Eucarístico

Côn. Raphael Roldan, 12º Pároco e o final da II Guerra Mundial

Mons. Lázaro, 13º Pároco: pintura e órgão para a Matriz

Vocação para a música

Côn. Geraldo Azevêdo, 14º Pároco: a Matriz se torna "Basílica do Carmo"

Breve papal de criação da Basílica Menor de N.Sra.do Carmo

1. O título de Basílica e o seu significado histórico

Símbolos da Basílica

2. A Igreja nas ondas do rádio e do povo

3. Campanha da Fraternidade

Celebrações

4. Transformações no Carmo

5. Outras Campanhas

6. Doença de Mons. Geraldo

7. Atuação pastoral e administração

8. Tempo de mudanças

Mais um Bispo do Carmo

9. Reestruturação para o futuro

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Mons. Geraldo

Fase VI

Basílica no Terceiro Milênio

Côn. Pedro Carlos Cipolini, 15º Pároco: o protagonismo dos leigos e a missão na cidade

1. Comunhão e participação

2. Sólida formação para servir

3. Continuidade do restauro da Basílica, agora Patrimônio Histórico

4. Incentivo à participação e acolhimento: pólo missionário

Olhar para a comunicação

Celebrações emocionantes

5. Aprofundando o planejamento

Datas importantes para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 

 

Fase II – Instalação da Paróquia N. Sra. da Conceição

 

LARGO DO CARMO,  MARCO ZERO DE CAMPINAS

 

      Largo do Carmo é como é conhecido hoje o espaço compreendendo a praça Bento Quirino, local onde foi erguida a primeira Igreja, a Matriz Velha, antecessora da Basílica do Carmo. Esse é o território considerado como o marco zero de Campinas. Foi a partir desse espaço – ou seja, a partir de onde estavam as primeiras Igrejas construídas na cidade (a capela provisória e a Matriz) – que se deu o arruamento de Campinas, a organização do espaço urbano.

 

       O arruamento de Campinas foi de fato estabelecido a partir do sítio da primeira igreja, e a cidade toda, a partir de sua área central, foi desenhada a parir dos contornos da paróquia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso, que abrangia originalmente todo o território da freguesia. A Paróquia seria desmembrada em 1870, com a criação da Paróquia de Santa Cruz, hoje do Carmo.

 

      No Largo do Carmo esteve, durante décadas, o Paço Municipal, compreendendo o prédio da Câmara Municipal, e cadeia pública e Fórum. Em 1870, ano da divisão da Paróquia da Conceição, o Largo do Carmo foi objeto de um projeto de embelezamento. Um ano depois o lado oposto, onde hoje está o monumento-túmulo, recebeu um mercadinho.

 

      Em 1889, a praça onde estava a Matriz Velha foi batizada de Bento Quirino, por iniciativa do vereador Ricardo G.Daunt. Bento Quirino foi um importante líder republicano, empresário e benemérito.

 

     Em 1925 a praça Antônio Pompeu, contígua à praça Bento Quirino, recebeu o prédio do Jockey Club Campineiro. É um edifício ornamentado no estilo Luis XVI, projetado pelo arquiteto Christiano Stockler das Neves, formado na Universidade da Pensylvania. O estilo arquitetônico do Largo do Carmo, segundo muitos especialistas, tem influências de Camilï Sitte, importante urbanista italiano. Vários outros prédios históricos foram erguidos ao longo do tempo nesse espaço de duas praças. Caso do Palacete Ambrust, projetado por Ramos de Azevedo, um dos mais importantes arquitetos da história brasileira e que assinou várias obras em Campinas antes de se transferir para São Paulo. Também no Largo do Carmo ficava localizada a Casa do Livro Azul, durante muito tempo point dos intelectuais campineiros. Enfim, a vida cultural, política, econômica e religiosa de Campinas passa obrigatoriamente por esse local, onde começou o núcleo urbano e onde hoje pontifica a Basílica do Carmo.

 

 

 

PADRE JOSÉ DE SANTA MARIA CUNHA

 

      Frei Antônio de Pádua Teixeira foi substituído a 23 de março de 1779 pelo padre José de Santa Maria Cunha, segundo vigário da Paróquia de N.S.Conceição. Foi um período de transição, entre os momentos pioneiros da capela provisória até a instalação da primeira igreja definitiva, a Matriz, já no local onde hoje está a Basílica do Carmo.

 

      O segundo vigário de Campinas dedicou-se, pois, à continuidade das obras da primeira igreja, que seguiram ao ritmo do crescimento da importância da cana-de-açúcar para a vida da cidade e do Brasil. Com a atuação dos familiares de Frei Antônio e outros mineiros, atraídos pela nova povoação, o açúcar adquiriu importância cada vez maior na vida local. Estava sendo preparado o terreno para o tempo dos “engenheiros”, os donos dos grandes engenhos de cana da região.

 

      Em 1775 Campinas já tinha cinco bairros. O quinto dele, conforme um documento de 13 de maio de 1775, era o da Paragem do Atibaia, depois Arraial e finalmente Distrito de Sousas, em homenagem à família do Capitão José de Sousa de Siqueira.

 

      Ainda em 1775 também eram registrados os bairros de Anhumas e o de Campo Grande. Em 1776 foram registrados os bairros de Pinheiros, Brumado e Piçarrão. Note-se que os bairros tinham geralmente o nome de rios, que eram a grande referência geográfica na época.

 

     A paróquia se mantinha praticamente à base de esmolas. O padre as pedia aos tropeiros que acampavam nos “campinhos”.            

 

 

 

INAUGURAÇÃO DA MATRIZ

 

      O dia 25 de julho de 1781 foi de muita emoção e júbilo para os moradores da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso, já em constante crescimento. Nessa data o terceiro vigário de Campinas, Frei José de Monte Carmelo Siqueira, que estava no cargo desde 14 de fevereiro daquele ano, abençoou a Igreja Matriz de N.S.Conceição, para onde foi transferida a imagem da padroeira no dia seguinte (cf Mello Pupo, página 53). A imagem hoje pode ser vista no Museu da Arquidiocese de Campinas, que funciona na Catedral.

 

       Foi no mesmo dia que Frei José de Monte Carmelo Siqueira, outro franciscano como o vigário pioneiro, celebrou a primeira missa na Matriz. No documento em que o Frei José de Monte Carmelo registra a inauguração, hoje depositado no livro do Tombo, ele assinala ter recebido licença do bispo D.Frei Manoel da Ressurreição, também franciscano.

 

      A Matriz era uma Igreja constituída por uma capela-mor de 8,80 metros de comprimento por 7,04 metros de largura, além de uma nave de 18,70 metros de comprimento e os mesmos 7,04 metros de largura da capela-mor. Até 1806 era um templo sem forro e com piso de terra socada.

 

      O paroquiato de Frei José foi muito curto. Ele praticamente inaugurou e deu os primeiros passos da Matriz, que sucedia à capela provisória que por sete anos sediara a Paróquia. Todos os seis vigários seguintes, até o padre Bernardo de Sampaio barros, tiveram paroquiatos curtos, de um a no máximo três anos.

 

     Depois de Frei José de Monte Carmelo o pároco foi Inácio José da Conceição Cintra. Ficou pouco à frente da paróquia, de 23 de junho de 1782 a 18 de janeiro de 1785.

 

 

 

PADRE ANDRÉ DA ROCHA ABREU

 

     Durante o paroquiato de padre André da Rocha Abreu, quinto vigário, de 2 de fevereiro de 1785 a 19 de janeiro de 1788, foi registrado o primeiro passo do movimento que elevaria a Freguesia de Campinas à Vila de São Carlos, refletindo a força cada vez maior da economia açucareira. Em 19 de maio de 1787 o vigário emitiu parecer favorável à indicação de um capitão agregado para a Freguesia das Campinas do Mato Grosso. Seria um novo diretor, cargo vago há seis anos, após a morte de Francisco Barreto Leme.

 

      Moradores da Freguesia haviam encaminhado petição nesse sentido ao capitão geral da Capitania, com a alegação de que um capitão agregado, entre outras atribuições, seria muito útil para a conclusão da Matriz, que tinha sido inaugurada seis anos antes mas ainda necessitava de obras. O capitão geral pediu então um parecer ao vigário, padre André, que foi positivo, mas mesmo assim a nomeação aconteceria apenas dois anos depois, durante o paroquiato de padre Manoel Joaquim de Freitas. 

 

      Também durante o paroquiato do padre André da Rocha Abreu, foi concedida a autorização para a trasladação dos ossos que estavam enterrados na primitiva capela provisória para a Matriz. Isso foi a 7 de novembro de 1787. “Sem os mortos a primitiva igreja deve ter sido demolida; o lugar que ocupou, já estava vago em 1797 quando foi demarcado para a construção dos paços do Conselho e cadeia” (Mello Pupo, “Campinas seu berço e juventude”, página 44). 

 

 

 

PADRE MANOEL JOAQUIM DE FREITAS

E OUTROS VIGÁRIOS

 

      O sexto titular da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, padre Manoel Joaquim de Freitas, permaneceu de 3 de fevereiro de 1788 a 14 de agosto de 1790. Nesse período, precisamente a 16 de novembro de 1788 o capitão geral da Capitania, Bernardo José de Lorena, recebeu uma lista tríplice, encaminhada pela Câmara Municipal de Jundiaí, para que ele escolhesse entre eles um capitão agregado para a Freguesia de Campinas.

 

      Os nomes apresentados eram os de Antônio Barbosa, Antônio Ferraz de Campos e Felipe Néri Teixeira, irmão do Frei Antônio de Pádua Teixeira. Felipe Néri Teixeira foi escolhido e nomeado capitão, finalmente, a 2 de julho de 1789, ficando no cargo até final de 1792.

 

      Nesse período, a paróquia teve o sétimo vigário, padre Leandro Manoel Ribeiro, de 8 de setembro de 1790 a 21 de dezembro de 1791. E o oitavo vigário, padre Roque Gonçalves Cunha, que ficou no cargo de 6 de janeiro de 1792 a 6 de agosto de 1795.

 

      Também nesse período foi fortalecido o sentimento dos moradores de Campinas, de que a Freguesia já tinha condição de se elevar à condição de Vila. Ainda em 1792 o capitão geral determinou a criação de uma companhia autônoma em Campinas. Antônio Ferraz de Campos foi nomeado o novo capitão, em substituição a Felipe Néri Teixeira.  

 

       Os anos que antecederam a elevação à Vila tiveram o padre Bernardo de Sampaio Barros como nono titular da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. O paroquiato durou de 6 de setembro de 1795 a 6 de agosto de 1797.

 

      Foi somente nesse paroquiato que começou a ser viabilizada uma casa para concentrar os donativos. Durante muito tempo o Frei Francisco de Porciúncula foi o esmoler da paróquia.

 

 

 

PADRE JOAQUIM JOSÉ GOMES, A VILA DE SÃO CARLOS E IDÉIA DE NOVA MATRIZ

 

      O padre Joaquim José Gomes, décimo vigário de Campinas, cujo paroquiato durou 34 anos, entre 1797 e 1831, foi fundamental no processo que levou à elevação da Freguesia à condição de Vila de São Carlos, dado o seu prestígio religioso e político. Foi um momento crucial para a vida política e econômica local,  que assistiu à transição da economia açucareira para o Ciclo do Café, e quando o núcleo urbano foi assumindo o perfil que teria em definitivo.

 

       A evolução da economia açucareira foi relativamente rápida em Campinas, alavancada pelos preços cada vez mais elevados no mercado internacional, que alcançaram um recorde em 1796, e um dos efeitos foi o fortalecimento do poder político dos senhores de engenho.

 

      Em 1797, a produção de cana em Campinas atingiu 17 mil arrobas, contra as 50 mil produzidas em Itu. A Freguesia já alcançava o status de grande centro econômico e, a 16 de setembro de 1797, o capitão-geral da Capitania, Antônio Manuel de Melo e Castro Mendonça, autorizou a elevação à vila com nome de Vila de São Carlos, mudando assim o nome da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso.

 

      O capitão-geral atendeu ao pedido de 47 “homens bons” que, liderados pelo vigário Joaquim José Gomes, encaminharam pedido pela elevação da Freguesia à Vila. O religioso anexou ao pedido uma certidão da existência em Campinas de 61 “homens bons”, ou seja, de proprietários de terras e outras pessoas “ilustres” que poderiam compor os cargos que seriam criados com a fundação da Vila.

 

      A Vila de São Carlos foi instalada a 14 de dezembro de 1797, com a implantação do tradicional pelourinho (feito de cabreúva, madeira abundante na época) na praça da igreja matriz (hoje Largo do Carmo). No dia seguinte, 14 de dezembro, foi eleita a primeira composição da Câmara Municipal.

 

      Foram eleitos: José Barbosa da Cunha (primeiro advogado de Campinas, formado na Universidade de Coimbra), Bernardo Guedes Barreto (filho de Barreto Leme), José Gonçalves César, José da Rocha Camargo e Francisco Camargo Pimentel. Mas os eleitos logo seriam depostos, em um episódio que significou a primeira crise política em Campinas.

 

      Os primeiros ocupantes da Câmara Municipal – que pelo sistema lusitano também funcionava como governo local – se recusaram a incluir o nome de Raimundo Álvares dos Santos Prado em uma lista tríplice que seria encaminhada ao capitão-geral, para a escolha do capitão-mor, que detinha o poder militar em uma Vila. (Mello Pupo, Celso Maria de, A primeira luta política e o primeiro capitão-mor de Campinas, in Monografia Histórica do Município de Campinas, IBGE, Rio de Janeiro, 1952, pág.197-211).

 

      Raimundo Álvares dos Santos Prado era afilhado político de Antônio Manuel de Melo Castro Mendonça, e os vereadores temiam que, se ele fosse incluído na lista, acabaria sendo escolhido capitão-mor da Vila de São Carlos. Os vereadores foram logo depostos pelo capitão-geral, e a 26 de abril de 1798 foi eleita uma nova Câmara Municipal. Mas as tensões com Castro Mendonça continuaram, e em 1801 as principais lideranças políticas locais foram presas, sendo levadas para Santos (Mello Pupo, op.cit).

 

      O conflito apenas foi encerrado com a posse do novo capitão-geral de São Paulo, Antônio José de Franca e Horta, a 10 de novembro de 1802. No dia 4 de março de 1804 foi finalmente empossado, pela Câmara da Vila de São Carlos, o primeiro capitão-mor, João Francisco de Andrade, escolhido pelos vereadores e confirmado pelo capitão-geral.

 

      O vigário padre Joaquim José Gomes teve papel relevante nesse período, procurando atuar como um mediador, um conciliador, em momento crítico para a vida local.

 

      Outro fato expressivo durante o longo paroquiato do padre Joaquim José Gomes foi o início do movimento pela construção de uma nova Matriz para a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Foi ele que teve a idéia de se construir uma nova Matriz (cf.página 51, Arquidiocese de Campinas: subsídios). A construção teve início aproximadamente em 1807, quando já havia sido indicado um local para a nova igreja.

 

      Também foi nomeada uma comissão local para conduzir as obras, sob a presidência de Felipe Néri Teixeira, substituído em 1812 pelo tenente-coronel Joaquim de Camargo Aranha. As obras seguiriam a passos lentos, pois a nova Matriz de N.S.da Conceição seria inaugurada apenas no final do século 19, após o desmembramento da Paróquia, em 1870.

 

      Durante o longo paroquiato, o padre Joaquim José Gomes teve vários coadjutores. Como o padre Albino de Godoi Moraes ou Souza Moraes (1798 a 1804), padre Luiz Antônio Lobo de Saldanha (1804-1809), padre Amaro Antunes de Conceição.

 

     Foi nesse período que se deu a primeira visita pastoral à Vila de São Carlos. Aconteceu em 1801, pelo quinto bispo da diocese de São Paulo, d. Mateus de Abreu Pereira. Natural da Ilha da Madeira, a 8 de agosto de 1742, foi confirmado bispo pelo papa Pio VI, em bula de 17 de junho de 1795, tomando posse a 19 de março de 1796.

 

     D.Mateus teve papel de destaque no movimento que levou à Independência do Brasil, a 7 de setembro de 1822. Faleceu a 5 de maio de 1824, sendo sepultado na Igreja da Sé paulistana. Governou a Capitania de São Paulo por quatro vezes. Foi durante seu bispado que viveu em São Paulo o Frei Antonio de Santana Galvão.

 

     Resultado da visita à Vila de São Carlos, entre 2 e 9 de setembro de 1801, d.Mateus escreveu um relatório, em que recomenda expressamente que uma nova Matriz, já idealizada na época por moradores, deveria ser construída no lugar daquela que já existia, ou seja, no local da atual Basílica do Carmo. Como se sabe, foi construída nova Matriz, em uma obra que durou décadas, mas em outra área, que se transformaria na atual Catedral de Nossa Senhora da Conceição. Este é um trecho do relato de D.Mateus sobre sua visita a Campinas:

 

      “Deve fervorosamente continuar (a comunidade) na obra da nova Matriz, no mesmo lugar em que se acha a atual, por ser o lugar mais povoado e mais cômodo para lhe ficar já servindo de capela mor o mesmo corpo, do que atualmente serve fervorando aos seus paroquianos, para que concorrer com suas esmolas para este tão necessário edifício (Ass.D.Mateus de Abreu Pereira, Vila de São Carlos, 7 de setembro de 1801)”. (in História da Cidade de Campinas, Volume II, Jolumá Brito, Campinas, 1956, página    ).

 

       Como se vê, a opinião do bispo era de que se fizesse a nova matriz onde se achava na época a primeira matriz. Porém, o que se decidiu foi fazer em outro lugar, onde hoje se acha a Catedral. A opinião de construção de nova Matriz em local alto e descampado foi de um grupo chefiado pela família Teixeira Nogueira e foi a opinião que venceu. Perdeu o grupo que desejava a matriz no mesmo lugar (cf.Mello Pupo, página 105), colocando de lado a opinião do bispo.

 

      A luta para a obtenção de recursos para manutenção da paróquia foi árdua.  A Festa do Corpo de Deus, que quase foi suspensa em 1803 por falta de recursos, não foi realmente realizada em 1804 pelo mesmo motivo, conforme decisão da Câmara Municipal de 28 de maio.

 

     Quase ao final do período do padre Gomes à frente da paróquia, a Igreja ainda perdeu o direito de receber emolumentos pelos enterros, em função de lei de 1o de setembro de 1828. Era uma razoável fonte de receita que se perdia. O enterro de um escravo havia sido avaliado em 2 mil réis em 1823.      

  

      Foi ainda no período do vicariato do padre Joaquim José Gomes que começou o movimento pela construção de uma cadeia pública em Campinas, ou seja, na Vila de São Carlos. Em 1814 foi expedida petição nesse sentido ao governo de São Paulo, lembrando que os presos em São Carlos ficavam sob ferros ou eram levados para Mogi Mirim, Jundiaí ou Itu, por falta de uma cadeia local, que logo seria construída.

 

      Do mesmo modo, foi padre Gomes quem presidiu o “Ato Solene de Levantamento, Juramento e Preito de Homenagem ao Soberano Português”, que havia transferido as cortes para o Brasil, em 1808. O padre Gomes convidou o padre Diogo Antônio Feijó, já grande líder político, que residia em sua fazenda em Campinas, a participar da cerimônia na Matriz, para fazer a preleção do dia.    

 

      O padre Joaquim José Gomes, que foi o primeiro vigário colado de Campinas, passou os últimos dias de sua vida enfrentando uma grave doença. Em razão de sua condição, foi nomeado um pró-pároco para a Paróquia de N.S.Conceição. Era o padre José Teixeira Vilela, que construiu uma torre de taipa para a Matriz e que antes de terminada veio abaixo em noite de chuvarada (cf.Mello Pupo, página 106) O falecimento do titular aconteceu a 27 de agosto de 1831. Terminava uma era. A Campinas do Açúcar tinha se transformado na Vila de São Carlos que começava a sentir a força e o cheiro do café.

 

     Em seu testamento, o padre Gomes deixou para a irmã, d.Ana Eufrosina Gomes, “um relógio de algibeira, chapéu de sol e biblioteca com 200 volumes”, o que era acervo razoável para a época, além de um relógio de parede (Jolumá, Volume II, página 44).

 

 

 

Padre Fasijó em sua passagem por Campinas

 

      Durante alguns anos o padre Joaquim José Gomes conviveu em Campinas com Diogo Antônio Feijó, que tem portanto em sua biografia uma importante ligação com a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. A ligação foi tão forte que o, depois, padre Feijó manteve para sempre conexão com a Vila de São Carlos e, depois, cidade de Campinas.

 

      A produção açucareira foi crescente. Em 1805 a Vila de São Carlos já estava exportando mais de 28 mil arrobas de açúcar. Outros produtos da época eram o arroz, o feijão, o milho e o trigo. Os recursos acumulados com o açúcar ajudaram a financiar os primeiros passos do núcleo urbano, a ponto da Vila contar em 1804, entre outros, com os serviços de 6 lojistas, 11 taverneiros, 4 donos de tropas para transportes, 2 alfaiates, 1 costureira e 1 rendeira. O setor da construção estava em expansão, representado por 1 construtor de casas para venda, 8 carpinteiros e 3 oleiros, entre outros profissionais do ramo.

 

      De qualquer modo, a força da cana e do meio rural ainda era total. Em 1804 a Vila de São Carlos contava com 34 engenheiros, ou seja, donos de engenho, 11 produtores de cana “de partido” e 361 agricultores de porte médio.

 

      A Vila de São Carlos, que progredia a olhos vistos com a cana-de-açúcar, às custas da derrubada das matas e do uso da mão-de-obra escrava, mas a riqueza que começava a ser produzida também financiou as primeiras iniciativas voltadas para o estabelecimento de um sistema educacional que se tornaria um dos destaques de Campinas e um dos principais aspectos de sua vocação iluminista.

 

     Os registros históricos indicam que um dos pioneiros do chamado “ensino de primeiras letras” em Campinas foi Antônio Diogo Feijó, nascido em 1784 e que se instalou na então Vila de São Carlos por volta de 1804, enquanto esperava a idade suficiente para se tornar padre. Os documentos da Câmara Municipal indicam que em 1804 os vereadores apelaram ao governador da Capitania, Antônio José de Franca e Horta, para confirmar a nomeação de Diogo Feijó como mestre-régio da Vila. E com Feijó começava o ensino de francês em Campinas – era o início de longo processo em que a cultura e a língua francesa exerceriam enorme influência nas elites e na vida geral campineira, aliás como em todo Brasil e no mundo.   

 

     Assim, entre 1804 e 1808 Feijó  esteve em Campinas, como mestre de primeiras letras, e se ordenou em 1809. Depois de receber uma herança, comprou um sítio em Campinas, que depois seria administrado por Raimundo Alves dos Santos Prado Leme. Depois teve grande carreira política, sendo eleito deputado às Cortes de Lisboa em 1821, defendeu a independência política do Brasil a 25 de abril de 1822 e por isso teve de se exilar na Inglaterra. Voltou ao Brasil e em 1828 votou a favor do fim do celibato. Depois lideraria a Revolução Liberal, de 1842, ano em que a Vila de São Carlos se transformou na cidade de Campinas.    

 

      Segundo João Lourenço Rodrigues, o já padre Feijó trabalharia cerca de quatro anos em São Paulo, e regressaria à Vila de São Carlos em 1812, quando além da língua portuguesa voltou a ministrar aulas de francês, retórica e lógica (RODRIGUES, João Lourenço, Subsídios para a História do Ensino em Campinas”, in Monografia Histórica do Município de Campinas,op.cit,  pag.390-392. Em 1818 padre Feijó transferiu-se para Itú, para integrar o corpo docente do Colégio dos Padres do Patrocínio, dirigido pelo padre Jesuíno de Monte Carmelo.   

 

      Em poucos anos o religioso se destacaria no cenário nacional como uma das principais lideranças políticas do Império, elegendo-se sucessivamente deputado e senador, antes de tornar-se o regente do Império durante o período em que d.Pedro II ainda não tinha idade suficiente para assumir o trono brasileiro. Em 1837 Feijó foi derrubado pelos conservadores, mas em 1841-42 se tornaria uma das principais lideranças da Revolução Liberal, que eclodiu no eixo Sorocaba-Campinas. 

 

     Mesmo fora o padre Feijó não se desligou de Campinas, onde mantinha propriedades rurais e uma casa, na atual rua Regente Feijó, no centro da cidade. A sua trajetória política indica o espírito liberal que marcou o processo educacional em Campinas desde os primórdios - dentro dos limites, é claro, do que o liberalismo significava na época.

 

      Além de ensinar francês e outras disciplinas, Feijó foi pioneiro em Campinas, então Vila de São Carlos, em outra atividade, que se tornaria muito prazerosa para os brasileiros em geral – ele foi grande praticante da natação, no rio Atibaia, quando o rio ainda se destacava por suas águas límpidas.

 

      Diogo Antônio Feijó foi batizado em São Paulo a 17 de gosto de 1784. Passou os primeiros quatro anos em Cotia, depois em Parnaíba, e entre 1795 e 1798 em Guaratinguetá.

 

    O padre Feijó tinha um carinho especial pelo início da história da Igreja e da cidade de Campinas. Tinha identificação total com os franciscanos que foram pioneiros na instalação da Paróquia de N.S. da Conceição.  Ele era Irmão Terceiro do Carmo. Depois de algum tempo perdidos, seus restos mortais foram encontrados no convento da Ordem Terceira de São Francisco, em São Paulo,  e transferidos para a cripta da Catedral de São Paulo, onde repousam.

 

 

 

Igreja do Rosário, um marco no Centro da cidade

 

      Durante o longo paroquiato do padre Joaquim José Gomes foi construída a terceira Igreja de Campinas, depois da capela provisória e da Matriz de N.S.da Conceição. Foi a Igreja do Rosário, iniciativa do padre Antônio Joaquim Teixeira, sobrinho do Frei Antônio de Pádua Teixeira. A igreja foi erguida onde hoje está a praça Guilherme de Almeida, no espaço diante do Palácio do Justiça.

 

      O padre Antônio teve apoio total da família Teixeira Nogueira para concretizar o sonho. Seu pai, Joaquim José Teixeira Nogueira, foi um dos maiores entusiastas da idéia e das obras, finalmente inauguradas em 1817, embora ainda de forma incompleta.

 

      Desde o início a Igreja do Rosário teve grande apoio e simpatia dos escravos. Eles colaboraram com esmolas para a construção do templo, até que nele se pudesse finalmente celebrar a Santa Missa. Um capela lateral foi construída, sob invocação do Senhor Bom Jesus da Pedra Fria, conforme informa Ricardo Gumbleton Daunt (in “Rosário, de Campinas”, no Almanaque Literário de São Paulo para 1881, pág. 137 a 141).

 

      Ornada com belas obras de inspiração bizantina, a Igreja do Rosário seria palco de acontecimentos importantes da histórica local. Para ela foi transferida a sede da paróquia de N.S. da Conceição, em 1846, durante a visita de D.Pedro II à cidade, pois a Matriz Velha estava em péssimo estado de conservação e a nova estava em construção. A sede ficou na Igreja do Rosário até 1852.

 

      Um século depois, houve uma grande revolta popular quando se soube que o projeto de alargamento da avenida Francisco Glicério, no centro de Campinas, exigia a derrubada da Igreja do Rosário, o que realmente aconteceu. Uma nova Igreja do Rosário foi construída no bairro do Castelo, na avenida Francisco José de Camargo Andrade.

 

 

 

 

 

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