Basílica do Carmo:

História de fé no coração de Campinas

 

José Pedro Soares Martins

 

Campinas, Ed.Komedi, 2010

 

 

Apresentação

Introdução

Síntese Introdutória

Primeira Parte

Antecedentes da Paróquia de N.Sra.do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Freguesia

1730-1774

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

1774-1779

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz do Carmo

1779-1870

Segunda Parte

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz Sta.Cruz do Carmo

1870-1938

Fase V

Matriz e Basílica N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

1939-2000

Fase VI

Transição para o Terceiro Milênio

2000 - e o futuro...

 

PARTE I

Antecedentes da Paróquia do Carmo

Fase I

Primórdios da criação da Paróquia

A carteira de identidade de Campinas

Pousos de tropeiros no meio do mato grosso

Busca da autonomia e assistência espiritual

Autorização para ereção da capela

Mandado de Comissão ao Vigário de Jundiaí em vista da construção da capela

A fundação de Campinas e da Paróquia (Freguesia) de N.Sra.da Conceição

Barreto Leme, tradição de desbravamento

Frei Antonio de Pádua Teixeira, o co-fundador

Os outros pioneiros da Cidade e da Igreja

Dom Frei Manuel da Ressurreição, atuação decisiva

Fase II

Instalação da Paróquia N.Sra.da Conceição

Largo do Carmo, marco zero de Campinas

Pe. José de Santa Maria Cunha

Inauguração da Matriz

Pe. André da Rocha Abreu

Pe. Manoel Joaquim de Freitas e outros Vigários

Pe. Joaquim José Gomes, a Vila de São Carlos e ideia de nova Matriz

Pe. Fasijó em sua passagem por Campinas

Igreja do Rosário, um marco no centro da cidade

Fase III

Paróquia de N.Sra.da Conceição até a divisão e criação da Paróquia de Sta.Cruz

Pe. Manoel José Ferreira Pinto

Pe. Joaquim Anselmo de Oliveira, crítico da escravidão, enquanto Campinas se torna cidade

Carlos Gomes, a música de Campinas para o mundo

Pe. Dr. João de Almeida Barbosa e o começo da ascensão do café

Primeira visita de Dom Pedro II (1846) e transferência da Matriz para a Igreja do Rosário

Situação do prédio da Matriz Velha

Pe. Antonio Cândido de Mello: novo susto e peste no Paço Municipal

Pe. Joaquim José Vieira, fundador do primeiro hospital de Campinas: a Santa Casa

Polêmica antes da criação da Paróquia de Sta.Cruz

 

Parte II

Paróquia N.Sra.do Carmo

Fase IV

Paróquia e Matriz de Sta.Cruz

Criação e instalação da Paróquia de Sta.Cruz, depois do Carmo

Auto de instalação da Nova Freguesia de Sta.Cruz na cidade de Campinas

Matriz de Sta.Cruz do Carmo na década de ouro do café e seu 1º Pároco

2º Pároco, Côn. Nery, no combate à febre amarela: um novo Bispo

Côn. Scipião, 3º Pároco. Pe. Landell de Moura, o "Pai do Rádio"

Pe. Landell, humildade de um grande cientista

Pe. D'Avila, 4º Pároco de Sta.Cruz do Carmo: Campinas pós febre amarela

Diocese de Campinas, no paroquiato de Côn. Barreto, 5º Pároco do Carmo

Côn. Otávio, 6º Pároco: guerra no mundo, bibliotecas em Campinas

Mons. Ribas D'Avila, 7º Pároco, quando a gripe espanhola assusta Campinas

Côn. Fragoso, 8º Pároco: centenário da Independência e novo Bispo

Côn. Idilio, 9º Pároco: uma nova Matriz, oficialização do nome definitivo da Paróquia do Carmo

Um escultor italo-brasileiro que fez história

Côn. Amaral, 10º Pároco: conclusão da Matriz do Carmo

Lélio Coluccini, o escultor de Campinas

O pintor das igrejas

Fase V

Matriz e Basílica de N.Sra.do Carmo

(desde 1939)

Côn. Aniger, 11º Pároco e o Congresso Eucarístico

Morte de Dom Barreto

Congresso Eucarístico

Côn. Raphael Roldan, 12º Pároco e o final da II Guerra Mundial

Mons. Lázaro, 13º Pároco: pintura e órgão para a Matriz

Vocação para a música

Côn. Geraldo Azevêdo, 14º Pároco: a Matriz se torna "Basílica do Carmo"

Breve papal de criação da Basílica Menor de N.Sra.do Carmo

1. O título de Basílica e o seu significado histórico

Símbolos da Basílica

2. A Igreja nas ondas do rádio e do povo

3. Campanha da Fraternidade

Celebrações

4. Transformações no Carmo

5. Outras Campanhas

6. Doença de Mons. Geraldo

7. Atuação pastoral e administração

8. Tempo de mudanças

Mais um Bispo do Carmo

9. Reestruturação para o futuro

10. Chegada do novo milênio e falecimento de Mons. Geraldo

Fase VI

Basílica no Terceiro Milênio

Côn. Pedro Carlos Cipolini, 15º Pároco: o protagonismo dos leigos e a missão na cidade

1. Comunhão e participação

2. Sólida formação para servir

3. Continuidade do restauro da Basílica, agora Patrimônio Histórico

4. Incentivo à participação e acolhimento: pólo missionário

Olhar para a comunicação

Celebrações emocionantes

5. Aprofundando o planejamento

Datas importantes para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 

 

PARTE  I

 

ANTECEDENTES DA PARÓQUIA DO CARMO

 

 Fase I – Primórdios da criação da Paróquia

 

A CARTEIRA DE IDENTIDADE DE CAMPINAS

 

      O Brasil é considerado o único país do mundo com uma “carteira de identidade”, um documento atestando o seu nascimento. É a Carta de Pero Vaz de Caminha, na qual o escrivão que acompanhou a frota comandada por Pedro Álvares Cabral registra em pormenores os primeiros contatos com a nova terra – que seria batizada de Terra de Santa Cruz – e seu povo. Por essa condição de testemunha privilegiada do “nascimento” do Brasil, Caminha é considerado o primeiro historiador das coisas do Brasil.

 

     O primeiro historiador de Campinas é o Frei Antônio de Pádua Teixeira, também autor de uma “carteira de identidade”, no caso o primeiro registro histórico da cidade, o documento intitulado “Breve notícia da fundação ou ereção desta Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Campinas”.

 

     O documento é a descrição sintética, feita pelo franciscano, da trajetória que levou à primeira capela erguida em Campinas, onde foi celebrada a primeira missa, pelo próprio Frei Antônio e outros dois religiosos.  A “Breve Notícia” foi incluída no Primeiro Livro do Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Campinas.

 

       Durante muito tempo esse Primeiro Livro do Tombo, com a importantíssima “Breve Notícia”, ficou desaparecido, tendo sido encontrado após uma peregrinação que guarda estreita verossimilhança ao que aconteceu com a Carta de Pero Vaz de Caminha.

 

      Por três séculos a Carta de Caminha esteve desaparecida. Apenas voltou à tona, com sua importância histórica, graças aos esforços do historiador português Manuel Aires do Casal, que a publicou em 1817, em “Corografia brazílica, ou relação histórico-geográfica do reino do Brazil. Composta e dedicada a sua Magestade Fidelíssima pelo presbítero Manuel Aires de Casal. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, volume 1, pág. 12-34.”

 

      A “Breve Notícia” de Frei Antônio de Pádua também permaneceu no anonimato, durante muito tempo, em função do desaparecimento do Primeiro Livro do Tombo de Campinas, logo após o Cônego Scipião F.Goulart Junqueira assumir a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em substituição ao padre José Joaquim de Souza e Oliveira.

 

      O Primeiro Livro do Tombo foi localizado na Diocese de São Carlos, entre 1922 e 1923, e imediatamente encaminhado ao segundo bispo de Campinas, d.Francisco de Campos Barreto. O bispo ordenou a restauração desse que é o primeiro conjunto de registros históricos da vida de Campinas, e que acabou perdendo importantes fragmentos durante o tempo em que esteve perdido.

 

      Mas o valor histórico da “Breve Notícia” permanece. No pequeno texto, o Frei Antônio de Pádua faz as primeiras indicações de como foi o processo de ocupação do território onde foi criada a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso. Por sua singeleza e precisão, o documento que ainda emociona mais de dois séculos depois de escrito é o primeiro sinal, a primeira comprovação de como a história de Campinas está intimamente vinculada com a história da sua primeira Igreja, que depois se tornaria a Basílica de Nossa Senhora do Carmo.

 

      Do mesmo modo, a ativa participação de Frei Antônio de Pádua na organização da Freguesia, inclusive sendo autor do seu primeiro registro histórico, é um claro indício de por que ele é considerado, por muitos autores, como o co-fundador de Campinas, ao lado de Francisco Barreto Leme, tido como o fundador oficial, e que assim passou à história, enquanto o papel do  piedoso franciscano tem ficado em segundo plano. 

 

      Depois do registro pioneiro de Frei Antônio de Pádua, que permaneceu por poucos anos à frente da nova Paróquia, dezenas e dezenas de especialistas se dedicaram a pesquisar a história de Campinas, permitindo-se hoje traçar um panorama mais fiel de que como era a terra e como vivia o seu povo antes da criação oficial da Freguesia, de modo concomitante com sua primeira Paróquia.            

 

Breve notícia da fundação ou ereção desta Freguesia de N. Senhora da Conceição de Campinas

 

      Sendo estes sertões trilhados por muito tempo com a estradas das minas de Goiaz, esteve alguns anos este caminho inculto» e depois vieram aos poucos, principalmente taubateanos, a fazer aqui suas habitações, por acharem fertilíssimas terras. E suposto vivessem com muita fartura de mantimentos, contudo padeciam fortemente pela falta de sacramentos, sem os quais, no decurso de 30 anos, faleceram perto de quarenta pessoas, isto por nenhuma causa mais do que pela grande longitude ou distancia em que existiam os moradores da sua freguesia de Jundiaí; por cuja razão viviam tão aflitos e desconsolados que muitas vezes sucedeu alcançarem licença para serem desobrigados em seus próprios sítios, dos preceitos quaresmaes; e para se sepultarem os mortos se fez um cemitério, que serviu até a nova ereção desta Freguesia. Para evitarem as calamidades espirituais que padeciam, intentaram requerer freguesia à parte, e sempre tinham por termos da sua esperança a alegação da sua pobreza; até que Deus, por sua infinita misericórdia, foi servido facilitar-lhes os meios para conseguirem o grande tesouro que hoje possuem, porque suscitou valeroso animo ao grande zelo de Francisco Barreto Leme, por cujo empenho e cuidado conseguiram, no ano de 1772, licença do Revmo. Governador do Bispado para erigirem sua freguesia à parte, desmembrada da de Jundiaí, a que eram sujeitos; e foi visitado e demarcado o lugar para a nova matriz, pelo Ver.Vigário de Jundiaí, em 73. E nisto ficaram até a chegada de D.Frei Manoel da Ressurreição, Bispo desta Diocese, ao qual representando-se-lhe o estado em que  jaziam, foi ele servido, pela sua inata piedade, conceder que fizessem uma capela interina até se concluir a nova matriz, e nomeou para pároco o Revmo. Frei Antonio de Pádua, Religioso da Ordem dos Menores de São Francisco, o qual celebrou a primeira missa depois de a benzer, e precedendo as mesmas cerimônias na dita capelinha aos 14 de julho de 1774, achando-se nesse dia o Rev.Padre Mestre Frei Manoel de Santa Gertrudes Ailuar, presidente atual do Mosteiro de São Bento, e o Ver.Padre Antonio do Prado Siqueira, Vigário de Mogi-Mirim, os quais ajudaram a solenizar aquele dia de tão universal contentamento, o qual se deve ao fundador Francisco Barreto Leme em 1o lugar; pois ansioso não anelava outra coisa mais que o aumento de sua matriz. Esta acha-se, no estado presente, coberta de telhas, e espera-se que com brevidade se ponha suficiente, conforme o zelo que tiver o novo pároco que vier, interpondo a sua diligência e o seu cuidado em pedir esmolas aos viandantes, que vão para as minas de Goiaz, e por todos os fiéis que puder e pelo mesmo povo lembrando-se que é seu único emprego o adorno da Igreja sua esposa

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      Esta freguesia principiou-se sem haver um vintém e até agora se tem gasto para cima de setecentos mil réis, e nada deve; e assim assista-nos o Divino Auxílio, que por meio de diligencia, que há de sempre ir em aumento, principalmente ajuntando-se muita gente, o que é verossímil, acabada a matriz”.    

 

 

      Comentando este escrito o Cardeal Agnelo Rossi escreveu: “Depreende-se claramente do relato que Campinas, como ocorreu com o Brasil e São Paulo, nasceu à sombra da cruz e com inspiração católica” (cf. in “Campineiro pela graça de Deus”, página 7)

 

 

 

POUSOS DE TROPEIROS NO MEIO DO MATO GROSSO

 

      Em sua “Breve Notícia”, Frei Antônio de Pádua faz referência aos “sertões trilhados por muito tempo com a estradas das minas de Goiaz”, para descrever o território onde foi instalada a freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso. O religioso cita ao mesmo tempo o aspecto físico, que ele chama de “sertões”, e o indício da atuação humana com motivação econômica, as estradas abertas para o acesso às minas de ouro encontradas no interior do país. Era a forma como começou a ocupação do território, para a qual concorreram vários ingredientes ambientais, econômicos e geopolíticos.

 

      A configuração ambiental de Campinas é muito peculiar. Ela se instalou precisamente na zona de transição entre duas regiões, a do Planalto Atlântico e a da Depressão Periférica, como salientam A Christofoletti e Hilton Federici (1).

 

      O Planalto Atlântico é caracterizado pelas elevações a partir da faixa litorânea, localizada ao nível do mar. A Serra do Mar, que atinge entre 800 e 1.000 metros de altitude, é o marco do começo do Planalto Atlântico, região formada essencialmente por rochas cristalinas e que, por essa condição, é o berço de alguns dos principais rios paulistas.

 

      Quando avança para o interior paulista, o Planalto Atlântico passa a perder suas características essenciais. Áreas mais baixas tomam o lugar dos morros e elevações em geral. É o princípio da Depressão Periférica, espécie de vale, de vertentes suaves, por onde escorrem os rios que se tornariam importante via de penetração pelo interior, como o Tietê e o Atibaia, que seria depois o grande manancial de abastecimento de água da região de Campinas.

 

      De fato, duas rotas de penetração predominaram no período colonial nessa região do país. Uma, fluvial, pelo Rio Tietê e afluentes. A outra, com o Caminho de Goiás, a estrada de terra aberta por determinação do então governador-geral da Capitania de São Paulo, Rodrigo César de Menezes. Em 1722 ele encarregou a Bartolomeu Bueno da Silva, o segundo Anhangüera, de abrir uma estrada para as minas de ouro do interior do país.

 

     O calor estava especialmente intenso naquele março de 1722. As chuvas eram intensas. Depois de passar por Jundiaí, onde já existia um núcleo urbano estruturado, a expedição comandada por Anhangüera se deparou, no meio do mato grosso (a grande floresta atlântica que chegava até a região de Campinas), com pousos de tropeiros instalados em três “campinhos”. Eram espaços na zona de transição entre o mato grosso e a zona de Cerrados, que começava exatamente na região de Campinas em direção ao interior.

 

      Esses três “campinhos”, típicos das “campinas”, de onde veio o nome da futura cidade, foram os antecessores do núcleo urbano de Campinas. Um deles ficava na altura do Córrego dos Lavapés, depois Córrego Proença, nas proximidades do local onde agora está o Estádio Brinco de Ouro da Princesa, do Guarani Futebol Clube. O segundo, na altura do atual Largo de Santa Cruz (Praça XV de Novembro), e o terceiro “campinho”, onde seria construída a primeira Igreja, atual Basílica do Carmo.

 

      Os tropeiros iam e vinham, mas aos poucos as áreas próximas dos “campinhos” foram sendo ocupadas, a partir das primeiras sesmarias concedidas na região. A primeira sesmaria, de 1728, concedida ao coronel Antônio da Cunha de Abreu, recebeu o significativo nome de “Campinhos do Mato Grosso”, mas não chegou a ser totalmente ocupada e povoada, segundo alguns historiadores, como Osmar Simões Magro (in “Centenário da Elevação de Campinas à Cidade”, “Correio Popular”, 5 de fevereiro de 1942). O centro da sesmaria concedida a Antônio da Cunha Abreu estava localizado aproximadamente no espaço onde foi construída a primeira Igreja de Campinas, a matriz da Conceição, depois Basílica de Nossa Senhora do Carmo.

 

      As outras sesmarias concedidas até 1774, ano da fundação da freguesia, foram: Estrada de Goiás, duas (1732), Ribeirão do Pinheiros (1732), Rio Jaguari (1737) e Rio Atibaia (1754). Junto com os sesmeiros, seus familiares e outros pioneiros de pequenas culturas, com destaque na época para o milho, que já era cultivado há tempos pelos indígenas, moradores originais da região.

 

      Entre 1740 e 1745 a incipiente comunidade recebeu um nome ilustre. Era Francisco Barreto Leme, que passou a residir na região com a esposa Rosa Maria e filhos. O casal veio de Caçapava Velha, da Freguesia de Taubaté, onde morou pelo menos até dezembro de 1740, segundo registros de cartório.

 

      Foi Francisco Barreto Leme quem protagonizaria, ao lado de outros “povoadores”, o movimento que resultou na criação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso, em 1774. Ao seu lado, outra figura decisiva, a de Frei Antônio de Pádua Teixeira.

 

 

 

BUSCA DA AUTONOMIA E ASSISTÊNCIA ESPIRITUAL

 

      Na “Breve Notícia”, Frei Antônio de Pádua Teixeira destaca como os primeiros povoadores de Campinas, apesar da “fartura de mantimentos”, sofriam com a “falta de sacramentos”, entre eles, aqueles relacionados à despedida dos mortos. Distante sete léguas (cerca de 50 km) de Jundiaí, a paragem de Campinas do Mato Grosso estava longe, portanto, dos sacramentos ministrados pelos religiosos daquela Freguesia, fundada em 1651, com a capela a Nossa Senhora do Desterro.

 

      O desejo de assistência espiritual direta, de estarem próximos da estrutura oficial da Igreja, está portanto na origem do movimento pela criação de uma freguesia própria.

 

      O outro motivo da petição pela criação da nova freguesia é político: os produtores rurais também almejavam autonomia administrativa, apostando no potencial econômico de uma localidade em visível crescimento, apesar de não apresentar ainda vida urbana propriamente dita.

 

      No primeiro censo promovido no interior paulista, em 1767, com o propósito de assegurar o controle do território e das atividades econômicos pelos representantes da Corte portuguesa, foram registrados cerca de 400 moradores na paragem das Campinas, incluindo os agricultores e seus escravos, distribuídos todos em 61 famílias.

 

      Segundo Celso Maria de Mello Pupo, um dos maiores historiadores dos momentos iniciais de Campinas, o censo de 1767 indicou a existência, de fato, de 38 “fogos” (núcleos familiares e produtivos), com 185 habitantes, pois ele exclui 15 “fogos” correspondentes à localidade de Rocinha, depois Vinhedo. (Página 28)

 

      Foram estes moradores que deflagram os primeiros movimentos pela criação de freguesia à parte de Jundiaí, na paragem das Campinas do  Mato Grosso. Foram três petições às autoridades eclesiásticas e administrativas, até a decisão favorável.

 

      A primeira petição data de 15 de setembro de 1772, e nela os signatários expressam o desejo de “erigir à sua custa  uma capela na paragem chamada Campinas onde tenham valimento espiritual, se não sempre, ao menos em várias ocasiões que por ali se acharem sacerdotes” (in Livro do Tombo 6, dos Arquivos da Cúria Metropolitana de Campinas).

 

      Construir, às suas próprias custas, uma pequena capela, para propiciar assistência espiritual. É do que se trata a singela primeira petição, encaminhada ao bispado de São Paulo.

 

     Assinaram a petição os moradores de Campinas: Francisco Barreto Leme, José de Sousa Siqueira, Diogo da Silva Rego (irmão de Barreto Leme), José da Silva Leme, Domingos da Costa Machado, Francisco Pereira de Magalhães,  Luis Pedroso de Almeida, Salvador de Pinho e Bernardo Guedes Barreto (filho de Barreto Leme).

 

      Curiosamente, um documento datado de 1772, pouco citado na historiografia de Campinas, sugere que Barreto Leme não estaria disposto a contribuir com a estruturação da nova Igreja. Afirma o documento, do padre encarregado pelo Cônego Lara e vistoriar a área onde seria construída a capela da nova freguesia:

 

"Ilmo e Revmo Sr Dr Governador

 

Informei-me de pessoas fidedignas sobre o alegado na petição retro; me certificaram ser o lugar destinado para a capela, que pretendem erigir os conteúdos no rol, suficiente, suposto ser a paragem algum tanto deserta, e dista desta freguesia dez léguas. As pessoas assinadas no rol, as mais delas pobríssimas, exceto o da cabeceira, que, nega ser a firma sua, e me disse que para a fatura da dita capela não pretende concorrer com coisa alguma, sendo o mais estabelecido naquele lugar; e verdade estar na paragem chamada Campinas um cemitério, ainda que com pouca decência, pelo pouco zelo dos moradores. Jundiaí, 25 outubro 1772" (in “História da Cidade de Campinas”, Volume I, Jolumá Brito, Campinas, 1956, página 139).

 

      Na realidade, sabe-se que Barreto Leme contribuiu e muito. Foi ele quem doou um quarto de légua de terras para a instalação da freguesia e construção da capela. E José de Sousa Siqueira, também entre os que assinaram a petição pela criação da nova freguesia, era dono de muitas terras.

 

     A polêmica estabelecida, segundo alguns estudiosos, era devido à  vontade de Barreto Leme e outros moradores de fundar uma Freguesia (paróquia), contra a vontade de outro grupo, de somente erguer uma capela ou oratório para as funções religiosas. Este grupo não queria paróquia devido aos custos da construção de uma Matriz e  sustento do pároco. Entao Barreto Leme teria se negado a este projeto “pequeno”, mas ajudou com generosidade o projeto e execução da criação da paróquia, construção da Matriz e manutenção do pároco que aliás mandou vir de Minas Gerais e era seu parente. 

 

      Assim Celso Maria de Mello Pupo descreve a doação de terras por Barreto Leme para a construção da Matriz: “Campinas foi fundada dentro das terras de propriedade de Barreto Leme, por ele doadas para a fundação, e com planejamento prévio: ruas de sessenta palmos (13,20 metros lineares) de largura e quadras mínimas de oitenta varas (88 metros lineares). É de se admitir que, nestas dimensões, o fundador tenha demarcado quadras unidas a matriz e limitadas pelas atuais ruas Barão de Jaguara, Barreto Leme, Sacramento e Bernardino de Campos, isto é, em torno da atual praça Bento Quirino, para o povoado que logo alcançou as outras ruas laterais da igreja”.

 

      O relato de Jolumá Brito a respeito: “A sesmaria do Taquaral foi concedida a Bernardo Guedes Barreto, filho do fundador, como consta do mesmo arquivo (Nota: Livro 6o das Sesmarias, página 26, Arquivo do Estado). Transferiu-se Antônio da Cunha (Nota: que recebeu a sesmaria dos “Campinhos”) para Juqueri, onde morreu, em 1760 e onde vive ainda numerosa descendência sua, sendo provável que tivesse vendido seu sítio a Barreto Leme, pois dentro dele foi demandado pelo vigário de Jundiaí, o terreno destinado à  construção da matriz” (“História da Cidade de Campinas”, Volume I, Jolumá Brito, Campinas, 1956, página 83).

 

       E segundo o mesmo Jolumá: “O dr.Ricardo Gumbleton, à pág.5 do seu excelente trabalho ‘os primeiros tempos de Campinas’ , diz que Barreto Leme dotou a ‘fábrica da nova paróquia, com o patrimônio de um quarto de légua de terreno, que se começou a medir desde um córrego dito do Barbosa, do lado do bairro de Santa Cruz, seguindo na direção da saída para Jundiaí e Itu’” (“História da Cidade de Campinas”, Volume I, Jolumá Brito, Campinas, 1956, página 116).

 

      De acordo com Antônio do Amaral Lapa: “O rocio foi doado pelo fundador Francisco Barreto Leme, que cedeu parte de sua propriedade à padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição. As suas terras acredita-se que fossem de uma das primitivas sesmarias, que pertencera a Antônio da Cunha de Abreu, medindo uma légua em quadra e tendo como referência dessa medição, segundo se acredita, o local do campinho do meio, onde hoje se encontra a praça Bento Quirino e a Matriz do Carmo” (Antônio do Amaral Lapa, “Campinas, Cantos e Antros”, página 49).

 

      Referências a respeito também foram feitas por Theodoro de Souza Campos Júnior, no artigo “História da Fundação de Campinas: Subsídios”, in Monografia Histórica do Município de Campinas, Rio de Janeiro, IBGE, 1952, p.44.

 

       O fato é que a autorização para a construção da capela foi finalmente dada, a 18 de janeiro de 1773, pelo Cônego Antônio de Toledo Lara, governador do bispado de São Paulo, dado que o bispo recentemente nomeado ainda não tinha tomado posse pessoalmente, pois estava vindo de Portugal. Estava aberto o caminho para a institucionalização da assistência espiritual permanente para os moradores da paragem das Campinas e, com ela, a própria autonomia política, com uma freguesia à parte de Jundiaí.

 

AUTORIZAÇÃO PARA EREÇÃO DE CAPELA

 

Faço saber aos que, por sua petição me representaram os moradores do Mato Grosso da Vila de Jundiaí que requerendo-me eles, suplicantes, para erigirem uma capela na paragem chamada Campinas, onde pudessem ser socorridos com os Sacramentos, dos quais, pela longa distancia de sua freguesia, padeciam grave falta, morrendo  no decurso de dezoito anos a esta parte vinte e três pessoas sem os sacramentos da Confissãoe Eucaristia, fomos servido mandar que juntassem escritura de dote de bens  de raiz, que rendessem ao menos anualmente seis mil réis para a reparação e fábrica da capela, e como mais fácil acharem erigir nova freguesia, onde são os moradores sessenta e uma famílias com trezentas e cinqüenta e sete pessoas de confissão, o que tudo se via do rol que juntavam, e que levantariam Matriz com todo o paramento necessário e casa para o Revmo. Pároco; pedindo-me por fim de sua súplica lhes concedesse e deferindo e atendendo a esta tão justa como louvável súplica, lhes mandei passar a presente, pela qual lhes concedo faculdade para erigirem a dita Igreja, no lugar que assinalar o Revmo. Pároco da Vila de Jundiaí, que fará a vistoria da paragem que dizem os suplicantes, na forma da comissão que para esse efeito lhes é enviada, com cláusula de que será a Igreja de taipas de pilão ao menos, e coberta de telha e de não ser benta e aprovada sem primeiro ser aprovada, aliás , sem primeiro se determinar e constituir congrua suficiente para o Reverendo Pároco que servir a dita Igreja e fábrica dela.

 

       Dado nesta cidade de São Paulo, sob o selo das Armas de S.Excelência Reverendíssima,  ou sem ele, causa , e meu sinal, aos dezoito de janeiro de 1773. E eu, Francisco Leandro Xavier de Toledo Rendon, escrivão da Câmara Episcopal, o escrevi.

 

(a) Antonio de Toledo Lara

 

Registrado no Livro do Registro Geral, a fls 14-V.15  São Paulo, 10 de maio de 1773.

 

 

 

      Ao lado da autorização, o  Cônego Antônio de Toledo Lara expede um Mandado de Comissão, ao Vigário de Jundiaí, para que providencie a vistoria do local mais indicado, na paragem de Campinas, para receber a igreja. O Mandado também data de 18 de janeiro de 1773.

 

MANDADO DE COMISSÃO AO VIGÁRIO DE JUNDIAÍ EM VISTA DA CONSTRUÇÃO DA CAPELA

 

Manda o Reverendo Pároco da Freguesia de Jundiaí que, sendo-lhe este apresentado indo selado com o sêlo das Armas de Sua Excia. Revma. e por mim, em seu cumprimento elegendo para escrivão desta diligência a pessoa que julgar mais capaz, a quem deferirá juramento dos Santos Evangelhos na forma do estilo, e depois de o receber da mão do mesmo escrivão, do que se fará têrmo por ambos assinado, pelo que se obriguema fazer a sua obrigação bem e fielmente, vá à paragem chamada Campinas, entre essa freguesia e a de Mogi-Mirim, e sendo aí procederá à vistoria no lugar que os mesmos tiverem destinado para edificarem a Igreja, examinando se este tem os requisitos que aponta a Constituição do Bispado no Livro 2°, título 17, n.° 687; e, achando conforme ela determina, o elegerá e assinara (sic) para edificação da mesma Igreja, dando as direções que aponta a mesma Constituição nos lugares citados para a capela-mor e porta da Igreja seguirem os rumos que nela se determinam, e se não achar com capacidade assinará o que achar melhor na dita paragem, observando o que fica, do que se fará auto de vistoria, que assinará e me remeterá com este, em maço fechado, cosido e lacrado, na forma do estilo pela Câmara Episcopal. Dado nesta cidade de São Paulo, sob o vale sem sêlo ex-causa, e meu sinal aos 18 de janeiro de 1773. E eu, Francisco Leandro Xavier de Toledo Rendon, escrivão da Câmara Episcopal, o escrevi"

 

(a) Antônio de Toledo Lara

Registrado no Livro de Registro Geral à fls.15,Sao Paulo, 10 de maio de 1773

 

 

 

      O vigário de Jundiaí de fato procedeu à vistoria em Campinas. A 22 de setembro de 1773 publicou seu “auto de vistoria e demarcação”, indicando como deveria ser construída a igreja:

 

      “(...) fez o dito Reverendo Juiz Comissário assinalar o lugar para a edificação da dita igreja, pondo no lugar da capela-mor uma cruz, e assinalando o lugar da porta da igreja seguindo o rumo do Sul e demarcando não só o âmbito da capela-mor, o qual tem quarenta palmos de comprimento e de largura trinta e dois palmos (*); e o corpo da Igreja até o arco do cruzeiro tem de comprimento oitenta e cinco palmos e de largura o corpo da mesma Igreja trinta e dois palmos (...)” 

 

      O lugar escolhido é exatamente onde hoje se ergue a Basílica do Carmo. Os primeiros passos estavam dados, para a construção da tão sonhada igreja. Outras duas petições seriam encaminhadas pelos moradores de Campinas. Uma segunda, em 1773, ampliando o escopo da reivindicação, para a criação de uma paróquia, configurando uma freguesia à parte de Jundiaí. E uma terceira petição, em 1774, quando a igreja já estava em construção. Foi uma petição no sentido de se instalar a paróquia em capela provisória em função da demora das obras da futura Matriz.

 

 

(*) Unidade de comprimento equivalente a 20 centímetros (cf. Dicionário Houaiss)

 

 

 

 

 

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