Capítulo I – Deus

 

Ó Deus, Pai amoroso de todos os homens e mulheres, criados à Vossa imagem e semelhança, Vós sois a fonte inesgotável de nossa dignidade humana e a razão mais profunda do nosso desejo de ser feliz. Conscientes dos limites humanos, enchemo-nos de esperança diante do Mistério da vinda do Vosso Filho, Cristo Jesus, que selou definitivamente a Aliança conosco. Concedei-nos conhecer e transmitir a revelação plena do Vosso amor, na escuta de Vossa Palavra e na fidelidade à Tradição, realizando como Igreja-Povo de Deus em comunhão, a missão redentora de Cristo, Senhor e Salvador, para que o mundo conheça o Evangelho da Vida. Amém.

 

1. O Ser Humano em busca da felicidade.

 

Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna. (Jo 3,16)

 

O desejo mais profundo do nosso coração é ser feliz. Não apenas por um momento, mas sempre e plenamente. Desejamos a realização total de nós mesmos, nas pequenas e nas grandes coisas. O nosso coração é feito para a beleza e a felicidade, para amar e ser amado, para buscar a verdade e para fazer o bem. Somos movidos pelo desejo e pelo anseio de realização na grande aventura da vida, por meio de encontros e da amizade, na construção do nosso futuro.

 

Ao mesmo tempo, somos limitados. Nossa experiência de vida inclui erros, injustiças e várias formas de sofrimento. Contudo, o desejo do coração se revela como desejo de infinito. Este sonho, descrito por grandes santos, místicos e artistas, corresponde ao nosso anseio por Deus: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto até que repouse em Ti”, rezou Santo Agostinho.

 

Este desejo de encontrar Deus, a busca do infinito, manifesta-se, ao longo da história, de várias formas, particularmente por meio das diferentes religiões. Na verdade, são muitos caminhos para entrar em comunhão com o Mistério do Amor. Na busca, o homem e a mulher se deparam com o desconhecido, percebem a sua limitação e o grande desafio que é descobrir o rosto de Deus.

 

 

2. Deus vem ao nosso encontro

 

Deus não nos deixa sozinhos em nossos desejos e pensamentos. Ele vem ao nosso encontro, mostrando-Se como a origem da vida, criador de todas as coisas e Se revelando na própria Natureza, onde Ele nos dá um permanente testemunho de Si.

 

Com efeito, Deus Amor, Vida plena, Vida de boa qualidade, comunica-Se conosco desde o princípio, através do Universo que criou. A nós compete descobrir na obra criada a assinatura do Autor. Deus está presente e também Se revela na História da humanidade e nas circunstâncias concretas da vida dos homens e mulheres.

 

Um Deus próximo,amigo, disponível, terno e misericordioso – Deus Pai. Um Deus que delicada e sutilmente, sem violentar a nossa liberdade, manifesta-Se diante de nossa intuição. E muitos cantaram agradecidos a presença e o amor de Deus. Algumas dessas intuições foram colecionadas em livros sagrados, como a Bíblia, por exemplo. Sai do fundo da alma esta linda canção, o Salmo 8:

Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso Teu nome em toda a terra! Tua majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus. Quando contemplo o firmamento, obra de Tuas mãos, a lua e as estrelas que lá fixaste, digo-me então: "Quem é o homem para pensares nele? Tu o fizeste quase igual aos anjos, de glória e honra o coroaste. Deste-lhe poder e lhe submeteste todo o universo. Senhor, nosso Deus, como é glorioso Teu nome em toda a terra!"

 

3. A Revelação de Deus.

 

Ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus

e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer. (Jo 1,18)

 

Deus, presença original na maravilhosa obra da Criação do Universo, na consciência e na história dos homens e mulheres, e nos sinais dos tempos, revela-Se também, e de forma muito especial, na Sagrada Escritura, na Tradição viva da Igreja e em seu Magistério.

 

3.1. A Sagrada Escritura

 

Deus acolheu a fé de um homem chamado Abraão, estabeleceu com ele aliança e constituiu, a partir de sua descendência, o Povo Eleito. Esteve sempre presente em sua história, inspirando Patriarcas, Juízes, Profetas e Reis, por meio de palavras e ações libertadoras. Essas ações e palavras inspiradas foram transmitidas oralmente de geração em geração e, pouco a pouco, anotadas sob a inspiração do Espírito Santo, tornaram-se o Primeiro Testamento – parte da Escritura Sagrada que narra o tempo de preparação para a vinda do Messias prometido, tempo de Esperança.

 

Na plenitude dos tempos, “o Verbo de Deus Se fez carne e veio habitar entre nós”. Deus toma a iniciativa de comunicar a Sua presença, entrando na história como homem: Jesus de Nazaré. Este é o instante decisivo para a vida e a história do mundo. Ele, Deus, na simplicidade de uma criança, torna-Se o grande acontecimento. Jesus cresceu em estatura, sabedoria e Graça diante de Deus e dos homens e, adulto, revelou-Se aos seus discípulos, concretizando a antiga promessa do Messias.

 

As primeiras comunidades cristãs, com o passar do tempo, atendendo à necessidade dos discípulos do Cristo e inspiradas pelo Espírito Santo, iam registrando os fatos da vida e os ensinamentos de Jesus, o Mestre e Senhor. Ao mesmo tempo em que viviam, aplicavam e explicavam esses ensinamentos às diferentes situações concretas. Homens de Deus, assistidos pelo Espírito Santo, prestaram este serviço à fé. Formaram assim um outro conjunto de escritos. Este novo conjunto, nascido à luz do Mistério da Ressurreição de Jesus, completava os Escritos Sagrados judaicos e os relia à luz da revelação plena de Deus em Jesus Cristo. É o Segundo Testamento.

 

O conjunto dos escritos judaicos e cristãos – Primeiro e Segundo Testamentos – é chamado Sagrada Escritura ou Bíblia e forma um único livro. É Palavra de Deus que nos dá a conhecer, de modo privilegiado, a Sua revelação.

 

3.2. A Tradição

O último Evangelho a ser escrito, de João, termina assim: “Ora, Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se todas elas fossem escritas uma por uma, creio que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que seriam escritos”.

Os encontros com Jesus de Nazaré eram sempre experiências que transformavam a vida. Suas palavras, gestos e sinais ficavam gravados de forma inesquecível em seus ouvintes. Como é natural, reunidas em pequenos núcleos da Igreja nascente, essas testemunhas transmitiam as suas memórias, iniciando uma cadeia de informações que, passando de geração em geração, chegou até nós.

Chamamos Tradição da Igreja o conteúdo desse rico processo de comunicação. A Tradição compreende os atos e palavras de Jesus que as primeiras comunidades cristãs, assistidas pelo Espírito Santo, reconheceram como autênticos e fundamentais para definir a identidade cristã. Sob esse aspecto, a Tradição complementa os Evangelhos: ela ajuda ao Povo de Deus a fortalecer a fé e conduzir a vida na busca da santidade.

Dizemos que a Tradição é viva, porque continua tão válida e necessária hoje quanto o foi para os cristãos que nos precederam.

Os cristãos buscam saborear melhor o patrimônio legado por Jesus. Sabem que Seus ensinamentos devem iluminar o mundo e dar sabor às questões relevantes vividas em cada tempo. A Tradição da Igreja, rica e inesgotável, a partir dos mesmos fatos originais, os reinterpreta sempre no contexto contemporâneo para o crescimento na compreensão da Verdade.

É importante não confundir Tradição com tradicionalismo. O tradicionalismo é um simples apego a fórmulas áridas, separadas da vida e sem força para manter a fé. A Tradição é fé autêntica que recebemos dos que nos precederam. Ela ajuda a preservar, através dos tempos, que mudam, a fidelidade a Jesus de Nazaré.

3.3. Sagrada Escritura e Tradição: um único tesouro confiado à Igreja

A Sagrada Escritura e a Tradição são realidades integradas e complementares. Em conjunto, elas nos revelam o Plano de Amor de Deus. Nossa vida tem sentido – a Salvação – e nós o acolhemos agindo de acordo com o plano de amor revelado por Jesus Cristo.

A Tradição indicou os textos sagrados que compõem a Bíblia e, ainda hoje, define os critérios para sua leitura e compreensão. Por seu lado, a Sagrada Escritura é a âncora que dá segurança para que a Tradição se mantenha fiel a Jesus Cristo.

3.4. O Magistério da Igreja

A tarefa de toda a Igreja – pastores e fiéis – é Evangelizar: viver e anunciar o Reino de Deus, expresso na Tradição e na Sagrada Escritura. Para cumprir sua missão, a Igreja busca conservar sua identidade no serviço generoso e indiscriminado, no diálogo fraterno com o diferente, no anúncio destemido do Reino de Deus e no testemunho de vida em comunidade. Permanece fiel ao que ela já era no desejo de seu fundador, Jesus Cristo.

Embora tendo enviado sobre toda a Igreja o Espírito da Verdade, Jesus Cristo confiou especialmente aos apóstolos e seus sucessores, os bispos, a função de ensinar e dirigir o Povo de Deus na fidelidade à Sua Palavra. É o serviço a que chamamos Magistério. A Igreja ensina e define a Verdade e o erro em assuntos de doutrina ou de  moral. Prega a Verdade, que não é sua, mas que lhe é confiada por Jesus. Anuncia o Evangelho por mandato de Cristo.

A autoridade do Magistério é autoridade a serviço da Palavra de Deus. Requer obediência e acolhimento fiel, tanto dos que ensinam quanto dos que recebem o ensinamento, pois a Verdade é sustentada pela presença do Espírito Santo.

Em alguns casos a Igreja define de modo solene a Verdade com a qual se compromete. É o magistério extraordinário, exercido pelo Papa ou pela reunião de todos os Bispos em Concílios Ecumênicos.

A Verdade revelada também se transmite no ensinamento cotidiano do Papa e dos Bispos. Esses pronunciamentos, chamados magistério ordinário, são acolhidos com fé, no amor que une a Igreja.

 

Capítulo II – Nossa Fé Católica

 

Pai Santo, nós queremos seguir os passos do Vosso Filho Amado, Jesus Cristo. Ele é o sinal vivo de Vosso Reino de Amor, já implantado entre nós, e nos deixou como missão irradiá-lo eficazmente a todos os nossos irmãos e irmãs. Sustentai-nos, Pai Santo, unidos em Comunhão, perseverantes no cuidado, fraternos e ardentes na missão. Que a consciência de filhos criados à Vossa imagem e semelhança nos ajude a superar conflitos e viver a compaixão. Amém.

 

1. A Verdade sobre Jesus Cristo

 

Conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres (Jo 8,32)

 

Falar sobre Jesus – O Filho do Homem – é tentar descrever o indescritível, penetrar no Mistério maior. Quando dizemos que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida e expressamos nosso desejo de seguir os Seus passos, é porque sabemos que se a humanidade fosse composta de seres como Ele, o Reino de Deus já estaria proclamado nesta terra. A mística de Jesus o levou a amar a Deus – Pai Criador – e sua ética originou a compaixão que dedicava a todas as criaturas.

 

1.1. A Pessoa de Jesus: Filho amado do Pai

 

Jesus nasceu em Belém da Judéia. Ele foi concebido por obra do Espírito Santo no seio virgem de Maria. Aquele que estava eternamente com o Pai entrou na nossa história, revestiu-Se da nossa humanidade, assumiu um rosto, um coração e um nome humanos.

 

Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Uma única pessoa em duas naturezas, sem divisão. Este é o Mistério da Encarnação, que o próprio nome hebraico de Jesus revela: Ieoshua significa Javé salva. Salvação é a capacidade de realização plena do ser humano.

 

No início da sua vida pública, Jesus foi batizado por João Batista, no Rio Jordão, na presença do Espírito Santo, e o Pai O proclamou como Seu Filho Amado. Nascia com Jesus o tempo da Graça – um jeito novo de relacionamento de Deus com a humanidade. Jesus viveu para o Pai, realizou a vontade do Pai, proclamou o Reino do Pai.  Depois de batizado, foi conduzido pelo Espírito ao deserto, e ali foi tentado durante quarenta dias. Vencendo a luta interior, Jesus abriu para o gênero humano a possibilidade de uma renovada amizade com Deus.

 

Jesus chamou a si aqueles que quis e escolheu dentre eles doze, a quem chamou Apóstolos, para que ficassem com ele e, no tempo oportuno, fossem enviados para pregar o Reino de Deus. Os escolhidos aceitaram formar com Jesus uma comunidade. Eles não foram chamados para aprender uma tradição religiosa ou uma filosofia, mas para entrar em comunhão com a Pessoa, a missão e o destino de Jesus. O mesmo convite feito aos doze se repete hoje a todos nós através da Igreja.

 

1.2. O Evangelho do Reino

 

O Reino de Deus e a sua realização constituem o tema central da vida de Jesus. Na Sua Pessoa e vida o Reino já se fazia presente. Realizavam-se as profecias que antecipavam a vinda do Messias: a Boa Nova era anunciada aos pobres; a libertação, aos presos e oprimidos; a recuperação da vista, aos cegos; e era proclamado o ano da Graça do Senhor.

 

Encontrar, compreender e seguir Jesus é experimentar o Reino de Deus. É possuir já, aqui na história, o definitivo, a eternidade, ainda que apenas em germe, pois sua realização plena se reserva para a dimensão futura.

 

1.3.  A presença do Reino

 

Jesus realizou muitos sinais. Todos eles expressão da presença amorosa de Deus em favor de seu povo. Ele não veio, entretanto, para abolir os males da terra, mas para libertar homens e mulheres da escravidão do pecado, que sufoca a nossa vocação de filhos de Deus. Jesus manifestou a misericórdia de Deus para os pecadores e excluídos. Ele comia e permanecia na companhia da gente menosprezada pela sociedade de seu tempo: publicanos, prostitutas, doentes – os ‘impuros’.

 

E Se justificava mostrando o jeito de agir do Pai Misericordioso na parábola do Filho Pródigo: Ele recebe com alegria e festa o filho transgressor que o abandonou e dilapidou seus bens, mas voltou arrependido. A prova suprema do amor pela humanidade é o sacrifício de sua própria vida em remissão dos pecados do mundo.

 

Jesus veio humanizar e libertar o humano. No ambiente religioso que tomava como absolutos os preceitos da Lei, do Templo e do Sábado, ele os relativiza, colocando o ser humano em primeiro lugar: anuncia que a Lei dos antigos pode e deve ser aperfeiçoada; que os verdadeiros adoradores não mais adorarão em lugares específicos, mas adorarão o Pai em espírito e verdade e que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.

 

Jesus ensinou aos discípulos como orar: vivenciando a mesma intimidade que Ele tinha com o Pai. Certo dia, quando terminava sua oração, um discípulo pediu-lhe que ensinasse a orar. Jesus disse, então, que orasse assim: “Pai Nosso, que estais no Céu...” Não era mais uma fórmula para ser decorada e recitada, mas um programa de vida a ser atualizado a cada dia.

 

1.4. Jesus, revelador do amor do Pai

 

Deus é o Pai de Jesus. A relação entre Eles é de profunda intimidade. Jesus é O Filho – de maneira especial e única. N’Ele e somente n’Ele todos nós somos filhos e filhas de Deus. Somos filhos pela Graça; Jesus o é por natureza.

 

Deus amou tanto o mundo que enviou Seu Filho para que, crendo n’Ele, não morramos, mas tenhamos a Vida Eterna. Deus ama até o ponto de dar aquilo que lhe é mais caro. Neste Seu dar-Se, o Amor constitui a Sua essência. Por isso, Deus é Amor.

 

1.5. O Messias, Ungido pelo Espírito Santo

 

Jesus foi ungido pelo Espírito Santo desde a Sua concepção. Cumprindo a profecia messiânica, realizou-se na Virgem Maria a promessa: “O Espírito Santo virá sobre ti e o Poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra. Por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus”.

 

Na sinagoga de Nazaré, Jesus proclamou que n’Ele se realizara a profecia de Isaias: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para evangelizar os pobres...” Toda a vida de Jesus foi conduzida pelo Espírito. Os sinais que realizou são frutos do Espírito de Deus. Pela obediência e abandono filial nas mãos do Pai, ressuscitou dos mortos e foi constituído Senhor e Cristo.

 

1.6. O Mistério Pascal de Cristo: morte e ressurreição

 

A plena liberdade vivida por Jesus, quebrando tabus sociais e religiosos que escravizavam homens e mulheres, criou grande tensão entre Ele e os grupos dominantes da sociedade e do Templo judaicos, que culminou no drama da cruz no Calvário. Jerusalém era a cidade onde os profetas tinham sido martirizados e Jesus – o Profeta por excelência – lá deveria morrer. Aparentemente venceu o poder da força. Cumpriu-se o que Ele mesmo já anunciara aos apóstolos: sua prisão, julgamento, condenação, crucifixão, morte e ressurreição.

 

Na véspera da condenação e morte de cruz, Jesus quis celebrar a Páscoa com seus apóstolos. Antes da ceia, ele lavou os pés dos discípulos, para dar o exemplo da humildade e do serviço generoso aos irmãos.

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, abençoou, partiu e o distribuiu, dizendo: “Tomem e comam todos, isto é o meu corpo”. Depois, tomou um cálice e, dando graças, deu-lhes, e todos beberam. E lhes disse: “Isto é o meu sangue – o sangue da Aliança que é derramado em favor de muitos”.

 

Com este gesto durante a ceia, Jesus instituiu a Eucaristia, memorial de sua oferta ao Pai pela salvação dos homens e mulheres, o seu corpo e sangue dados como alimento para seu Novo Povo – a Igreja.

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. O Pai entregou o Seu Filho por amor ao mundo. Jesus, o Filho do Homem, a Flor da Humanidade, aquele que veio para servir e dar sua vida em resgate de muitos, morre pregado numa cruz, desprezado pelos discípulos. A partir daí, toda existência humana será vivida como resposta ao Amor de Jesus, que entregou Sua vida por nós.

Mas Cristo não permaneceu sob o domínio da morte. Três dias passados, o Filho do Homem foi glorificado pelo Pai.

 

Cristo ressuscitou dos mortos! – eis o anúncio jubiloso que ecoou naquele domingo de Páscoa. O sepulcro vazio e as aparições aos discípulos são os sinais da Vida Nova de Jesus. Acontecimento extraordinário, com profundas conseqüências para o gênero humano. A ressurreição de Jesus é a certeza de nossa própria ressurreição.

 

Ressuscitado, Jesus vive entre nós e pode ser encontrado. Cada ser humano deve vivenciar sua própria experiência de encontro e adesão a Ele. Ser Cristão é seguir Jesus de Nazaré, é reconhecer n’Ele a Verdade – Verdade que liberta.

 

1.7. Jesus revela que Deus é Trindade

 

Cristo e o Espírito Santo, disse Santo Irineu (**), são as duas mãos do Pai que nos tocam e nos permitem experimentar e crer na presença da Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo. O Segundo Testamento revela fartamente a presença do Deus-Trino na vida, na pregação, na morte e na ressurreição de Jesus. Um exemplo: Jesus manda os apóstolos à missão: “Portanto, vocês devem ir e fazer que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando a observar tudo quanto Eu lhes ordenei”.

 

As três Pessoas não são três deuses, mas um só Deus em três pessoas. São distintas entre si por suas relações de origem: o Pai gera o Filho, o Filho é gerado Pelo Pai. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho como de um único princípio.

 

As três Pessoas não dividem a divindade, mas cada uma delas é Deus. A Criação, a Salvação e a Santificação são dons das três Pessoas Divinas. Entretanto, é atribuída a cada uma delas a realização de uma obra: o Pai é o Criador; o Filho, o Salvador e o Espírito Santo, o Santificador. Este é o Mistério da Santíssima Trindade.

 

Ser Cristão é estar em comunhão com as Três Pessoas Divinas, sem separá-las, deixando-se inserir no Mistério Trinitário. Ser Cristão é viver na força do Espírito, ter o Pai de Jesus como próprio Pai, vivendo com Ele a mesma intimidade do Seu Filho amado. Ser Cristão é ter Jesus como Irmão, nosso Salvador.

 

Feitos à imagem e semelhança de Deus-Trindade, nossa felicidade se realiza na experiência da comunhão, do amor, da doação da nossa vida ao outro. Ser Cristão é viver comprometido com a construção do Reino de Deus na história. Formamos, assim, a Igreja – que é o Povo de Deus reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. E podemos proclamar: Creio em Deus Pai, Filho e Espírito Santo!

 

2. A Verdade sobre a Igreja

 

Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os

em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. (Mt 28,19)

 

2.1. A origem da Igreja

 

A Igreja é parte do projeto de Deus, concebido, por amor, na eternidade. Ela foi prefigurada e preparada desde a origem pelas várias alianças de Deus com o Povo de Israel. A fundação aconteceu progressivamente, como uma gestação. A história da Igreja se refere a atos fundantes.

 

Foram atos fundantes, por exemplo, a escolha dos Apóstolos e a instituição da Eucaristia. O Povo de Israel era formado de doze tribos. Jesus, ao escolher doze Apóstolos, mostrou Sua intenção de fundar a Igreja – o Novo Israel que fora anunciado pelos profetas. Na instituição da Eucaristia o cordeiro pascal foi substituído pelo Corpo de Jesus. O cálice da Antiga Aliança foi substituído pelo cálice da Nova Aliança no sangue de Jesus.

 

Assim como Israel se tornou Povo de Deus através da Antiga Aliança, celebrada no Monte Sinai, Jesus, ao instituir a Nova Aliança, estava fundando a Igreja – o Novo Israel. Mas, sobretudo, atos fundantes da Igreja foram: a experiência pascal – paixão, morte e ressurreição de Jesus – e o acontecimento de Pentecostes, quando a Igreja se manifestou às Nações pela efusão do Espírito Santo. Naquela manhã a Igreja recebeu a sua configuração definitiva, assumindo a missão de evangelizar todos os povos.

 

A Igreja é a comunidade onde o Ressuscitado está presente: “Eis que eu estou com vocês todos os dias até a consumação dos séculos”.

 

Essa rica história mostra que a iniciativa de formar a Igreja não vem de seres humanos. Vem de Deus. A Igreja é dom de Deus à humanidade. Quando a Palavra de Jesus é anunciada na assembléia, é Ele mesmo que nos fala. Os Sacramentos que a Igreja celebra comunicam a força espiritual que provém do seu Mistério pascal. A Eucaristia forma o corpo da Igreja. Quem se alimenta do corpo de Cristo torna-se Um com Ele. Por isso, a Igreja é, a um tempo, divina e humana.

 

2.2. O que é, pois, a Igreja?

 

Igreja é uma realidade tão rica que não cabe nos limites de um conceito e a sua riqueza é, sobretudo, de natureza mística. Igreja é Mistério em sua relação com a Santíssima Trindade e na união íntima com o Ressuscitado. Dizer que a Igreja é Mistério não significa que seja um enigma complicado ou um problema indecifrável, mas uma realidade amorosa que é maior do que a nossa compreensão, realidade que nos desafia e nos seduz. Nela nós mergulhamos cheios de respeito, alegria e encantamento.

 

Os cristãos preferem usar imagens para exprimir o ser e a missão da Igreja, porque elas são mais expressivas do que definições. A compreensão da realidade através de imagens é aberta, jamais se esgota.

Algumas comparações podem ser lembradas: quando o Novo Testamento denomina a Igreja Templo de Deus ou Templo do Espírito Santo, (2 Cor 6,16) essa expressão não designa o edifício, mas a comunidade reunida. A Assembléia é o templo onde Deus habita.

 

Encontramos a imagem da esposa. A Igreja é chamada a Esposa de Cristo, pois ela forma com Ele uma totalidade – uma só carne. Esta unida a Ele pelo amor e pela fidelidade.(2Cr 11,2; Ef 5, 26.31-32)

A Igreja é também designada como mãe. É nossa Mãe e Mestra, porque nos comunica a vida divina através dos Sacramentos e porque nos ensina a Palavra de Cristo e educa nossa fé de verdadeiros discípulos de Jesus.

 

São Paulo usa três imagens de Igreja, que são complementares: Novo Israel (Rm 11,17-18), Corpo de Cristo (1Cor 12,13) e Templo do Espírito.(2Cor 6,16) Essas imagens mostram a dimensão Trinitária da Igreja: a criação do Pai (Povo de Deus), através da obra redentora do Filho (Corpo de Cristo), no Espírito Santo (Templo de Deus).

 

O Concílio Vaticano II privilegiou a imagem da Igreja como Povo de Deus (Lumen Gentium 9). A idéia de povo está ligada à igualdade fundamental entre os seus membros e Povo-de-Deus recorda que ela foi preparada desde a origem da história de Israel. É um povo sacerdotal, carismático, profético e missionário – povo que se organiza, participa e é fonte de esperança (1Pe 2,9-10).

 

A Igreja é Corpo de Cristo (1Cor 12,12-30). É uma realidade como o corpo humano: um conjunto organizado, cada membro (órgão) desempenhando sua atividade específica em vista do bem comum. Entre os membros do corpo existe mútua dependência e todos são importantes. Vigora entre eles a comunhão: quando um membro passa bem, a saúde repercute em todos os membros. Quando outro passa mal, o sofrimento afeta todo o corpo. Os membros da Igreja, Corpo de Cristo, são todos os batizados. Jesus, cabeça, age através do corpo e continua presente no mundo.

 

A Igreja se organiza para cumprir sua missão de Evangelizar. Como uma instituição a serviço de uma causa, ela tem sua visibilidade na sociedade, com leis próprias, ministérios ordenados (bispos, padres, diáconos), ministérios não-ordenados – (ministério dos cristãos leigos), a vida consagrada (religiosos e religiosas) e o laicato. Cada membro assume sua função e desempenha um serviço, sempre visando ao bem comum. Quando um membro da Igreja peca, a comunidade fica enfraquecida. Quando um membro se santifica, todo o conjunto fica revigorado.

 

É próprio do corpo, ter uma cabeça. Segundo São Paulo, a cabeça da Igreja é Cristo. (1Col 1,18) É d’Ele, do Ressuscitado, que provém a Vida da Graça para todos os membros da Igreja.

 

Finalmente, a Igreja é Templo do Espírito Santo. O Espírito é a alma da Igreja. Como a alma no corpo humano, o Espírito Santo está presente em toda a Igreja e em cada um de seus membros. Como a alma confere identidade ao corpo, assim o Espírito Santo dá identidade à Igreja.

 

Repetindo a pergunta inicial: - O que é, pois, a Igreja?

 

Tentamos sintetizar as diversas imagens, dizendo que a Igreja é a comunidade que, assistida pelo Espírito Santo, guarda a memória de Jesus Cristo, celebra a sua presença de Ressuscitado e O anuncia ao mundo.

Igreja não é a comunidade dos que crêem. Comunidade é uma realidade nova, maior do que a soma de indivíduos. É a fé da Igreja que torna possível o ato de crer de cada membro da Igreja.

 

A Igreja tem também uma Mãe: Maria, mãe do Filho de Deus encarnado, o Filho amado de Deus. Ao tornar-se mãe de Cristo, ela tornou-se mãe de todos os membros do seu corpo, que é a Igreja. O discípulo que estava ao pé da Cruz e recebeu Maria como mãe representava todos os discípulos de Cristo.

 

Maria de Nazaré foi a mulher escolhida para ser mãe do Filho de Deus. Sem colaboração humana ela concebeu o Filho de Deus, Jesus Cristo, por obra e graça do Espírito Santo. Por isso podemos chamá-la de Mãe de Deus. Ela foi escolhida gratuitamente para esta missão e Deus, em previsão dos méritos de Jesus Cristo, preservou-a do pecado desde sua concepção. Por isso, seu título de Imaculada. Ela é cheia de Graça, pois toda a sua vida correspondeu ao desígnio de Deus.

 

Maria é chamada Virgem – a Sempre Virgem Maria. Significa que Jesus foi concebido em seu seio apenas pelo poder do Espírito Santo. Jesus é filho somente do Pai Eterno, segundo a natureza divina e filho do Pai Eterno e de Maria, segundo a natureza humana. Maria permaneceu virgem antes, durante e após o parto. Sua virgindade permanente é o sinal do poder de Deus, que faz brotar a vida onde não há possibilidade de vida.

 

Também cremos que terminados os seus dias terrenos, Maria foi elevada aos céus de corpo e alma – ela já participa da plenitude da salvação, da qual participaremos no final dos tempos. Maria é a figura maternal da Igreja, discípula fiel e modelo de fé e amor para nós. Por isso a veneramos com especial carinho filial.

 

2.3. A Igreja existe para ser missionária

 

Evangelizar constitui a missão, a vocação da Igreja e a sua própria identidade. Ela existe para anunciar e ensinar, para ser a testemunha da Graça, reconciliar a humanidade com o Pai Misericordioso e perpetuar o sacrifício de Cristo na Santa Missa, memorial de Sua Morte e gloriosa Ressurreição. A origem da missão encontra-se na Santíssima Trindade, na missão do Filho e do Espírito Santo, enviados pelo Pai ao Mundo.

 

A atividade missionária da Igreja iniciou-se na madrugada do domingo de páscoa, quando Maria Madalena foi ao túmulo e o encontrou vazio. Logo ouve a alegre notícia: “Ele não está aqui. Ressuscitou. Vá anunciar a Pedro e aos seus irmãos” (**), e ela correu ao encontro dos discípulos. Em Pentecostes, começou a missão de anunciar o Reino de Deus a todos os povos da terra – missão que permanece até hoje. Após vinte séculos, existem povos que não ouviram o anúncio de Jesus Cristo. Mesmo em nossas cidades existem pessoas, ambientes e culturas que não conhecem a Boa Nova.

 

Através da ação da Igreja, a Palavra de Deus cresce e se multiplica no mundo. O Livro dos Atos dos Apóstolos, que faz parte do Novo Testamento, narra a história das primeiras comunidades e a ação dos Apóstolos, principalmente de Pedro e Paulo. Nele se lê que a Palavra crescia e se multiplicava. Desejava, assim, anotar que cresciam e se multiplicavam os que ouviam a Palavra, acolhiam-na e se tornavam missionários.

 

A missão tem sua fonte no encontro com o Cristo vivo, uma experiência pessoal. Foi o que aconteceu com a samaritana e com os discípulos. A experiência do encontro com Cristo muda radicalmente a vida. Não pode ser guardada. Deve ser comunicada, compartilhada.

 

Na Eucaristia nós nos encontramos com Cristo, de modo muito especial. Se a missão não for alimentada pela Eucaristia, perde a identidade. Torna-se proselitismo, propaganda, coisa de mercado. A Eucaristia é também o objetivo profundo da missão: fazer com que todos se tornem discípulos de Jesus, realizando o encontro pessoal com Ele.

 

A missão é resposta a uma busca. Existe nos nossos corações um anseio misterioso de ver Jesus, de encontrar alguém que seja Caminho, Verdade e Vida.

 

A missão é, para a Igreja, a causa das causas. O primeiro e mais importante serviço que presta ao ser humano. Nenhum membro da Igreja está dispensado da missão. Os pais, as famílias, os jovens, professores e operários – todos são missionários. Sobretudo as dioceses e as paróquias devem desenvolver uma ação planejada e preparar seus missionários com cuidado. Para atingir a todos, nós precisamos ser não só comunidades de acolhida, mas também comunidades de envio e do compromisso com a defesa da dignidade humana e preservação da vida.

 

3. A Verdade sobre o Ser Humano

 

Que coisa é o homem, para dele te lembrares, que é o ser humano

Para o visitardes? No entanto, o fizeste só um pouco menor que um Deus (Sl 8,5-6)

 

3.1. A importância da compreensão

 

A sociedade atual se ressente da verdadeira visão sobre o ser humano. Oscilamos entre dois extremos: de uma sociedade centrada unicamente em Deus, para uma cultura centrada na pessoa como critério absoluto de verdade. Aqui, não mais se valoriza a doação e a co-responsabilidade. Considera-se que o homem e a mulher tanto mais se realizam quanto mais rompem vínculos, que são sempre percebidos como limites para a sua autonomia.

 

Uma característica comum da visão contemporânea do ser humano é a fragmentação. A pessoa é considerada a partir de apenas uma de suas dimensões, gerando reducionismos que tomam como base unilateral ora a matéria, ora o espírito, a psicologia, a ciência ou a economia.

 

Está em jogo encontrar e assumir uma visão capaz de contemplar a totalidade dos fatores que compõem a vida do homem e da mulher, evitando respostas parciais. Somos convidados a reconhecer e acolher os vínculos que ligam o ser humano a Deus, aos outros e à Natureza, numa autêntica comunhão inter-pessoal. 

 

3.2. Homem e Mulher, imagem de Deus

 

A estrutura do ser humano decorre de ser criado à imagem e semelhança de Deus. No livro do Gênesis, nós lemos: ‘Deus disse: “– Façamos o homem como nossa imagem e como nossa semelhança” (...) E criou o homem à sua imagem, homem e mulher Ele o criou’.

 

O ato criador do homem e da mulher está ligado a toda a Criação. O texto bíblico afirma que Deus criou todas as coisas através da Palavra transformadora do caos original. E tudo o que  criou é bom. Por isso, homem e mulher, criados pelo Amor e para o Amor, devem viver a partir desse mesmo Amor.

 

Amor implica em resposta, a ser dada numa vida de comunhão, que se abre em múltiplas relações. As diversas relações existenciais do ser humano adquirem sentido e têm sua plenitude na relação com Deus. Santo Agostinho afirma que o ser humano foi feito para Deus e não se realiza sem Ele: “Meu coração está inquieto enquanto não repousar n’Ele”.

 

Homem e mulher, habitantes do mundo, são chamados a cultivar e guardar a natureza. Esse mandato divino assume hoje, cada vez com mais força, o caráter de urgência. O ser humano é chamado a perceber a importância de uma justa relação com o Cosmo. A Ecologia se apresenta como um processo de inter-relacionamento saudável da pessoa com o mundo em que vive. A relação com a natureza é conseqüência da relação com Deus e com as outras criaturas.

 

Ser criado à imagem e semelhança de Deus significa que a pessoa é livre, racional e chamada a amar. É diferente dos outros seres. A pessoa foi criada para a comunhão – qualidade divina que identifica sua origem e seu destino último, a matriz da qual procede e a meta na qual poderá encontrar a resposta daquilo que busca. E, ainda mais, o caminho para conduzir a própria existência, fazendo, já no tempo, a experiência, ainda que embrionária, da realização plena, do Reino de Deus.

 

Mas o ser humano, como os demais seres, é também criatura, E, como tal, comporta em si mesmo a limitação e a fragilidade. É um vaso de barro. Desta condição brota a possibilidade do pecado, uma opção da sua liberdade que, como conseqüência, o leva a experimentar o sofrimento.

 

Por isso, o ser humano necessita da Graça. Deus Criador é, também, o Deus Salvador. Criados em Jesus Cristo, somos chamados a viver n’Ele a nossa vocação para a santidade. O Pai nos predestinou para sermos Seus filhos adotivos por Jesus Cristo. E é o Espírito Santo quem opera esta promessa. Ele anima e dá vida, realizando em cada pessoa a obra da Santificação. O Espírito conforma o homem e a mulher a Jesus Cristo, tornando-os verdadeiros seguidores e testemunhas do Senhor Ressuscitado.

 

Quem está em Cristo é uma Criatura Nova: as relações consigo mesmo, com o outro e com o mundo se sublimam na relação com Deus, a tal ponto que o apóstolo Paulo afirma: “não sou mais eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. O encontro com o Senhor é o início de vida nova e contagiante.

 

Assim se antecipa a verdadeira Comunhão, quando cada um verá a Deus face a face, na plenitude do Amor.

 

3.3. A pessoa é chamada à comunhão

 

O homem e a mulher são seres relacionais. Nascem e crescem a partir de um ato criador de amor, tanto de Deus quanto de seus pais. Cada ser humano, único e irrepetível, como fruto dessas relações, necessita crescer também no amor. Um amor que tenha a marca da gratuidade, da misericórdia e do voltar-se desinteressado para o outro. A estrutura humana está relacionada, em primeiro lugar, com a sua dimensão comunitária: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda” – disse o Criador.

 

O homem anda à procura e deixa pai e mãe para encontrar a mulher. No encontro com ela, torna-se uma só carne, como, no encontro com o Pai, torna-se um só Espírito.

 

A pessoa é sempre um fim e nunca um meio. Ninguém tem o direito de servir-se dela, de usá-la como meio. Quando se abre exceção a essa regra e se usa como meio um ser humano, mesmo no estágio inicial de sua existência, mesmo quando ainda é embrião, é desvirtuado o sentido de pessoa, que passa a ser mais uma mercadoria no grande mercado do mundo.

 

A própria corporeidade, marcada pela diferença sexual que se realiza no encontro com o outro, é fonte de relação caracterizada pelo dom recíproco de si. No casal, essa relação está aberta para a procriação de novas vidas, através da comunhão inter-pessoal.

 

O corpo humano, com sua sexualidade – masculina ou feminina – quando visto no contexto do Mistério da Criação, não somente é fonte de fecundidade e de procriação, como, também, é capacidade de exprimir o amor, aquele amor no qual homem e mulher se tornam dons e realizam o sentido do seu ser e existir.

 

Deus nos criou livres. A liberdade é um dom de Deus e Ele a respeita. Tornar-se pessoa significa ser livre para doar a própria vida para o outro. Por meio de atos livres, a pessoa se forma como sujeito que existe em si e por si e, ao mesmo tempo, para os outros, fazendo-se dom de si mesmo.

 

A história da pessoa é a história de sua liberdade, isto é, da sua capacidade de amar, de fazer-se dom ao outro. A pessoa nasce e se afirma na sua singularidade no ato de amor, vivido como doação  sincera de si para o bem e para a felicidade do outro. É a imitação de Jesus Cristo, que viveu o amor na sua forma mais radical, até na entrega livre e total de sua vida.

 

     

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